
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Xô,
urubu
"Quando
me diziam que
Paulo Coelho era inofensivo,
eu alertava que ele era muito
mais perigoso do que parecia"
Eu estava a 2.100 metros de altura. Tinha tomado um teleférico
nas proximidades de Cortina d'Ampezzo, no norte da Itália, e me
preparava para prosseguir a pé até o topo da montanha, atravessando
um bosque cheio de marmotas e cervos. A seguir, pretendia parar num chalé
para comer lingüiça com cogumelos e polenta. Tocou o telefone
celular. Era um jornalista da rádio pública suíça.
Queria um depoimento sobre Jorge Amado, morto na noite anterior. Nunca
havia passado pela minha cabeça que alguém pudesse me perguntar
a respeito dele. De fato, respondi que preferia não dar um depoimento,
porque não saberia o que dizer. O jornalista insistiu, sugerindo
que eu me limitasse a quantificar o tamanho da perda de Jorge Amado para
a literatura brasileira. Com um certo embaraço, confessei que não
o lia fazia mais de vinte anos. Para mim, portanto, a perda não
era tão grande assim. Desliguei o telefone e subi a montanha.
Os turistas em Cortina d'Ampezzo costumam fazer algo chamado "piscina",
ou seja, ir para cima e para baixo na rua principal. Os turistas italianos
são os maiores especialistas em matéria de "piscina". Além
de percorrerem mais vezes a rua principal, fazem questão de se
fantasiar com trajes típicos da região, semelhantes aos
tiroleses. No dia seguinte ao telefonema do jornalista suíço,
em vez de me dedicar à "piscina", com calças curtas de camurça,
botinas e suspensórios, tranquei-me no quarto de hotel e conferi
os jornais brasileiros na internet. Ninguém tinha sido desprevenido
como eu. A imprensa estava com necrológios prontos desde que Jorge
Amado deu entrada no hospital, semanas antes de sua morte. Os editores
de cultura só torciam para que ele morresse antes de mandar a edição
do dia para a gráfica, a fim de dar a notícia fresca. Seus
amigos também já tinham pensado em belas frases comemorativas,
ditadas aos jornalistas com as vírgulas no lugar certo. Alberto
da Costa e Silva, por exemplo, falando em nome da Academia Brasileira
de Letras, comparou Jorge Amado a Homero, na medida em que "relatou a
história real e íntegra do povo". Que eu saiba, Homero contou
histórias de deuses e heróis que enfrentam ciclopes e sereias,
lixando-se para a realidade e, sobretudo, para o povo. O escritor chileno
Luis Sepúlveda recordou as conversas que tinha com Jorge Amado
sobre o proletariado. Era uma peculiaridade do autor baiano: no Brasil,
ele era ACM, mas virava comunista assim que punha os pés no exterior.
O escritor peruano Mario Vargas Llosa evocou o amor de Jorge Amado pelas
sensuais mulheres baianas. Curioso que, apesar disso, ele tenha vivido
por meio século grudado a uma paulista descendente de italianos.
Mas o pior foi Paulo Coelho. Aos prantos, declarou que nunca escreveu
sobre o Brasil, porque Jorge Amado já tinha dado conta do recado.
Optou por escrever sobre a Espanha e o Egito, países sobre os quais,
presume-se, nada de bom foi escrito. Depois Coelho disse que construiu
sua literatura em torno de dois Jorges: Borges e Amado. Quando meus amigos
diziam que Coelho era inofensivo, com sua sabedoria comezinha de pára-choque
de caminhão, eu alertava que ele era muito mais perigoso do que
parecia. Aí está a prova. Que ele tente adquirir um pouco
de dignidade literária, ligando seu nome ao de Jorge Amado, por
mais impróprio que seja, não me afeta muito. Apropriar-se
dos restos mortais de Jorge Luis Borges, porém, não pode.
Eu não deixo. Xô, urubu.
|
|
 |