Edição 1910 . 22 de junho de 2005

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Celebridade
Absolvido, mas enrascado

Michael Jackson se livra das acusações
de pedofilia. Mas terá de suar para
recuperar a carreira


Sérgio Martins

EXCLUSIVO ON-LINE
Em Dia: Michael Jackson

Michael Jackson foi absolvido. Na última segunda-feira, os jurados do tribunal de Santa Maria, na Califórnia, isentaram o cantor de dez acusações relacionadas ao suposto abuso sexual de um menor. O júri de oito mulheres e quatro homens deliberou durante sete dias, estudando mais de 130 depoimentos e 600 provas apresentadas pela promotoria e pelos advogados de defesa. Ao receber a notícia de que estava livre, Jackson saiu rapidamente do tribunal, acompanhado de seus familiares. Ele acenou para os fãs que defendiam sua inocência e partiu para o rancho Neverland. O cantor sabe que tem outra missão espinhosa pela frente: tirar sua carreira da lama. Há muito tempo Jackson deixou de fazer jus ao epíteto de "rei do pop" dos tempos de Thriller (1982), disco mais vendido no mundo até hoje, com 59 milhões de cópias. Mas o declínio se acentuou nos últimos anos. A produção de seu álbum mais recente, Invincible, de 2001, consumiu 30 milhões de dólares. Apesar disso, as vendagens foram irrisórias. Jackson veio a público acusar sua gravadora, a Sony, de não divulgar o disco como deveria e, por isso, há dúvidas se a companhia manterá o contrato com ele. Por causa de seu estilo de vida perdulário, o cantor está atolado em dívidas de 400 milhões de dólares. Especula-se que, para se safar dos débitos, não terá outra opção senão entregar a jóia maior de seu patrimônio: os direitos das canções dos Beatles, avaliados em 500 milhões de dólares.

Para a nova geração americana, que ouve estilos como o rap e o rock pesado, Michael Jackson atrai curiosidade, no máximo, pelo visual e comportamento bizarros – como chegar ao tribunal com calça de pijama, alegando dores nas costas. Boa parte dos fãs de primeira hora também debandou. Nesse cenário, a absolvição no julgamento não oferece muito alento. Perante a opinião pública dos Estados Unidos, o resultado está longe de significar um atestado de idoneidade. Uma pesquisa do Instituto Gallup revelou que 48% dos americanos discordam do veredicto, contra 34% que o consideram justo. Para 60%, o fato de ser uma celebridade influiu a favor de Jackson.

Apesar da decisão do juiz Rodney Melville de impedir a entrada da imprensa na sala de julgamento, o processo não foi diferente de outros protagonizados por celebridades e figuras públicas americanas (veja quadro). Uma enorme quantidade de histórias sórdidas foi posta em circulação, e promete pesar sobre a reputação de Jackson. O cantor, no entanto, foi beneficiado por um princípio de direito levado a ferro e fogo pelos júris americanos na hora de decidir o futuro de um réu: quando há "dúvida razoável" quanto à culpa, não deve haver condenação. É certo que Jackson levava crianças a seu quarto e até dormia com elas, mas a peça de acusação do promotor Tom Sneddon não foi conclusiva em demonstrar que ele cometeu abuso sexual ou incidiu em outros crimes, como entorpecer um menor. Também pesou a favor do artista o fato de que os pais do adolescente supostamente abusado mal disfarçavam seu oportunismo. A defesa explorou isso muito bem para desqualificar Janet Arvizo, mãe do garoto. "Num documentário feito por Michael Jackson, ela aparecia atraente, de maquiagem. Quando veio testemunhar, estava com o cabelo desgrenhado, como madre Teresa de Calcutá depois da chuva. Queria que tivéssemos dó dela", declarou a jurada Eleanor Cook.

Depois que o resultado do julgamento foi conhecido, gurus do mercado musical sugeriram que a melhor forma de Jackson recuperar parte do prestígio seria sacudir a poeira e rodar o mundo numa megaturnê. A eficácia seria duvidosa – até porque ele parece já não ter disposição para cair na estrada, coisa que fez pela última vez há dez anos. "É uma batalha árdua. Culturalmente, ele jamais voltará a ser o Michael Jackson que um dia conhecemos", declarou Londell McMillan, veterano advogado da indústria musical, ao New York Times. Os projetos oferecidos ao cantor até o momento primam pelo sensacionalismo. Várias redes de TV bolaram reality shows com a família Jackson. O bilionário Donald Trump teria oferecido 80 milhões de dólares para que o cantor se apresentasse num cassino em Las Vegas. Por enquanto, a única intenção de Jackson foi revelada por seu advogado, Thomas Mesereau. "Ele foi amável com as pessoas, permitiu que elas entrassem livremente em sua vida e em sua casa. Isso vai mudar daqui para a frente", declarou. Ah, sim. Mesereau avisa que Michael não dormirá mais com crianças.

 

Roupa suja se lava nos tribunais

As bizarrices que vieram à tona em
processos contra celebridades

Michael Jackson

Caso: julgamento por suposto assédio sexual a um menor de idade

• O adolescente que acusava Jackson disse que foi masturbado pelo cantor duas vezes

• A mãe da suposta vítima teria visto Jackson lambendo a cabeça de seu filho

• Uma ex-empregada revelou que as paredes de seu quarto eram manchadas de fezes de seu chimpanzé

• Testemunha de defesa de Jackson, o ator Macaulay Culkin declarou: "Tanto quanto eu saiba, ele nunca me molestou"

 

Bill Clinton

Caso: o ex-presidente americano foi processado por se envolver com uma estagiária da Casa Branca, Monica Lewinsky

• Clinton teria usado um charuto de modo nada ortodoxo. Na investigação, questionou-se até sua marca – era cubano

• Um vestido com vestígios do esperma de Clinton foi uma prova importante

• Um debate central foi se sexo oral é sexo ou não

 

Woody Allen

Caso: disputa da guarda dos filhos entre Woody Allen e sua ex-mulher Mia Farrow, depois que o cineasta se apaixonou pela enteada, Soon-Yi

• Mia ameaçou revelar fotos que Allen tirou de Soon-Yi em posições para lá de ousadas

• Ao ser desmascarado, Allen se jogou no chão e simulou uma dor de barriga, disse Mia

• A ex acusou Allen ainda de ser hipocondríaco e tomar banho com um tapete especial que o protegeria de germes

 
 
 
 
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