Edição 1910 . 22 de junho de 2005

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Especial
Rushdie, o equilibrista

O autor que sobreviveu à sentença de
morte no Islã lança novo livro. E mostra
que sua literatura também escapou ilesa


Carlos Graieb, de Londres

 
Mike Segar/Reuters
O autor hoje: vida além da fatwa

NESTA EDIÇÃO
"A ideologia era primordial"
Quando a religião é um mal

EXCLUSIVO ON-LINE
Trecho do livro

Convidado para a Festa Literária Internacional de Parati, que acontece entre os dias 6 e 10 de julho na cidade histórica do Rio de Janeiro, o escritor britânico Salman Rushdie tomou uma decisão inesperada: lançar no Brasil, antes mesmo do que no inglês original, o seu novo romance, Shalimar, o Equilibrista (tradução de José Rubens Siqueira; Companhia das Letras; 392 páginas; 46 reais). VEJA teve acesso exclusivo ao livro e, nesta edição, publica um trecho em primeira mão. Além disso, foi à Inglaterra no fim de maio para entrevistar o autor. Um lugar foi escolhido no centro de Londres e, na hora marcada, ele chegou a pé, sozinho – um homem tranqüilo de 58 anos. Até pouco tempo atrás, isso seria impensável.

Rushdie viveu uma década de escuridão. Ela teve início em 1989, quando o governo fundamentalista do Irã considerou o romance Os Versos Satânicos ofensivo ao islamismo e decretou uma sentença de morte contra o autor. Terminou em 1998, depois que o país, pressionado pela comunidade internacional, se comprometeu a não mais encorajar a execução do castigo. Durante os "anos da peste", o risco de assassinato foi imenso. Rushdie teve de esconder-se, sob forte segurança. Numa fase particularmente ruim, mudou de abrigo treze vezes em apenas vinte dias. Hoje, a ameaça tornou-se negligenciável. Não há guarda-costas nem agentes secretos vigiando a rua. Mas o autor ainda é um exemplo de como o fanatismo pode causar o inferno – e de como é possível resistir a ele.

A par do perigo físico, os anos terríveis da fatwa ameaçaram esmagá-lo com a depressão. Rushdie resistiu como intelectual, tornando-se um crítico do obscurantismo e da presença da religião na esfera política e, sobretudo, um defensor ferrenho da liberdade de expressão. "Um dos efeitos da crise foi levar-me a um processo de reflexão pelo qual eu talvez nunca tivesse passado em circunstâncias normais", conta ele. "Naquela situação extrema, não bastava saber contra o que eu me opunha. Precisei descobrir se havia coisas que eu realmente considerava valiosas a ponto de lutar por elas – e a resposta foi sim."

 

Ranjan Basu/AP
Muçulmanos queimam boneco de Rushdie

Mais importante para sua auto-imagem, Rushdie resistiu como romancista. "Tornar-me um escritor diferente do que eu sempre desejara ser equivalia a render-me." Rushdie publicou sete livros desde 1989 – duas coletâneas de ensaios e cinco obras de ficção. Mas Shalimar, o Equilibrista é a prova definitiva de que o confronto com o fanatismo não quebrou os ossos de sua arte. Ao lado de Midnight Children (Filhos da Meia-Noite), de 1981, deve fixar-se como obra-prima. Ele tem a exuberância de linguagem que Rushdie sempre buscou, grande abrangência histórica e geográfica, uma pronunciada veia satírica, e também sutileza ao lidar com temas como honra, vergonha e perdão. O terrorismo e a violência estão no centro do enredo, mas o objetivo do romance é tecer uma história, e não destilar opiniões políticas.

Segundo Rushdie, o ponto de partida para a narrativa foi a imagem de um assassinato na entrada de um prédio. "Essa foi a fagulha criativa, em torno da qual o romance cresceu", conta ele. A cena está nas primeiras páginas do livro: Max Ophuls, diplomata aposentado, vai visitar sua filha e é degolado por seu motorista, Shalimar, na porta do condomínio onde ela mora. Explicar as razões do crime leva a história a ziguezaguear entre a Califórnia contemporânea, a Europa de meados do século XX e a Caxemira de várias décadas.

