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Especial "A
ideologia era primordial" Os brasileiros serão
os primeiros a ler o novo romance de Salman Rushdie, Shalimar, o Equilibrista,
que fala das tensões na Caxemira e no interior do mundo islâmico.
Leia, a seguir, trecho inédito:
Khaled Zighari/AP  |
| Terrorista islâmico: aulas de tiro e discussões sobre
Deus | | "O mulá de ferro
Maulana Bulbul Fakh era o superior designado para eles. Seu hálito ainda
era o bafo sulfuroso de dragão que lhe valera o seu fétido nome,
fakh, e ainda falava com aspereza, como se o discurso humano fosse penoso
para ele, mas era mais alto do que lembrava Shalimar, o equilibrista, um gigante
de mais de dois metros de altura e também mais magro e muito mais bonito
do que nos velhos tempos de Shirmal. Seria possível ele ter ficado maior
e mais atraente com o passar dos anos? Quanto a ser feito de ferro, não
havia mais como questionar isso. Havia pontos em suas canelas e ombros em que
os golpes da vida dura haviam ralado a cobertura de pele e o metal sem brilho
debaixo ficava visível, endurecido pelas batalhas, indestrutível.
Essas provas de sua natureza miraculosa davam a Bulbul Fakh uma grande autoridade
nos campos das montanhas. Ele levava sempre um pedaço de sal de rocha a
todos os momentos. 'Isto é sal paquistanês', disse ao comandante
da frente de libertação e a seus homens. 'Isso é que nós
vamos trazer para a Caxemira quando estiver libertada.' Embrulhou o sal num lenço
verde e guardou em uma bolsa. 'O verde é por nossa religião, que
torna tudo possível. Se Deus quiser', disse ele. 'Com a bênção
de Deus', responderam os outros.
O mulá
de ferro os levou a um 'campo avançado', conhecido como CA-22, uma instalação
da linha de frente do centro mundial de atividades islamitas-jihadistas Markaz
Dawar, estabelecido pelo ISI, Inter-Serviços de Inteligência paquistanês.
Naqueles dias iniciais, o CA-22 era um buraco. Havia uns poucos prédios
pukka a única acomodação para dormir era em
imundas tendas remendadas e não havia comida nem calor suficientes.
Porém, havia uma quantidade surpreendente de armas disponíveis e
pessoal do ISI à mão para oferecer treinamento no uso dessas armas,
inclusive treinamento de franco-atiradores assassinos de alta precisão.
Havia estandes de tiro com alvos móveis e instrutores que empurravam os
recrutas pelas costas ou batiam em seus cotovelos ao mesmo tempo que mandavam
atirar, e eles tinham de aprender a não errar, porque acertar um alvo móvel
quando em desequilíbrio era o que estavam aprendendo. Semanalmente, havia
seminários e exercícios de treinamento em tempo real de operações
de alta velocidade, estilo guerrilha de ataque e retirada da linha de controle.
Havia uma fábrica de bombas e um curso de técnicas de infiltração
quinta-coluna e, acima de tudo, havia oração.
As cinco orações diárias no maidan do campo eram compulsórias
a todos os combatentes e o único livro tolerado no local, excluindo-se
os manuais de treinamento, era o sagrado Corão. Nos intervalos das
orações formais, havia muitas discussões sobre Deus, conduzidas
por estrangeiros falantes de línguas que Shalimar, o equilibrista, não
entendia, nas quais só se destacava a palavra Deus. Maulana Bulbul Fakh
era seu guia para armamento e estrangeiros também. Mas, antes de estar
pronto para a grande obra diante dele, sua consciência precisava ser alterada.
Foi solicitado que Shalimar, o equilibrista, fizesse algumas revisões em
sua visão de mundo. 'Não é possível atirar direito',
Bulbul Fakh disse, direto, 'se o jeito como você vê as coisas é
todo torcido.' A ideologia era o primordial. O
infiel, obcecado por posses e riqueza, não percebia isso e acreditava que
os homens eram motivados primordialmente por interesses próprios, sociais
e materiais. Era esse o erro dos infiéis e também sua fraqueza,
que possibilitava que fossem derrotados. O verdadeiro guerreiro não era
motivado primordialmente por desejos mundanos, mas por aquilo que acreditava ser
verdade. A economia não era primordial. A ideologia era primordial."
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