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Como El Salvador
Em dez
anos, a criança brasileira passou
a viver mais e melhor mas ainda é pouco
Lourenço
Flores
Dário de Freitas
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No
meio do caminho
Em
1990, o Brasil se comprometeu a atingir 27 metas para melhorar a
situação da criança brasileira, mas conseguiu
cumprir apenas seis delas. Das cinco principais (veja
quadro), nenhuma foi integralmente alcançada
e o melhor desempenho aconteceu na taxa de mortalidade infantil
|
Em 1990,
a qualidade de vida das crianças brasileiras era semelhante à
das de El Salvador. No próximo dia 19 de setembro, quando o governo
brasileiro apresentar nas Nações Unidas um balanço
sobre como evoluiu a situação da infância no país
durante toda a década de 90, será possível constatar
que houve avanços consideráveis, mas também se concluirá
que o Brasil continua em pé de igualdade com El Salvador. Há
onze anos, o Brasil e outros setenta países assinaram um acordo
segundo o qual se comprometeram a atingir 27 metas diferentes para melhorar
a vida das crianças. Agora, chegou a hora de mostrar o resultado.
Lendo-se os indicadores, constata-se que o Brasil melhorou, mas das 27
metas o país só teve sucesso pleno em seis. "Houve avanços,
sem dúvida, mas ainda estamos muito atrás. Enquanto a conta
de juros receber mais que os setores de saúde e educação
juntos, vamos continuar com alguns péssimos indicadores", avalia
o empresário Oded Grajew, presidente do Instituto Ethos, entidade
que estimula ações sociais de empresas e trabalha com crianças
e adolescentes.
Nas seis
metas plenamente atingidas, aparecem ações nas quais o Brasil
historicamente vem fazendo um bom trabalho. São objetivos como
erradicação da poliomielite, redução de casos
e de óbitos por sarampo e ampliação das campanhas
de vacinação pública um campo em que o Brasil
é um exemplo mundial. Entre as 21 metas não cumpridas integralmente,
há pelo menos duas, relevantes, que o país esteve muito
perto de atingir. No caso da taxa de mortalidade infantil, área
em que o país teve seu desempenho mais festejado, houve queda significativa
na última década. A taxa de mortalidade, que era de 48,4,
caiu para 33,6 crianças de até 1 ano para cada 100.000
nascidas vivas. A meta era reduzir para 32,3. Isso se deve a uma série
de fatores. O país incentivou programas de atendimento pré-natal
das gestantes e tem, hoje, um exército de agentes comunitários
espalhado por todo o território nacional com a tarefa de acompanhar
de perto os primeiros meses de vida dos bebês. A queda no índice
de mortalidade infantil deve-se também à redução
da taxa de fecundidade da mulher brasileira. Em quinze anos, a média
de filhos caiu de 4,1 para 2,5. Outra razão do bom desempenho está
no sucesso de campanhas de vacinação contra difteria, coqueluche,
tétano, sarampo, pólio, tuberculose e tétano nas
mulheres em idade fértil.
Na área
da educação, o governo brasileiro também tem saldos
positivos a apresentar. A delegação brasileira nas Nações
Unidas vai bater na tecla de que praticamente universalizou o acesso à
educação básica. Hoje, 96% das crianças estão
na escola contra 85% há dez anos e 82,9% chegam à
5ª série. A meta era colocar todas as crianças nos
bancos escolares, o que ainda não se conseguiu, mas o governo espera
que a comunidade internacional reconheça que o avanço foi
gigantesco. "A educação será o primeiro serviço
público brasileiro realmente universal", festeja o ministro da
Educação, Paulo Renato Souza, que chefiará a missão
brasileira encarregada de apresentar o balanço nas Nações
Unidas.
O número
mais feio que o Brasil apresentará se refere à taxa de mortalidade
materna. A meta era reduzir à metade o índice de gestantes
mortas no parto. Ao invés de cair, esse índice, que já
era alto, subiu. A explicação oficial para um desempenho
tão ruim é que, em 1990, os números estavam "distorcidos"
e "fora da realidade", pois havia um grande volume de subnotificações
de mortes de gestantes. No início da década de 90, apenas
2 milhões de mulheres tinham acompanhamento pré-natal. Hoje,
são 10 milhões. Assim, o crescimento do número de
mortes de mulheres em partos pode ser resultado de um "ajuste" estatístico,
levando-se em conta que o universo pesquisado aumentou cinco vezes de
tamanho. Mas o balanço elaborado pelo governo brasileiro, e que
será analisado nas Nações Unidas, traz uma confissão:
"Apesar dos marcantes avanços encontrados nas coberturas de planejamento
familiar, pré-natal e parto hospitalar, a qualidade dessa assistência
ainda é questionável". Como se vê, ainda há
muito trabalho pela frente.
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