|
|
Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Roteiro da ópera,
até agora
Um guia dos
itens fundamentais da peça
atualmente em cartaz no
cenário político
Música Cuore Ingrato.
Escândalo político brasileiro que se preza precisa
ter tema musical. O do governo Collor embalou-se ao som de Besame
Mucho, o bolero dançado, rosto colado e ar de adolescentes
apaixonados, pelo casal de ministros Zélia Cardoso de Mello
e Bernardo Cabral. Não que o atual escândalo tenha
atingido o patos do anterior que ao romance entre ministros
somou conflito fratricida, traições, mortes (Pedro
e Leda Collor, Elma Farias) e até assassinato (PC Farias).
Mas começou bem, com seu principal protagonista optando da
janela por uma interpretação em que se adivinhavam
amargura e promessa de vingança, soberba, ressentimento e
desprezo. Besame Mucho flui em suave cadência e celebra
momento de êxtase entre dois amantes. Cuore Ingrato,
clássico da canzonetta napolitana, fere o grave tema
da dor-de-cotovelo e exige cantoria a plenos pulmões. As
duas cabem bem nos respectivos enredos a primeira por irônico
contraste com uma trama de tragédia e sangue, a segunda pela
adequação sem rodeio a um drama de perfídia,
ciúme e arrebatamento.
Vocabulário "Mensalão"
é a principal contribuição do atual episódio
ao léxico político nacional. Podia ser "mesada", ou
"mensalidade", mas desse modo não se adequaria ao gosto nacional
pelo aumentativo. O "ão" está presente em estádios
de futebol ("Mineirão"), estabelecimentos comerciais ("Ponto
Frio Bonzão"), restaurantes ("Porcão"). Revela um
fascínio em alguns casos pelo grande, em outros pelo escracho.
No caso do mensalão, pelos dois. Outra contribuição
vocabular do drama político em cartaz é o verbo "embarrigar".
Significa um político assumir como sua, para despistar, nomeação
para cargo público na verdade feita por outro. O político
"embarrigado" desempenha para o parceiro o papel de barriga de aluguel.
Terceira contribuição encontra-se no trecho do depoimento
do deputado Roberto Jefferson ao Conselho de Ética da Câmara
em que diz que o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, ofereceu-se
a ele para "desencravar uma unha". Desencravar uma unha! No contexto,
a expressão equivale a "arrumar uns trocados" ou "descolar
algum". As gírias, como se sabe, têm nas cadeias o
local por excelência de seu florescimento. Nos escândalos
políticos, elas se antecipam. São criadas antes de
chegar se é que chegam à cadeia.
Locações Gabinetes
da Câmara, de ministérios e de estatais, mas também
hotéis e apartamentos de deputados. Segundo a secretária
Fernanda Karina Somaggio, seu ex-patrão, Marcos Valério
Fernandes de Souza, acusado de ser um dos homens que entregavam
dinheiro a deputados, encontrava-se com dirigentes do PT sempre
em hotéis. Maksoud Plaza, em São Paulo, e Blue Tree,
em Brasília, por exemplo. "Tudo na surdina", disse a secretária
à revista IstoÉ Dinheiro. Encontros em hotéis
revelam preferência por ambientes impessoais, por isso mais
frios e profissionais. Mas o apartamento funcional do líder
do PP na Câmara, José Janene, também era (é?)
local de reuniões, o que revela tendência oposta para
o aconchego e a familiaridade. Tantos deputados do PP o freqüentavam
(freqüentam?) que o apartamento de Janene ganhou, entre eles,
o apelido de "pensão". Uma das atrações era
(é?) a comida excelente, produzida por uma cozinheira de
escol. Mas, segundo o secretário-geral do mesmo partido,
Benedito Domingos, ora em conflito com os companheiros, o apartamento
de Janene era (é?) o local onde se distribuía o "mensalão".
A crer nessa hipótese, a "pensão" pela qual os freqüentadores
eram atraídos poderia ter outra acepção
não o de "espécie de hotel geralmente pequeno e de
caráter familiar", mas o de "renda que se paga periodicamente
a alguém", para recorrer às definições
do Dicionário Houaiss.
Melhor ator Roberto Jefferson
é impressionante. O mesmo vozeirão que entoa Cuore
Ingrato é capaz de virtuosísticas modulações
para acentuar a denúncia e o choque, a galhofa e o assombro.
A expressão da face cobre a inteira gama dos sentimentos
humanos. E mesmo o corpo é mobilizado em momentos agudos,
como quando disse que o presidente Lula tinha recebido uma "facada
nas costas", com os desmandos dos assessores, e acompanhou as palavras
com a contração dos braços sobre o peito, como
se realmente golpeado por detrás. Mas... Bom ator? Jefferson
é da escola de canastrões do Tribunal do Júri.
Pauta-se pelo exagero e pelo grotesco. Seria mais um clown e um
histrião que um ator. Ao gosto moderno, pode soar mais impressionante
o ator que nem parece atuar. Por exemplo, o presidente do PT, José
Genoino, ao afirmar que os relacionamentos de seu partido assentam-se
em "pressupostos políticos e programáticos".
Fala inesquecível Não
se trata de peça de Shakespeare. Não se encontrará
nela um monólogo sublime, um "Ser ou não ser..." Autores,
enredo, protagonista é tudo de segunda ordem, que
fazer? Fica-se então com a frase dirigida por Jefferson ao
chefe da Casa Civil, José Dirceu, em seu depoimento: "Zé,
sai logo, senão vai fazer réu um homem inocente".
|