J.R. Guzzo
Gente do ramo
"Não
quer dizer que jornalistas sejam pessoas
melhores que quaisquer outras... Quer
dizer,
apenas, que mentem
menos, e isso conta,
quando se considera o trabalho
que fazem"
Numa palestra que fez recentemente em São Paulo,
o jornalista americano Gay Talese, um homem que sabe sobre o seu ofício
praticamente tudo o que é possível saber, ou está muito perto
disso, descreveu uma situação imaginária em que vale a pena
pensar um pouco. Um cidadão caminha por uma avenida de Nova York, sugere
Talese, e no seu trajeto passa, sucessivamente, por diversos edifícios:
um que está cheio de advogados, outro que está cheio de homens de
negócios, mais adiante um que está cheio de políticos e,
no fim, um que está cheio de jornalistas. Em qual desses edifícios,
pergunta ele, estariam sendo contadas naquele momento menos mentiras? Na sua opinião,
alimentada por mais de cinquenta anos de experiência, não há
dúvida: o prédio onde se mente menos é o dos jornalistas,
em Nova York ou em qualquer outro lugar do mundo, inclusive aqui. Não há
prova científica de que Talese esteja certo mas, sinceramente, o
que ele diz faz todo o sentido.
Longe daqui a menor ideia de
ofender quem quer que seja; na verdade, por prudência e para simplificar
a história, fiquemos só com dois dos edifícios citados, o
dos políticos e o dos jornalistas. Dá para alguém sustentar,
a sério, que os políticos nossos atuais senadores da República,
por exemplo diriam menos mentiras para o público? Isso não
quer dizer, é claro, que jornalistas sejam pessoas melhores que quaisquer
outras; como todas as demais, infelizmente, terão de suar a camisa, no
Dia do Juízo Final, para explicar seus muitos pecados. Quer dizer, apenas,
que mentem menos, e isso conta, quando se considera o trabalho que fazem. Causar
danos menores pode ser uma vantagem bem modesta, mas na prática sempre
faz alguma diferença e os jornalistas brasileiros andam necessitados
de qualquer diferença a favor que possam encontrar, diante de tanta coisa
ruim que se joga nas suas costas hoje em dia.
A ouvir o que
se diz no governo e nos seus arredores, por exemplo, os jornalistas estariam entre
as piores desgraças que este país tem para enfrentar no momento,
mais ou menos no mesmo nível ocupado pela elite branca do sul e outros
inimigos das causas populares. Murmura-se, sombriamente, que são filiados
de carteirinha do PIG, ou "Partido da Imprensa Golpista". Quando publicam
notícias sobre a última vigarice de senadores e deputados, revelam
que ministros de estado não têm os altos diplomas que constavam em
seus currículos oficiais ou informam que empresas-laranja recebem dinheiro
público em pagamento de serviços que não executaram, são
acusados de "desestabilizar" o Brasil. Brigadas de apoio ao governo,
ao PT ou a seitas da base aliada propõem o tempo todo o "controle
social dos meios de comunicação". Neste momento, pretendem
fazer 1 000 "conferências municipais" e 27 "conferências
estaduais" em preparação a uma "Conferência Nacional
de Comunicação" que o governo quer realizar em dezembro; ainda
não está claro se os "movimentos sociais" vão permitir
que o direito à propriedade privada dos órgãos de imprensa,
assegurado pela Constituição brasileira, possa ser defendido nesse
encontro.
O governo também parece ter criado um padrão
para reagir a qualquer informação de safadeza publicada pela imprensa:
admite que é preciso "investigar" o que foi noticiado, mas ao
mesmo tempo, e todas as vezes, acusa os jornalistas de "demonizar" quem
está envolvido na notícia. É engraçado. Nenhum jornalista,
por exemplo, jamais chamou o senador José Sarney de "grande ladrão
da Nova República"; também não foi registrada uma única
mentira ou erro factual em tudo o que os jornalistas publicaram nos últimos
três meses sobre os horrores cometidos no Senado Federal. Quem chamou Sarney
de "ladrão" anos atrás, além de "grileiro"
e outras coisas, foi o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que hoje não
admite a menor restrição ao seu atual aliado. Pelo jeito, então,
não há problema em chamar o senador de "ladrão";
o que não pode é dizer que ele empregou as sobrinhas, recebeu pagamentos
indevidos em seu contracheque ou preside uma fundação que transaciona
com empresas-fantasma. Aí já é "demonizar".
Aos
jornalistas, no Brasil de hoje, não basta mentir menos que os políticos,
ou não insultar as pessoas. Para receber o selo de aprovação
oficial, parece que estão precisando, também, passar por campos
de reeducação do governo, talvez com cursos da professora Marilena
Chaui, nos quais reconheceriam seus erros, fariam uma autocrítica sincera
e perderiam, de uma vez por todas, essa mania de ficar demonizando os outros. |