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Especial Rushdie,
o equilibrista O autor que sobreviveu à sentença
de morte no Islã lança novo livro. E mostra que sua literatura
também escapou ilesa  Carlos
Graieb, de Londres
Mike
Segar/Reuters
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autor hoje: vida além da fatwa |
Convidado para a Festa Literária
Internacional de Parati, que acontece entre os dias 6 e 10 de julho na cidade
histórica do Rio de Janeiro, o escritor britânico Salman Rushdie
tomou uma decisão inesperada: lançar no Brasil, antes mesmo do que
no inglês original, o seu novo romance, Shalimar, o Equilibrista (tradução
de José Rubens Siqueira; Companhia das Letras; 392 páginas; 46 reais).
VEJA teve acesso exclusivo ao livro e, nesta edição, publica um
trecho em primeira mão. Além disso, foi à Inglaterra no fim
de maio para entrevistar o autor. Um lugar foi escolhido no centro de Londres
e, na hora marcada, ele chegou a pé, sozinho um homem tranqüilo
de 58 anos. Até pouco tempo atrás, isso seria impensável.
Rushdie viveu uma década de escuridão.
Ela teve início em 1989, quando o governo fundamentalista do Irã
considerou o romance Os Versos Satânicos ofensivo ao islamismo e
decretou uma sentença de morte contra o autor. Terminou em 1998, depois
que o país, pressionado pela comunidade internacional, se comprometeu a
não mais encorajar a execução do castigo. Durante os "anos
da peste", o risco de assassinato foi imenso. Rushdie teve de esconder-se, sob
forte segurança. Numa fase particularmente ruim, mudou de abrigo treze
vezes em apenas vinte dias. Hoje, a ameaça tornou-se negligenciável.
Não há guarda-costas nem agentes secretos vigiando a rua. Mas o
autor ainda é um exemplo de como o fanatismo pode causar o inferno
e de como é possível resistir a ele.
A par do perigo físico, os anos terríveis da fatwa ameaçaram
esmagá-lo com a depressão. Rushdie resistiu como intelectual, tornando-se
um crítico do obscurantismo e da presença da religião na
esfera política e, sobretudo, um defensor ferrenho da liberdade de expressão.
"Um dos efeitos da crise foi levar-me a um processo de reflexão pelo qual
eu talvez nunca tivesse passado em circunstâncias normais", conta ele. "Naquela
situação extrema, não bastava saber contra o que eu me opunha.
Precisei descobrir se havia coisas que eu realmente considerava valiosas a ponto
de lutar por elas e a resposta foi sim." Ranjan
Basu/AP
 | | Muçulmanos
queimam boneco de Rushdie |
Mais importante
para sua auto-imagem, Rushdie resistiu como romancista. "Tornar-me um escritor
diferente do que eu sempre desejara ser equivalia a render-me." Rushdie publicou
sete livros desde 1989 duas coletâneas de ensaios e cinco obras de
ficção. Mas Shalimar, o Equilibrista é a prova definitiva
de que o confronto com o fanatismo não quebrou os ossos de sua arte. Ao
lado de Midnight Children (Filhos da Meia-Noite), de 1981, deve fixar-se
como obra-prima. Ele tem a exuberância de linguagem que Rushdie sempre buscou,
grande abrangência histórica e geográfica, uma pronunciada
veia satírica, e também sutileza ao lidar com temas como honra,
vergonha e perdão. O terrorismo e a violência estão no centro
do enredo, mas o objetivo do romance é tecer uma história, e não
destilar opiniões políticas. Segundo
Rushdie, o ponto de partida para a narrativa foi a imagem de um assassinato na
entrada de um prédio. "Essa foi a fagulha criativa, em torno da qual o
romance cresceu", conta ele. A cena está nas primeiras páginas do
livro: Max Ophuls, diplomata aposentado, vai visitar sua filha e é degolado
por seu motorista, Shalimar, na porta do condomínio onde ela mora. Explicar
as razões do crime leva a história a ziguezaguear entre a Califórnia
contemporânea, a Europa de meados do século XX e a Caxemira de várias
décadas. Rushdie tem raízes familiares
na Caxemira, pivô de um conflito de quase seis décadas entre a Índia
e o Paquistão. O que torna a história recente da região trágica
é o fato de que, até se ver ensanduichada entre as duas grandes
nações surgidas da divisão da antiga colônia britânica
da Índia, a Caxemira era descrita, sem ironia, como um paraíso de
natureza estonteante e de convivência exemplar entre a maioria muçulmana
e a minoria hindu. Durante a transição colonial, o reino pôde
optar entre permanecer independente e juntar-se a um dos novos vizinhos poderosos.