Rushdie tem raízes familiares na Caxemira, pivô de um conflito de quase seis décadas entre a Índia e o Paquistão. O que torna a história recente da região trágica é o fato de que, até se ver ensanduichada entre as duas grandes nações surgidas da divisão da antiga colônia britânica da Índia, a Caxemira era descrita, sem ironia, como um paraíso de natureza estonteante e de convivência exemplar entre a maioria muçulmana e a minoria hindu. Durante a transição colonial, o reino pôde optar entre permanecer independente e juntar-se a um dos novos vizinhos poderosos. A hesitação do governante, o marajá Hari Singh, teve conseqüências funestas. Índia e Paquistão entraram em guerra e acabaram dividindo a Caxemira. A província tornou-se uma caldeira de tensões étnicas, políticas e religiosas, que cresceram até o ponto em que militantes muçulmanos radicais, freqüentemente financiados pelo governo paquistanês, passaram a cometer atrocidades, combatidas por um Exército indiano não menos tirânico e irracional. Os dois lados do conflito são encarnados no livro por personagens cômicos, ao mesmo tempo que sinistros: Bulbul Fakh, o mulá de ferro, que apresenta à Caxemira a vertente fanática do islamismo, e o general Kachhawa, um homem assolado por uma luxúria incontrolável e pela maldição de uma memória da qual nada se apaga. "Foi muito agradável criar esses personagens. A sátira é sempre a melhor vingança", diz Rushdie.

A destruição do paraíso caxemirense é o pano de fundo para a história de Shalimar, o Equilibrista. É numa pequena aldeia de artistas da região que crescem o personagem-título e a jovem Boonyi (num toque alegórico, Rushdie faz com que os dois nasçam na noite de 1947 em que o conflito entre Índia e Paquistão começou). Apesar de pertencerem a religiões diferentes, os dois se casam com o apoio da família e se amam até o dia em que Boonyi, durante uma apresentação, se encontra com o embaixador americano Max Ophuls, um herói da resistência antinazista na II Guerra Mundial. O homem a cobiça. Ela enxerga nele a oportunidade de escapar de seu mundinho. De fato, os dois se tornam amantes.

O romance entre Boonyi e Max está fadado ao fracasso. Ele a mantém num apartamento na capital indiana, onde a bela dançarina paulatinamente perde o brilho e se transforma numa figura repulsiva. Quando pressente que vai ser abandonada, ela tem uma filha, da qual, no entanto, vai ser obrigada a separar-se: é diante de sua casa que, anos mais tarde, Max Ophuls será morto. A traição fará com que Shalimar, por sua vez, escolha um caminho macabro: juntar-se aos terroristas muçulmanos que começam a pulular na Caxemira e tornar-se um assassino. Rushdie descreve os campos de doutrinação e treinamento no Paquistão, mas não faz de Shalimar um fanático religioso. Sua conversão ao islamismo ensandecido do mulá Bulbul Fakh é fingida. O que o move é uma concepção exacerbada da própria honra: "A honra estava acima de qualquer outra coisa, acima dos votos sagrados do matrimônio, acima da divina interdição ao assassinato a sangue-frio, acima da decência, acima da cultura, acima da própria vida". Esse é um tema presente na obra de Rushdie desde Shame (Vergonha), romance de 1983. "Assim como os conceitos de culpa e redenção são fundamentais para a cultura cristã, os conceitos de honra e vergonha estão no centro das culturas muçulmana e hindu. É impossível entendê-las sem atentar para isso", diz o autor.

Shalimar presta serviços ao terrorismo internacional para poder vingar-se de Boonyi e Max Ophuls. Mas a história lhe reserva um último confronto, com a filha das pessoas que o humilharam. Trata-se de uma personagem que, de certa forma, pode ser associada a Rushdie. Ela expressa idéias caras ao autor, como a de uma cultura em que os mitos e a linguagem da religião pudessem ser substituídos por mitos e linguagem seculares igualmente poderosos. E ela tem experiências semelhantes às dele, como a de ser protegida por um pesado aparato de segurança. Rushdie descreve o funcionamento desse serviço em algum detalhe. É a primeira vez que ele trata do assunto de maneira mais extensa: "Certa vez, encontrei-me com uma alta funcionária do serviço secreto britânico e disse a ela: 'Não há muitos escritores de esquerda que saibam tanto sobre esta agência quanto eu'. A funcionária respondeu assim: 'Creio que não há escritores de nenhuma inclinação política com esse tipo de conhecimento'. Usei um pouco dessa informação agora. Talvez um dia eu escreva um romance de espionagem".

Apesar de conter elementos como esses, o grande triunfo de Shalimar, o Equilibrista talvez seja o seguinte: é possível ler o livro e esquecer que seu autor tem a experiência de vida de Salman Rushdie. Nos últimos seis anos, o escritor conseguiu recompor a normalidade em seu cotidiano. Recentemente, celebrou seu quarto casamento. Sua mulher é Padma Lakshmi, uma beldade de origem indiana, 23 anos mais jovem que ele, conhecida como modelo, autora de livros sobre culinária e atriz – ela deve representar em breve o papel de rainha do Egito numa refilmagem do épico Os Dez Mandamentos. Em seu novo romance, Rushdie alcança um pico em seu trabalho literário. Um belo número de equilibrismo.

 

 
 
 
 
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