Verdade e ilusões de
um triunfo multirracial

O time que ganhou a Copa reflete o que a
França (e o mundo) é hoje, mas isso resolve
a questão do preconceito?

Pense o leitor num francês. Se pensou em Jean-Paul Sartre, pensou bem. Óculos de grossas lentes, cigarro no canto da boca ou nos dedos amarelecidos de nicotina, é tudo o que se espera de um francês na versão intelectual, ou seja, quase todos. Pense em outro. Se pensou em Maurice Chevalier, pensou bem. Chapéu, bengala, talento de virtuoso para o charme temperado de malícia, este encarna um caso clássico de identificação de uma pessoa com sua nação. Há alguém mais francês? Pausa para reflexão. Sim, há: Lilian Thuram, o zagueiro da seleção campeã do mundo. Negro de Guadalupe, possessão francesa do Caribe, herói da semifinal contra a Croácia, quando marcou dois gols. Sim, há: Zinedine Zidane, maestro da equipe francesa, fino condutor da bola, maior estrela da Copa. Filho de argelinos, muçulmano de religião.

O Brasil não foi o maior derrotado do Mundial. Foi, segundo a manifestação que mais se ouviu na França, depois dos coros de "On a gagné" ("Ganhamos") e dos buzinaços, um senhor de nome Jean-Marie Le Pen. Trata-se do líder da extrema direita francesa, dona de cerca de 15% do eleitorado, cuja causa sagrada é o racismo, ou, para ser mais delicado, a defesa do país contra o que enxerga como ameaça estrangeira. O time da França vencedor da Copa apresentou-se cheio do que Le Pen qualifica de "estrangeiros". Negros como Thuram ou Desailly, originários do Caribe ou de ex-colônias africanas. Árabes como Zidane. Descendentes de armênios como Djorkaeff e Boghossian. Isso para não falar nos que têm origem em outros países europeus, "estrangeiros" mais aceitáveis, como o goleiro Fabien Barthez, aquele da cabeça raspada, nascido, como o zagueiro basco Lizarazu, num lar espanhol.

"A França é multirracial, e continuará a sê-lo", publicou no jornal Le Figaro o escritor Alain Peyrefitte, membro da Academia Francesa de Letras e ex-ministro da Educação. O time de futebol refletiria o que a França é hoje, e seu desempenho demonstraria que isso não lhe traz prejuízo — ao contrário, pode trazer vitórias. A demógrafa Michèle Tribalat, autora de livros sobre a imigração na França, disse ao jornal Libération que "ver os jogadores de todas as cores cantarem, com emoção, a Marselhesa" foi "de fazer Le Pen corar". O próprio presidente Jacques Chirac, brincando com as cores da bandeira, referiu-se à vitória como a um tempo "tricolor e multicolor". Conclusão disso tudo: a partir de agora, ao se pensar num francês, não se deve pensar apenas em alguém da cor de Sartre ou Chevalier, De Gaulle ou Depardieu. Deve-se pensar em qualquer cor. Enquanto outros jogadores fazem, em campo, o sinal da cruz, deve-se ter em mente que Zidane, de seu lado, ergue preces a Alá, e encarar isso como algo tão francês quanto a devoção a Nossa Senhora de Lurdes. Ou não será assim?

Sim e não. Há nisso uma parte de verdade e outra de ilusão. A França é hoje um país multirracial, disso não resta dúvida. Basta um passeio de cinco minutos pelas ruas de Paris para comprová-lo. Quando se cruza com um grupo de crianças de escola, verifica-se que a França que vem aí é branca, negra e moreno-árabe. A França é paradoxal. Ao mesmo tempo em que possui a extrema direita mais ameaçadora da Europa, abre suas escolas aos recém-chegados e garante a cidadania à segunda geração. Na França vigora o jus solis, o direito do solo — quem nasce em território francês é francês. Na Alemanha, o jus sanguinis, direito de sangue — é alemão quem é filho de alemão. Isso explica por que a Alemanha, tão cheia de imigrantes turcos quanto a França é de árabes, não tem turcos na seleção de futebol. "O direito de sangue foi derrotado", escreveu o jornal comunista L'Humanité. "Esta é a festa do direito de solo."

Não é só a França que é multirracial. A Europa toda também é, ou está ficando. A Holanda apresentou, na Copa do Mundo, um time tão colorido quanto o francês. Isso aponta para uma direção, segundo todas as evidências, inexorável. Era uma particularidade dos países americanos, onde a uma população nativa se somaram os europeus e, de quebra, se importaram escravos da África, o Estado nacional multirracial. A Europa formou-se na regra do Estado nacional homogêneo. Hoje o mundo é multirracial. Já é assim e, ao que tudo indica, mais ainda o será no futuro. Nova York, Londres e Paris, as capitais do mundo, são multirraciais.

Isso, para retomar a questão formulada atrás, é a parte da verdade. A França é multirracial, e ponto. Ela se olhou no espelho do time com que se apresentou no Mundial e se reconheceu nele. A parte da ilusão é supor que, por reconhecer-se multirracial, deu por vitoriosa a causa pró-integração e antipreconceito. O futebol pode conduzir a essa impressão, ainda mais numa hora de euforia, mas o futebol não é a vida. Nossa experiência de brasileiros nos permite dizer de cátedra que, num campo de futebol, a cor negra vale mais que em outros lugares. Entre nós, destacar-se no futebol — ou na música — há muito está ao alcance dos negros. Já em outros setores...




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