A hesitação do governante, o marajá Hari Singh, teve conseqüências
funestas. Índia e Paquistão entraram em guerra e acabaram dividindo
a Caxemira. A província tornou-se uma caldeira de tensões étnicas,
políticas e religiosas, que cresceram até o ponto em que militantes
muçulmanos radicais, freqüentemente financiados pelo governo paquistanês,
passaram a cometer atrocidades, combatidas por um Exército indiano não
menos tirânico e irracional. Os dois lados do conflito são encarnados
no livro por personagens cômicos, ao mesmo tempo que sinistros: Bulbul Fakh,
o mulá de ferro, que apresenta à Caxemira a vertente fanática
do islamismo, e o general Kachhawa, um homem assolado por uma luxúria incontrolável
e pela maldição de uma memória da qual nada se apaga. "Foi
muito agradável criar esses personagens. A sátira é sempre
a melhor vingança", diz Rushdie. A destruição
do paraíso caxemirense é o pano de fundo para a história
de Shalimar, o Equilibrista. É numa pequena aldeia de artistas da
região que crescem o personagem-título e a jovem Boonyi (num
toque alegórico, Rushdie faz com que os dois nasçam na noite de
1947 em que o conflito entre Índia e Paquistão começou).
Apesar de pertencerem a religiões diferentes, os dois se casam com
o apoio da família e se amam até o dia em que Boonyi, durante uma
apresentação, se encontra com o embaixador americano Max Ophuls,
um herói da resistência antinazista na II Guerra Mundial. O homem
a cobiça. Ela enxerga nele a oportunidade de escapar de seu mundinho. De
fato, os dois se tornam amantes. O romance entre
Boonyi e Max está fadado ao fracasso. Ele a mantém num apartamento
na capital indiana, onde a bela dançarina paulatinamente perde o brilho
e se transforma numa figura repulsiva. Quando pressente que vai ser abandonada,
ela tem uma filha, da qual, no entanto, vai ser obrigada a separar-se: é
diante de sua casa que, anos mais tarde, Max Ophuls será morto. A traição
fará com que Shalimar, por sua vez, escolha um caminho macabro: juntar-se
aos terroristas muçulmanos que começam a pulular na Caxemira e tornar-se
um assassino. Rushdie descreve os campos de doutrinação e treinamento
no Paquistão, mas não faz de Shalimar um fanático religioso.
Sua conversão ao islamismo ensandecido do mulá Bulbul Fakh é
fingida. O que o move é uma concepção exacerbada da própria
honra: "A honra estava acima de qualquer outra coisa, acima dos votos sagrados
do matrimônio, acima da divina interdição ao assassinato a
sangue-frio, acima da decência, acima da cultura, acima da própria
vida". Esse é um tema presente na obra de Rushdie desde Shame (Vergonha),
romance de 1983. "Assim como os conceitos de culpa e redenção são
fundamentais para a cultura cristã, os conceitos de honra e vergonha estão
no centro das culturas muçulmana e hindu. É impossível entendê-las
sem atentar para isso", diz o autor. Shalimar presta
serviços ao terrorismo internacional para poder vingar-se de Boonyi e Max
Ophuls. Mas a história lhe reserva um último confronto, com a filha
das pessoas que o humilharam. Trata-se de uma personagem que, de certa forma,
pode ser associada a Rushdie. Ela expressa idéias caras ao autor, como
a de uma cultura em que os mitos e a linguagem da religião pudessem ser
substituídos por mitos e linguagem seculares igualmente poderosos. E ela
tem experiências semelhantes às dele, como a de ser protegida por
um pesado aparato de segurança. Rushdie descreve o funcionamento desse
serviço em algum detalhe. É a primeira vez que ele trata do assunto
de maneira mais extensa: "Certa vez, encontrei-me com uma alta funcionária
do serviço secreto britânico e disse a ela: 'Não há
muitos escritores de esquerda que saibam tanto sobre esta agência quanto
eu'. A funcionária respondeu assim: 'Creio que não há escritores
de nenhuma inclinação política com esse tipo de conhecimento'.
Usei um pouco dessa informação agora. Talvez um dia eu escreva um
romance de espionagem". Apesar de conter elementos
como esses, o grande triunfo de Shalimar, o Equilibrista talvez seja o
seguinte: é possível ler o livro e esquecer que seu autor tem a
experiência de vida de Salman Rushdie. Nos últimos seis anos, o escritor
conseguiu recompor a normalidade em seu cotidiano. Recentemente, celebrou seu
quarto casamento. Sua mulher é Padma Lakshmi, uma beldade de origem indiana,
23 anos mais jovem que ele, conhecida como modelo, autora de livros sobre culinária
e atriz ela deve representar em breve o papel de rainha do Egito numa refilmagem
do épico Os Dez Mandamentos. Em seu novo romance, Rushdie alcança
um pico em seu trabalho literário. Um belo número de equilibrismo.
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