
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Sérgio
Abranches
O Brasil que
pessimista não vê
"O
Brasil mudou para melhor, seja
em comparação com ele mesmo,
seja em comparação com outras
nações emergentes"
Ilustração Ale Setti
 |
Nós, brasileiros, somos hipersensíveis à piora do
ambiente econômico e social. Na crise, ficamos irritados com o governo
e pessimistas em relação ao país. Passamos a dar
mais importância àquelas comparações simplistas,
como a que nos diz que temos a maior desigualdade do mundo. Aceitamos
que confundam baixa renda com indigência. Acreditamos que estamos
à beira do colapso social.
Quem nos
olha de fora fica achando que somos incapazes de ver as mudanças
que ocorrem no país. Não significa fechar os olhos às
nossas mazelas, achar que não há pobreza no Brasil ou que
nossas desigualdades não incomodam. Incomodam, principalmente as
duráveis, que, como tenho escrito aqui, vêm da discriminação
de negros e mulheres. Mas ter uma perspectiva adequada do que é
positivo e negativo nos permite agir de forma mais racional e combater
essas visões emocionais, freqüentemente baseadas em metodologia
tosca, que desenham um futuro trágico para o Brasil.
Perspectiva
é algo que ilude mesmo. Considerem, por exemplo, duas visões
alternativas do risco Brasil. A Standard & Poors, que examina os países
sob a ótica do mercado financeiro e do curto prazo, acaba de reduzir
a nota do Brasil, porque acha que nosso risco aumentou. A A.T. Kearney,
que analisa os países do ponto de vista do investimento direto
em atividades produtivas , acaba de aumentar a nota do país,
elevando-o ao terceiro lugar entre os mercados mais atraentes para os
investimentos das 1.000 maiores empresas do
mundo. Passou a Inglaterra, ficando atrás apenas dos Estados Unidos
e da China. A visão do Brasil, neste ano, melhorou para 27% dos
executivos dessas empresas e piorou para apenas 7%. Diferente de nossa
própria auto-avaliação.
Quando se
trata do primeiro investimento externo da empresa, o Brasil é o
principal destino, atraindo 40% do total das intenções de
aplicação. China e Índia são o segundo e o
terceiro, respectivamente. Quem é contra o investimento estrangeiro,
claro, há de achar isso irrelevante ou ameaçador. Paciência.
O Brasil
só perde para a China por causa do tamanho do mercado consumidor.
Mas o fato de que os chamados gigantes emergentes sejam o Brasil, um país
com 173 milhões de habitantes, a China, com 1,3 bilhão,
e a Índia, com 1 bilhão, já dá o que pensar.
Primeiro, essas duas populações imensas têm mais pobres
e mais barreiras sociais à expansão continuada de seus mercados
que o Brasil.
Segundo,
esses dois países têm estruturas institucionais mais instáveis
e de maior risco que o Brasil. Condições regulatórias
mais estáveis, maior segurança dos contratos e ambiente
mais amigável aos investidores fazem do Brasil um país de
risco médio. Os dois são de alto risco.
Terceiro,
China e Índia enfrentam um risco claro e presente de convulsão
social por causa de desigualdades crescentes e sérias contradições
entre diferentes setores de sua sociedade. Na China, forma-se um abismo
entre os habitantes das ilhas afluentes de capitalismo, como Xangai, e
os do continente socialista e pobre, como Xanxi. Os moradores de Xangai
podem ficar milionários em poucos anos. Os de Xanxi vivem em condições
quase medievais. Na Índia, o sistema de castas impede que os miseráveis
das camadas sociais inferiores se movam livremente em busca de emprego
ou se casem com alguém de casta mais elevada. Há alguns
dias, a imprensa contou a história de dois jovens namorados, de
castas distintas, enforcados e queimados por seus pais, porque se encontravam
às escondidas, apesar de alertados da proibição.
Ninguém foi preso. O sistema é uma das expressões
contemporâneas da barbárie institucionalizada. No Brasil,
há mobilidade social, a pobreza é redutível. Mesmo
com toda a discriminação, negros e mulheres têm melhorado
de situação. A classe média negra, que não
existia praticamente há vinte anos, já é significativa.
Melhoramos o suficiente? Não. Vencemos todos os desafios civilizatórios?
Não. Podemos descansar em berço esplêndido? Não.
Mas é
certo que o Brasil mudou para melhor, seja em comparação
com ele mesmo, há dez e há vinte anos, seja em comparação
com outras nações emergentes do mundo. O resto é
cegueira ideológica, má-fé ou incompetência
analítica.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
|
|
 |