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Economia
e Negócios "Não sou pior
que os outros" "Eu
mandei transferir o dinheiro que o Sarney tinha guardado no Banco Santos. Já
o meu ficou preso, assim como o dos meus filhos, o da minha irmã e o da
minha mãe, que está com 90 anos"  Marcio
Aith
Otavio
Dias de Oliveira
 | | Edemar
diz que não participava do dia-a-dia do Banco Santos |
Edemar
Cid Ferreira, ex-dono do Banco Santos, quebrou um silêncio de sete meses,
mantido desde novembro de 2004, quando o Banco Central interveio na instituição
financeira. Na semana passada, concedeu entrevista a VEJA, pouco antes de ser
indiciado pela Polícia Federal por crime do colarinho-branco, lavagem de
dinheiro, formação de quadrilha, evasão de divisas e contabilidade
paralela. Ele contou sua versão para a queda e como vai enfrentar o processo
na Justiça.
O QUE DEU ERRADO
NO BANCO SANTOS? Nos últimos meses antes da intervenção,
havia cerca de trinta fiscais em um dos andares de nossa sede. Não existia
necessidade desse número exagerado. É por isso que digo que o Banco
Santos sofreu uma corrida de saques justamente porque o Banco Central passou a
fazer uma fiscalização ostensiva e barulhenta. Apesar de resistir
a quatro meses de boataria forte, o banco acabou tendo de pedir o redesconto,
que foi surpreendentemente negado. Se o Banco Central cumprisse o seu papel, fiscalizando
sem fazer alarde, ou se, porque fez alarde, tivesse dado o redesconto, o Banco
Santos hoje não teria credores. Teria clientes. MAS
COMO NÃO FISCALIZAR SE O BC CONSTATOU DIVERSAS IRREGULARIDADES GRAVES,
ENTRE AS QUAIS A CONCESSÃO INADEQUADA DE CRÉDITO A EMPRESAS ENDIVIDADAS
E COM SEDE EM PARAÍSOS FISCAIS? Todas as empresas eram habituais
clientes do Banco Santos e as operações feitas em nome delas eram
de conhecimento do Banco Central. Além do mais, eu não participava
do comitê de crédito desde 2001. Também não participava
da administração do banco, apenas conversava estrategicamente com
o diretor-superintendente, que controlava 25 diretorias. EM
GRAVAÇÕES, ÁLVARO ZUCHELLI, EX-DIRETOR DO BANCO SANTOS, ADMITE
QUE HOUVE FRAUDE E OPERAÇÕES ILEGAIS. O QUE O SENHOR TEM A DIZER
SOBRE ISSO? Não posso fazer comentários sobre um grampo
ilegal e supostas conversas que não ouvi. HÁ
MAIS. UM EMPRESÁRIO CHAMADO FLÁVIO CALAZANS DIZ TER COMPRADO, SOB
SUA ORIENTAÇÃO, EMPRESAS DE FACHADA QUE ENVIARAM ILEGALMENTE 480
MILHÕES DE REAIS AO EXTERIOR. Eu o conheço. Ele trabalhou
em minha corretora na década de 80. Mas essa história não
convence ninguém. Parece conto da carochinha essa conversa de que um empresário
experimentado dirigia empresas e deixou, inocentemente, que sumisse esse dinheiro
todo. HÁ OUTROS BANCOS QUE UTILIZAM
AS MESMAS PRÁTICAS DAS QUAIS O BANCO SANTOS ESTÁ SENDO ACUSADO?
Acho que todos os bancos têm seus métodos de trabalho, mas não
sou pior que os outros. O que posso afirmar é que a fiscalização
ostensiva do Banco Central durante três anos sufocou a instituição.
Sempre desconfiei que éramos uma espécie de boi de piranha: enquanto
estávamos sendo devorados, a boiada passava. No entanto, não serei
eu, que me acho vilipendiado, quem vai atirar pedra em ninguém.
O SENHOR DESVIOU OBRAS DE ARTE DE SUA COLEÇÃO?
Se eu quisesse sumir com obras de arte não teria deixado 650 peças
em minha casa, como as de Di Cavalcanti, Portinari, Brecheret, Rauschenberg, entre
outros. Nem teria deixado cerca de 20.000 itens no depósito, onde está
a maior coleção de cerâmica marajoara do mundo. Tudo isso
foi encontrado quando houve o seqüestro determinado pela Justiça.
É bom ressaltar que nossa coleção é viva. Antes desses
problemas, estava permanentemente se reciclando. ALGUNS
DIAS ANTES DA INTERVENÇÃO, O SENADOR JOSÉ SARNEY TRANSFERIU
CERCA DE 2 MILHÕES DE REAIS DO BANCO SANTOS PARA OUTRA INSTITUIÇÃO
FINANCEIRA. COM ISSO, ESCAPOU DO BLOQUEIO IMPOSTO PELO BANCO CENTRAL. COMO OCORREU
ESSE SAQUE? Sarney nunca me pediu para retirar o dinheiro do banco. Eu
que o fiz. Quando cheguei na quinta-feira de manhã ao banco (um dia
antes da intervenção), a primeira coisa que falei foi: "Peça
para transferir o dinheiro que o Sarney tem para a conta dele no Banco do Brasil".
POR QUÊ? Havia meses uma ex-gerente
de sua conta, que já não trabalhava para o Banco Santos, pedia insistentemente
a mim e ao Sarney para que o dinheiro fosse transferido para outro banco onde
ela estava indo trabalhar. Ela me enchia o saco. O
SENHOR ACHA JUSTO TER TRATADO O SENADOR COM UMA DEFERÊNCIA NÃO ESTENDIDA
A OUTROS CLIENTES? Saiba que ficou preso no banco o meu dinheiro, assim
como o de todos os meus filhos, o da minha irmã e o da minha mãe,
que está com 90 anos. Se eu tivesse de fazer alguma coisa, a primeira que
faria seria retirar o dinheiro do MBA do meu filho e o da minha mãe também.
COMO O SENHOR ESTÁ SUSTENTANDO SUA MANSÃO?
Nossa casa é a única residência da família desde
1987, antes de o banco ser fundado. Não temos fazenda, apartamento no exterior,
helicóptero nem avião. Ela foi feita para abrigar a coleção
de arte da família. Temos diminuído drasticamente nossos gastos.
Nossos parentes e amigos nos ajudam. O proprietário do depósito
onde estão as obras de arte nos deu uma carência de doze meses.
OS AMIGOS SE AFASTARAM DEPOIS DA LIQUIDAÇÃO
DO BANCO SANTOS? Nem todos. Devo dizer que um grupo importante continua
muito fiel. O SENHOR NEGOU-SE
A DEPOR NA POLICIA FEDERAL E FOI INDICIADO. QUAL É SUA ESTRATÉGIA
DE DEFESA? Fui pessoalmente lá para dizer que não deporia
agora, por recomendação de meus advogados, a quem foi negado acesso
ao processo. Mas deporei em juízo. Estou à disposição
da Justiça e sempre presente para receber notificações judiciais.
Já fiz questão de entregar meu passaporte. |