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Protesto com o
próprio sangue
Com
automutilação, sul-coreanos
demonstram como a II Guerra
ainda perturba a Ásia
Fotos AFP
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Fotos AFP
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| Sul-coreanos
decepam dedo: contra visita de Koizumi a templo xintoísta (à
dir.) |
Chovia
na manhã de segunda-feira passada em Seul, capital da Coréia
do Sul, quando um grupo de vinte jovens se alinhou diante do Portão
da Independência, um conjunto de prédios que serviu de prisão
para nacionalistas coreanos durante os 35 anos de ocupação
japonesa, encerrada em 1945. Como num ritual, ajoelharam-se e cada um
deles colocou o dedo mínimo de uma das mãos sob uma guilhotina
improvisada com uma faca de cozinha. Com a outra mão, num gesto
rápido, deceparam a ponta do dedinho. O sangue ainda jorrava enquanto
os integrantes do grupo enrolavam o pedaço do dedo decepado numa
bandeira sul-coreana e gritavam impropérios contra o primeiro-ministro
do Japão, Junichiro Koizumi. A automutilação foi
protesto contra a visita que Koizumi fazia em Tóquio, naquele dia,
a um santuário xintoísta em memória dos soldados
japoneses mortos durante a II Guerra.
Reuters
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IMOLAÇÃO
A mais radical forma de protesto: sul-coreano se imola em protesto contra o Japão |
A China, a Coréia do Sul e outros países asiáticos
estão furiosos com a visita ao santuário que homenageia,
entre milhões de mortos, uma dúzia de figurões condenados
como criminosos de guerra depois da derrota, em 1945. Os dedos cortados
demonstram como as paixões estão inflamadas. O clima estava
tenso desde o início deste ano, quando se tornou público
que os livros escolares japoneses iriam omitir os barbarismos cometidos
nos países ocupados. Os vizinhos exigem reconhecimento oficial
da culpa pelos nipônicos e indenização para os sobreviventes.
O Japão nem sequer admite responsabilidade pelo período
imperialista, na primeira metade do século XX. Nesse aspecto, os
japoneses adotam uma postura diversa da alemã. No pós-guerra,
o governo da Alemanha não apenas se responsabilizou pelos horrores
do nazismo como pagou indenizações.
A visita do primeiro-ministro japonês ao santuário equivale
a um chanceler alemão prestar homenagem ao túmulo de Hermann
Goering, o braço direito de Adolf Hitler. Por que Koizumi, o primeiro-ministro
moderninho que prometeu reformar o Japão, está correndo
o risco de se indispor com a China e com a Coréia do Sul (sua parceira
na Copa do Mundo de 2002)? A explicação: aproveitando-se
da alta popularidade, Koizumi quis afagar a direita conservadora. O santuário,
no qual nenhum primeiro-ministro pisava desde 1985, é um símbolo
para aqueles que acham que o Japão não tem razão
para pedir desculpa. É interessante notar que ao lado do santuário
está o Museu da Guerra, que preserva a memória dos camicases
que jogavam seus aviões sobre os navios americanos ou dirigiam
pessoalmente os torpedos até o alvo. O sacrifício pessoal
é muito valorizado pela cultura japonesa. Se os vizinhos não
esquecem as humilhações, o Japão, que se orgulhava
de seu império e das tradições milenares, parece
ter deixado no acordo de rendição parte de sua alma. Os
nacionalistas não se conformam com a humilhação sofrida
pelo imperador Hiroito, que após a capitulação perdeu
sua condição de divindade, apesar de ter preservado o trono.
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HARAQUIRI
O escritor Yukio Mishima, no dia do suicídio: ritual samurai
contra rendição japonesa |
A mais espetacular manifestação desse sentimento foi o seppuku,
também conhecido como haraquiri, cometido pelo escritor Yukio Mishima,
em 1970. Um dos mais brilhantes intelectuais de sua geração,
Mishima invadiu um quartel com mais três seguidores e optou pela
forma mais solene de haraquiri: foi decapitado por um sabre do século
XVIII de um de seus seguidores. Como os nobres samurais, Mishima preferiu
a morte honrosa à humilhação, seguindo a mesma ética
de autoflagelo dos jovens sul-coreanos. Os dedos cortados mostram como
a determinação de se matar por uma causa honrosa vai além
da ilha nipônica e está entranhada na alma oriental. Neste
caso específico, trata-se de uma curiosa influência mútua:
a mutilação do dedinho, que os sul-coreanos utilizam em
protesto contra o Japão desde os anos 70, foi inspirada num ritual
da Yakuza, a máfia japonesa. A diferença é que os
chefões do crime organizado a utilizam para punir os traidores.
O martírio heróico não é, evidentemente, monopólio
do Extremo Oriente. Os fundamentalistas muçulmanos do Oriente Médio
prometem o céu a quem se explode amarrado a uma bomba matando dezenas
de inimigos em volta. A insistência oriental no auto-sacrifício,
contudo, não encontra paralelo no hemisfério ocidental.
Na China medieval, budistas costumavam imolar-se na crença de que
o fogo purifica a alma. O costume acabou sendo disseminado pela região,
mas há muito perdeu o caráter religioso e se firmou como
um protesto político. Mesmo no Tibete, país dominado por
intensa religiosidade, os monges que hoje ateiam fogo ao corpo o fazem
para chamar a atenção para sua causa pró-independência
de Pequim. O impressionante protesto dos sul-coreanos ressaltou os ressentimentos
que todos os países da região ainda guardam do Japão.
Na China, Taiwan, Tailândia, Filipinas, Indonésia e até
em Hong Kong, que viveram sob ocupação dos japoneses, há
manifestações populares com apoio do Estado. Durante a ocupação
da Coréia, pelo menos 200.000 mulheres foram usadas como escravas
sexuais pelos soldados enviados por Tóquio. A presença japonesa
na Manchúria, entre 1931 e 1945, foi marcada por massacres e até
pelo uso experimental de armas bacteriológicas. Só na cidade
chinesa de Nanquim, 350.000 pessoas foram massacradas numa orgia brutal.
No total, 20 milhões de chineses foram mortos pelos japoneses.
São atrocidades difíceis de esquecer.
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