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Edição 1 714 - 22 de agosto de 2001
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Xô, urubu

"Quando me diziam que
Paulo Coelho era inofensivo,
eu alertava que ele era muito
mais perigoso do que parecia"

Eu estava a 2.100 metros de altura. Tinha tomado um teleférico nas proximidades de Cortina d'Ampezzo, no norte da Itália, e me preparava para prosseguir a pé até o topo da montanha, atravessando um bosque cheio de marmotas e cervos. A seguir, pretendia parar num chalé para comer lingüiça com cogumelos e polenta. Tocou o telefone celular. Era um jornalista da rádio pública suíça. Queria um depoimento sobre Jorge Amado, morto na noite anterior. Nunca havia passado pela minha cabeça que alguém pudesse me perguntar a respeito dele. De fato, respondi que preferia não dar um depoimento, porque não saberia o que dizer. O jornalista insistiu, sugerindo que eu me limitasse a quantificar o tamanho da perda de Jorge Amado para a literatura brasileira. Com um certo embaraço, confessei que não o lia fazia mais de vinte anos. Para mim, portanto, a perda não era tão grande assim. Desliguei o telefone e subi a montanha.

Os turistas em Cortina d'Ampezzo costumam fazer algo chamado "piscina", ou seja, ir para cima e para baixo na rua principal. Os turistas italianos são os maiores especialistas em matéria de "piscina". Além de percorrerem mais vezes a rua principal, fazem questão de se fantasiar com trajes típicos da região, semelhantes aos tiroleses. No dia seguinte ao telefonema do jornalista suíço, em vez de me dedicar à "piscina", com calças curtas de camurça, botinas e suspensórios, tranquei-me no quarto de hotel e conferi os jornais brasileiros na internet. Ninguém tinha sido desprevenido como eu. A imprensa estava com necrológios prontos desde que Jorge Amado deu entrada no hospital, semanas antes de sua morte. Os editores de cultura só torciam para que ele morresse antes de mandar a edição do dia para a gráfica, a fim de dar a notícia fresca. Seus amigos também já tinham pensado em belas frases comemorativas, ditadas aos jornalistas com as vírgulas no lugar certo. Alberto da Costa e Silva, por exemplo, falando em nome da Academia Brasileira de Letras, comparou Jorge Amado a Homero, na medida em que "relatou a história real e íntegra do povo". Que eu saiba, Homero contou histórias de deuses e heróis que enfrentam ciclopes e sereias, lixando-se para a realidade e, sobretudo, para o povo. O escritor chileno Luis Sepúlveda recordou as conversas que tinha com Jorge Amado sobre o proletariado. Era uma peculiaridade do autor baiano: no Brasil, ele era ACM, mas virava comunista assim que punha os pés no exterior. O escritor peruano Mario Vargas Llosa evocou o amor de Jorge Amado pelas sensuais mulheres baianas. Curioso que, apesar disso, ele tenha vivido por meio século grudado a uma paulista descendente de italianos.

Mas o pior foi Paulo Coelho. Aos prantos, declarou que nunca escreveu sobre o Brasil, porque Jorge Amado já tinha dado conta do recado. Optou por escrever sobre a Espanha e o Egito, países sobre os quais, presume-se, nada de bom foi escrito. Depois Coelho disse que construiu sua literatura em torno de dois Jorges: Borges e Amado. Quando meus amigos diziam que Coelho era inofensivo, com sua sabedoria comezinha de pára-choque de caminhão, eu alertava que ele era muito mais perigoso do que parecia. Aí está a prova. Que ele tente adquirir um pouco de dignidade literária, ligando seu nome ao de Jorge Amado, por mais impróprio que seja, não me afeta muito. Apropriar-se dos restos mortais de Jorge Luis Borges, porém, não pode. Eu não deixo. Xô, urubu.

 
 
   
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