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Livros Sushi
com ketchup Astro pop da literatura japonesa,
Haruki Murakami mostra um país que não dá a mínima
para a tradição 
Jerônimo Teixeira
 |  | | Haruki Murakami, de 56 anos,
vive uma situação rara entre escritores: transformou-se em popstar.
Ou pelo menos é assim no seu país natal, o Japão, onde o
autor experimenta o assédio da imprensa e dos fãs. A popularidade
tem sua contrapartida em certa desconfiança da crítica japonesa,
especialmente a mais tradicionalista. Basta conferir Norwegian Wood (tradução
de Jefferson José Teixeira; Objetiva; 356 páginas; 49,90 reais),
recém-lançado no Brasil, e Dance Dance Dance (tradução
de Lica Hashimoto e Neide Hissae Nagae; Estação Liberdade; 504 páginas;
58 reais), que chega na semana que vem às livrarias, para constatar que
Murakami representa um verdadeiro rompimento com o universo retratado por autores
como Yukio Mishima ou Junichiro Tanizaki e é exatamente isso que
garante o seu vigor. Seus personagens ouvem música pop, bebem mais café
que chá e não dão a mínima para o teatro nô.
Vivem no Japão ultramoderno que viaja de trem-bala uma "sociedade
altamente capitalista", para usar a expressão do narrador de Dance Dance
Dance. O mais interessante, porém, é que Murakami também
rompe com a visão convencional do Japão como o país dos operários-modelo
e da eficiência tecnológica. Seus personagens são inconformistas
desesperados: não encontram lugar na sociedade consumista que os cerca,
mas são inteligentes demais para aderir às bandeiras políticas
da moda. Da perspectiva deles, o Japão é um lugar um tanto mais
bagunçado e sujo do que se costuma supor.
O próprio Murakami confessa que prefere a literatura americana à
japonesa entre seus escritores favoritos estão J.D. Salinger (cujo
clássico O Apanhador no Campo de Centeio ele traduziu para o japonês)
e o noir Raymond Chandler. Tanto ou mais que a literatura, a música ocidental
é uma referência para o autor. De 1974 a 1981 logo depois
de concluir um curso universitário de literatura e antes de se consagrar
como escritor , ele foi dono de um bar de jazz em Tóquio. O título
Norwegian Wood vem de uma música dos Beatles. Lançado no
Japão em 1987, o livro vendeu mais de 4 milhões de exemplares, consolidando
a celebridade de Murakami. Tal como O Apanhador
no Campo de Centeio, Norwegian Wood tem aquele tom ao mesmo tempo romântico
e desiludido que conquista o leitor adolescente sem desprezar a inteligência
do adulto. Aos 37 anos, o narrador, Toru Watanabe, relembra seus dias de estudante
universitário em Tóquio, no fim dos anos 60, e sua indecisão
amorosa entre duas mulheres com quem namorava então, a depressiva Naoko
e a esfuziante Midori. Apesar da alta dose de erotismo do livro, a tão
celebrada liberação sexual dos anos 60 é retratada com reticência
Murakami sugere que sua contrapartida inevitável é o sentimento
de vazio que assombra Watanabe. Ambientado nos
anos 80, Dance Dance Dance é a última peça de uma
trilogia que inclui Caçando Carneiros e O País das Maravilhas
Durão e o Fim do Mundo (este ainda não lançado no Brasil).
Mas pode ser lido e apreciado como um livro independente. O personagem central
um escritor cujo nome não é informado viaja de Tóquio
até Sapporo, no norte do Japão, na tentativa de reencontrar Kiki,
uma prostituta de alta classe por quem já esteve apaixonado. No Hotel do
Golfinho, onde viu Kiki pela última vez, ele entra em contato com personagens
estranhíssimos, incluindo um "homem-carneiro" e Yuki, uma adolescente com
poderes psíquicos. Apesar de seu extravagante enredo fantástico,
Dance Dance Dance tem lá suas afinidades com o melancólico
Norwegian Wood. Seus personagens centrais vivem variadas aventuras sexuais,
mas permanecem solitários. Experimentam aquela estranha solidão
que só existe no meio das multidões de uma megalópole como
Tóquio.
| "Das seis às dez tomei conta da loja,
vendendo alguns discos. Observava diversos tipos de pessoas passando. Eram famílias,
casais, bêbados, mafiosos, meninas de minissaia e outros tipos indefinidos.
Quando eu punha rock pesado para tocar, vários hippies se reuniam na frente
da loja para dançar, cheirar cola ou então simplesmente ficarem
sentados imóveis. Se eu punha um disco de Tony Bennett, eles logo desapareciam." Trecho
de Norwegian Wood |
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