
DE FERNANDO HENRIQUE
A WITTGENSTEIN
Estava eu aqui, tranquilamente, elevando meu conhecimento sobre
o desenvolvimento, lendo aqui e ali as sábias palavras de Fernando Henrique
Cardoso, o Lula barroco - Perspectivas para uma Análise Integrada
do Desenvolvimento -, quando descobri ao lado (meus livros são
tão bem arrumados como os da Biblioteca de Alexandria. Depois do incêndio)
o Tractatus Logico-Philosophicus. Logisch-philosophische Abhandlung, de
Wittgenstein. Como todos sabem, Wittgenstein revolucionou a Filosofia no século
XX, que Fernando Henrique chama de século vindouro. Outros dizem que
Wittgenstein acabou com a filosofia.
Para que os leitores de Paulo Coelho tenham noção
da complexidade de Wittgenstein, Bertrand Russell, o último filósofo
com que ele ainda mantinha contato, leu as últimas dez linhas que ele
escreveu e declarou: "Não entendi nada. Mas é genial!".
Bondoso que sou, não resisto a separar um trecho, apanhado
ao acaso, de qualquer parte da estupefaciente dissertação de Fernando
Henrique sobre o desenvolvimento, em 323 páginas, e compará-lo
com um trecho das 83 páginas do Tractatus do austríaco. Leiam
e vejam como se simplifica a complexidade e se complica a simplicidade.
FERNANDO HENRIQUE CARDOSO
Perspectivas para uma Análise Integrada do Desenvolvimento
Em síntese, reconhecendo a especificidade das distintas
formas de comportamento, a análise sociológica trata de explicar
os aparentes "desvios", através da determinação das características
estruturais das sociedades subdesenvolvidas e mediante um trabalho de interpretação.
Não é exagerado afirmar que é necessário todo um
esforço novo de análise a fim de redefinir o sentido e as funções
que as classes sociais têm no contexto estrutural da situação
de subdesenvolvimento e as alianças que elas estabelecem para sustentar
uma estrutura de poder e gerar a dinâmica social e econômica.
As duas dimensões do sistema econômico, nos países
em processo de desenvolvimento, a interna e a externa, expressam-se no plano
social, onde adotam uma estrutura que se organiza e funciona em termos de uma
dupla conexão: segundo as pressões e vinculações
externas e segundo o condicionamento dos fatores internos que incidem sobre
a estratificação social.
A complexidade da situação de subdesenvolvimento
dá lugar a orientações valorativas que, apesar de contraditórias,
coexistem. Pareceria que se produzem, por seu turno, certas situações
nas quais a atividade dos grupos sociais corresponde às pautas das "sociedades
industrializadas de massas", (e outras) em que têm preponderância
as normas sociais típicas das "situações de classe" e até
das "situações estamentais".
LUDWIG WITTGENSTEIN
Tractatus Logico-Philosophicus.
Logisch-philosophische Abhandlung
PREFÁCIO
Talvez este livro só seja entendido por alguém que,
ele próprio, já pense como o que está expresso aqui. Ou
tenha pensamentos semelhantes. Este não é um textbook.
Seu objetivo terá sido atingido se der prazer à pessoa que o leu
e entendeu.
Este livro lida com os problemas da filosofia, e mostra, acredito,
a razão por que esses problemas são aqui colocados: é porque
a lógica da nossa linguagem não é compreendida. O sentido
total do livro pode ser sintetizado nas seguintes palavras: o que pode ser dito
pode ser dito claramente e aquilo sobre o que não podemos falar devemos
passar por cima, silenciar.
Nota do editor desta página
Depois de lerem os dois textos acima, os leitores me digam qual
preferem.
E se Fernando Henrique pode ser acusado de falta de decoro intelectual.
|