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Moda A
volta da velha senhora Exposição
no Metropolitan mostra a trajetória da Chanel, a grife que, sozinha,
faz uma mulher dos pés à cabeça Fotos
divulgação Chanel
 | Criação
e recriação: do vestido de veludo vermelho de Coco à regata
com saia de noite de Lagerfeld (à esq.), passando por corais, pérolas,
estampas e colares como o Fonte. Chanel é sempre Chanel |
Para uma senhora que começou
a fazer roupas no longínquo ano de 1916, ela continua surpreendentemente
atual. À simples menção de seu nome, é possível
imaginar o visual completo de uma mulher e até sentir seu cheiro.
Cabelos? O corte Chanel, com comprimento abaixo da orelha, uma novidade dos anos
20, é reproduzido até hoje em todos os rincões do planeta.
Depois vem a jaquetinha quadrada, de modelagem seca, freqüentemente de lã
xadrez com arremates contrastantes até em lojas populares pode ser
encontrada, ao lado da bolsa de costuras formando losangos, com alça de
corrente, que todo mundo sabe se chamar Chanel. Calças folgadas, as elegantes
pantalonas, subtraídas ao guarda-roupa masculino, foram invenção
dela. Nos pés, sapatos de duas cores, com o calcanhar de fora, viraram
substantivo comum: chanel. Para arrematar, talvez uma camélia, colares
de pérolas falsas e umas gotas de perfume. Chanel nº 5.
A influência de Gabrielle Chanel, apelidada Coco, chamada pelos conhecedores
simplesmente de mademoiselle, é tão avassaladora no efêmero
mundo da moda que seu legado pode ser confundido. Chanel não é sinônimo
de roupas de madames (embora em algum momento tenha virado isso) nem de acessórios
cobiçados por patricinhas. Ela foi uma modernista que implodiu e reconstruiu,
com rigor e método, a moda no começo do século passado. Um
bom retrato disso pode ser visto na exposição em cartaz no Metropolitan
Museum de Nova York. Ao longo de dezenove módulos inteiramente brancos,
o visitante pode observar de perto, detalhe por precioso detalhe, um total de
sessenta modelos para o dia e para a noite que dão a dimensão do
gênio de mademoiselle e de seu brilhante discípulo, o alemão
Karl Lagerfeld, que assumiu a criação em 1983.
O módulo "Modernismo" começa com um conjunto de vestido e casaco
bege de 1922 que qualquer mulher melhor dizendo, qualquer magérrima
mulher poderia usar hoje sem tirar nem pôr um único detalhe.
O "Romantismo" agrupa rendas delicadas e inclui as cores e os bordados das coleções
de inspiração cigana e os grafismos orientais tirados da coleção
de biombos chineses Coromandel que mademoiselle acumulava. Pela exibição
desfilam tailleurs, fabulosos vestidos de noite e os legendários pretinhos,
entremeados por uma surpreendente "ala" de trajes de seda e veludo em um vermelho
forte que raramente se associa à grife, assinados por Coco Chanel em 1928.
Um terço das roupas leva a assinatura de Lagerfeld, o estilista alemão
que ressuscitou a maison, em decadência desde a morte da sua criadora, em
1971. Original, irascível e arrogante como Chanel, Lagerfeld é um
gênio aprisionado numa gaiola de ouro, condenado a recriar eternamente palavras
novas num vocabulário inventado pela velha senhora. Ele se diverte
ou se revolta com seu destino, levando ao exagero ícones como os
dois cês entrelaçados, as pérolas transformadas em bolas de
pingue-pongue, o padrão do tweed amplificado até o limite do absurdo.
A marca Chanel é considerada
a mais valiosa do mundo das grifes de luxo e gera um volume anual de vendas que
circula na casa acima do bilhão de dólares. Nada mau para a maison
iniciada por uma órfã criada em colégio de freiras, que começou
como costureirinha e cortesã de meio período o termo gentil
para garota de programa. Visionária na moda, mademoiselle também
escolhia bem os amantes. O mais importante foi o duque de Westminster. O mais
produtivo, Pierre Wertheimer, que bancou a produção de um perfume
diferente, embalado num vidro quadrado, com nome de remédio. O nº
5 fez a fortuna de todos. Como mademoiselle nunca se casou nem teve filhos, a
marca até hoje pertence à família Wertheimer, que jamais
aparece em público. Já o legado dela está exposto ao mundo
inteiro. |