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Ponto
de vista: Stephen Kanitz
Uma definição
de felicidade
"Felicidade é um processo, e não
um lugar
onde finalmente se faz
nada. Fazer nada
no paraíso não traz felicidade, apesar de
ser o sonho de tantos brasileiros"
Ilustração Ale Setti
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Todas as profissões têm sua visão do que é
felicidade. Já li um economista defini-la como ganhar 20.000
dólares por ano, nem mais nem menos. Para os monges budistas,
felicidade é a busca do desapego. Autores de livros de auto-ajuda
definem felicidade como "estar bem consigo mesmo", "fazer o que
se gosta" ou "ter coragem de sonhar alto". O conceito de felicidade
que uso em meu dia-a-dia é difícil de explicar num
artigo curto. Eu o aprendi nos livros de Edward De Bono, Mihaly
Csikszentmihalyi e de outros nessa linha. A idéia é
mais ou menos esta: todos nós temos desejos, ambições
e desafios que podem ser definidos como o mundo que você quer
abraçar. Ser rico, ser famoso, acabar com a miséria
do mundo, casar-se com um príncipe encantado, jogar futebol,
e assim por diante. Até aí, tudo bem. Imagine seus
desejos como um balão inflável e que você está
dentro dele. Você sempre poderá ser mais ou menos ambicioso
inflando ou desinflando esse balão enorme que será
seu mundo possível. É o mundo que você ainda
não sabe dominar. Agora imagine um outro balão inflável
dentro do seu mundo possível, e portanto bem menor, que representa
a sua base. É o mundo que você já domina, que
maneja de olhos fechados, graças aos seus conhecimentos,
seu QI emocional e sua experiência. Felicidade nessa analogia
seria a distância entre esses dois balões o
balão que você pretende dominar e o que você
domina. Se a distância entre os dois for excessiva, você
ficará frustrado, ansioso, mal-humorado e estressado. Se
a distância for mínima, você ficará tranqüilo,
calmo, mas logo entediado e sem espaço para crescer. Ser
feliz é achar a distância certa entre o que se tem
e o que se quer ter.
O primeiro passo é definir corretamente
o tamanho de seu sonho, o tamanho de sua ambição.
Essa história de que tudo é possível se você
somente almejar alto é pura balela. Todos nós temos
limitações e devemos sonhar de acordo com elas. Querer
ser presidente da República é um sonho que você
pode almejar quando virar governador ou senador, mas não
no início de carreira. O segundo passo é saber exatamente
seu nível de competências, sem arrogância nem
enganos, tão comuns entre os intelectuais. O terceiro é
encontrar o ponto de equilíbrio entre esses dois mundos.
Saber administrar a distância entre seus desejos e suas competências
é o grande segredo da vida. Escolha uma distância nem
exagerada demais nem tacanha demais. Se sua ambição
não for acompanhada da devida competência, você
se frustrará. Esse é o erro de todos os jovens idealistas
que querem mudar o mundo com o que aprenderam no primeiro ano de
faculdade. Curiosamente, à medida que a distância entre
seus sonhos e suas competências diminui pelo seu próprio
sucesso, surge frustração, e não felicidade.
Quantos gerentes depois de promovidos sofrem
da famosa "fossa do bem-sucedido", tão conhecida por administradores
de recursos humanos? Quantos executivos bem-sucedidos são
infelizes justamente porque "chegaram lá"? Pessoas pouco
ambiciosas que procuram um emprego garantido logo ficam entediadas,
estacionadas, frustradas e não terão a prometida felicidade.
Essa definição explica por que a felicidade é
tão efêmera. Ela é um processo, e não
um lugar onde finalmente se faz nada. Fazer nada no paraíso
não traz felicidade, apesar de ser o sonho de tantos brasileiros.
Felicidade é uma desconfortável tensão entre
suas ambições e competências. Se você
estiver estressado, tente primeiro esvaziar seu balão de
ambições para algo mais realista. Delegue, abra mão
de algumas atribuições, diga não. Ou então
encha mais seu balão de competências estudando, observando
e aprendendo com os outros, todos os dias. Os velhos acham que é
um fracasso abrir mão do espaço conquistado. Por isso,
recusam ceder poder ou atribuições e acabam infelizes.
Reduzir suas ambições à medida que você
envelhece não é nenhuma derrota pessoal. Felicidade
não é um estado alcançável, um nirvana,
mas uma dinâmica contínua. É chegar lá,
e não estar lá como muitos erroneamente pensam. Seja
ambicioso dentro dos limites, estude e observe sempre, amplie seus
sonhos quando puder, reduza suas ambições quando as
circunstâncias exigirem. Mantenha sempre uma meta a lcançar
em todas as etapas da vida e você será muito feliz.
Stephen Kanitz é
administrador por Harvard
(www.kanitz.com.br )
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