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Edição 1 714 - 22 de agosto de 2001
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Sérgio Abranches

O Brasil que
pessimista não vê

"O Brasil mudou para melhor, seja
em comparação com ele mesmo,
seja em comparação com outras
nações emergentes"


Ilustração Ale Setti


Nós, brasileiros, somos hipersensíveis à piora do ambiente econômico e social. Na crise, ficamos irritados com o governo e pessimistas em relação ao país. Passamos a dar mais importância àquelas comparações simplistas, como a que nos diz que temos a maior desigualdade do mundo. Aceitamos que confundam baixa renda com indigência. Acreditamos que estamos à beira do colapso social.

Quem nos olha de fora fica achando que somos incapazes de ver as mudanças que ocorrem no país. Não significa fechar os olhos às nossas mazelas, achar que não há pobreza no Brasil ou que nossas desigualdades não incomodam. Incomodam, principalmente as duráveis, que, como tenho escrito aqui, vêm da discriminação de negros e mulheres. Mas ter uma perspectiva adequada do que é positivo e negativo nos permite agir de forma mais racional e combater essas visões emocionais, freqüentemente baseadas em metodologia tosca, que desenham um futuro trágico para o Brasil.

Perspectiva é algo que ilude mesmo. Considerem, por exemplo, duas visões alternativas do risco Brasil. A Standard & Poors, que examina os países sob a ótica do mercado financeiro e do curto prazo, acaba de reduzir a nota do Brasil, porque acha que nosso risco aumentou. A A.T. Kearney, que analisa os países do ponto de vista do investimento direto – em atividades produtivas –, acaba de aumentar a nota do país, elevando-o ao terceiro lugar entre os mercados mais atraentes para os investimentos das 1.000 maiores empresas do mundo. Passou a Inglaterra, ficando atrás apenas dos Estados Unidos e da China. A visão do Brasil, neste ano, melhorou para 27% dos executivos dessas empresas e piorou para apenas 7%. Diferente de nossa própria auto-avaliação.

Quando se trata do primeiro investimento externo da empresa, o Brasil é o principal destino, atraindo 40% do total das intenções de aplicação. China e Índia são o segundo e o terceiro, respectivamente. Quem é contra o investimento estrangeiro, claro, há de achar isso irrelevante ou ameaçador. Paciência.

O Brasil só perde para a China por causa do tamanho do mercado consumidor. Mas o fato de que os chamados gigantes emergentes sejam o Brasil, um país com 173 milhões de habitantes, a China, com 1,3 bilhão, e a Índia, com 1 bilhão, já dá o que pensar. Primeiro, essas duas populações imensas têm mais pobres e mais barreiras sociais à expansão continuada de seus mercados que o Brasil.

Segundo, esses dois países têm estruturas institucionais mais instáveis e de maior risco que o Brasil. Condições regulatórias mais estáveis, maior segurança dos contratos e ambiente mais amigável aos investidores fazem do Brasil um país de risco médio. Os dois são de alto risco.

Terceiro, China e Índia enfrentam um risco claro e presente de convulsão social por causa de desigualdades crescentes e sérias contradições entre diferentes setores de sua sociedade. Na China, forma-se um abismo entre os habitantes das ilhas afluentes de capitalismo, como Xangai, e os do continente socialista e pobre, como Xanxi. Os moradores de Xangai podem ficar milionários em poucos anos. Os de Xanxi vivem em condições quase medievais. Na Índia, o sistema de castas impede que os miseráveis das camadas sociais inferiores se movam livremente em busca de emprego ou se casem com alguém de casta mais elevada. Há alguns dias, a imprensa contou a história de dois jovens namorados, de castas distintas, enforcados e queimados por seus pais, porque se encontravam às escondidas, apesar de alertados da proibição. Ninguém foi preso. O sistema é uma das expressões contemporâneas da barbárie institucionalizada. No Brasil, há mobilidade social, a pobreza é redutível. Mesmo com toda a discriminação, negros e mulheres têm melhorado de situação. A classe média negra, que não existia praticamente há vinte anos, já é significativa. Melhoramos o suficiente? Não. Vencemos todos os desafios civilizatórios? Não. Podemos descansar em berço esplêndido? Não.

Mas é certo que o Brasil mudou para melhor, seja em comparação com ele mesmo, há dez e há vinte anos, seja em comparação com outras nações emergentes do mundo. O resto é cegueira ideológica, má-fé ou incompetência analítica.

 

Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)


 
 

 

   
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