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Economia e Negócios O
custo da "enrolation" Cinco donos da Schincariol
são presos sob acusação de sonegação fiscal
de 1 bilhão de reais e subfaturamento de notas fiscais  Chrystiane
Silva e Victor Martino
Daniel
Pera/Diário de São Paulo/Ag. O Globo
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Schincariol (à esq.) e Gilberto Júnior: algemados na chegada a São Paulo
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Não passou sem críticas
a ascensão meteórica da Schincariol no mercado brasileiro de cervejas.
Em apenas doze anos, a participação da empresa nesse comércio
deu um salto impressionante, de 4% para 12,5%. Ao longo desse período,
a concorrência atribuiu tal avanço às brilhantes campanhas
publicitárias financiadas pela empresa com o dinheiro que deveria ter sido
usado para recolher impostos. Essa denúncia provocou um verdadeiro bate-boca
no setor no fim de 2003. Mas nada foi provado. Pelo menos até a semana
passada. Na última quarta-feira, uma ação conjunta entre
a Polícia Federal, a Receita Federal e o Ministério Público,
batizada de Operação Cevada, confirmou a suspeita. A ação
arrastou nada menos que setenta pessoas para a cadeia. Entre elas estavam os cinco
sócios da Schincariol, a segunda maior cervejaria do país. A companhia,
com sede em Itu, no interior paulista, é acusada de sonegar 1 bilhão
de reais em quatro anos. Mas as suspeitas incluem outros crimes: evasão
de divisas, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e corrupção
ativa. O esquema de fraudes teria como base o subfaturamento
na venda de produtos. A diferença entre o valor real do negócio
e o declarado nas notas fiscais era embolsada "por fora" e podia chegar a 30%
do total da transação. As investigações indicam também
que a Schincariol remetia os recursos sonegados ao exterior e então comprava
títulos do Tesouro dos Estados Unidos. Depois, vendia os papéis
no mercado internacional e repatriava o dinheiro, concluindo o esquema de lavagem.
A polícia acredita ter identificado ainda operações fictícias
de exportação sobre as quais não incidem impostos
, intermediadas por empresas de Foz do Iguaçu, no Paraná.
Haveria também indícios de importação com falsa declaração
de conteúdo e classificação incorreta de mercadorias. Eduardo
Knapp/Folha Imagem
 | | Enterro
de Nélson Schincariol: assassinado em 2003, antes do lançamento
da Nova Schin |
Além disso, foi
encontrado nas batidas da Operação Cevada um total de 227 placas
de automóveis sem lacre, utilizadas em caminhões que transportavam
bebidas da Schincariol. As chapas frias faziam parte de uma artimanha para driblar
a cobrança do imposto sobre circulação de mercadorias (ICMS),
com alíquota que varia entre 18% e 30% dependendo do estado. "Se as denúncias
forem comprovadas, um esquema como esse teria de contar com a conivência
de uma rede imensa de pessoas", diz Eduardo Fleury, advogado especialista em tributação.
Nas investigações, a Polícia Federal identificou o envolvimento
de agentes públicos no suposto esquema. Eles seriam usados tanto no momento
de obter facilidades como para aparentar legalidade nas operações
para cruzar as fronteiras federais. Sete servidores públicos foram presos.
A força-tarefa passou catorze meses filmando,
fotografando, cruzando dados e quebrando o sigilo telefônico dos envolvidos
nas supostas falcatruas. "Descobrimos um dos mais sofisticados sistemas utilizados
para fraudar impostos. Eles aperfeiçoaram o esquema depois de várias
autuações feitas pelos fiscais", diz Gerson Schaan, coordenador
da área de inteligência da Receita. O procurador da República
José Maurício Gonçalves, responsável pelo caso, acredita
que o material apreendido seja suficiente para denunciar os acusados por sonegação
fiscal, com pena que varia de dois a cinco anos de reclusão. Já
a acusação de lavagem de dinheiro pode render penas de três
a dez anos de cadeia. A Operação
Cevada teve lances cinematográficos. Começou na alvorada da quarta-feira,
quando 600 policiais e 180 fiscais da Receita Federal se espalharam por doze estados
brasileiros. A missão era deter suspeitos e cumprir 140 mandados de busca
e apreensão. Foi às 6 horas da manhã que integrantes da força-tarefa
se posicionaram diante da casa da família Schincariol, em Itu. Receosos
de que se tratasse de uma tentativa de assalto, Gilberto Schincariol e seus dois
filhos não abriram a porta. Na rua, os policiais prepararam um explosivo
para tentar derrubar o portão da casa. Mas não foi preciso utilizar
esse artifício. Os três tiveram a prisão preventiva decretada
por cinco dias e foram transferidos para São Paulo. Outros dois sócios
também foram detidos em Itu. A Schincariol,
fundada há 66 anos, nega as acusações feitas contra seus
dirigentes. Em nota, afirma que os documentos fiscais sempre estiveram à
disposição do Fisco. Lamenta também a forma como foi conduzida
a ação, pautada por um comportamento que a companhia define como
violento e sensacionalista. Informa ainda que a empresa recolheu 1,15 bilhão
de reais em impostos no ano passado, o equivalente a 44% do faturamento de 2,56
bilhões de reais em 2004. No auge da pressão da Receita, a Schincariol
lançou mão de um expediente tosco na tentativa de melhorar sua imagem:
comprar espaço editorial a seu favor na imprensa comprável. A estratégia
claramente fracassou, pois a imprensa não comprável continuou noticiando
regularmente os indícios de sonegação.
As suspeitas de sonegação contra a empresa, no entanto, são
antigas. Ex-funcionários que participariam dos golpes indicam que a prática
teria começado em 1989. Nesse período, o empresário Walter
Faria, dono da cervejaria Petrópolis, que também foi preso na semana
passada, ainda era proprietário de pelo menos 80% dos depósitos
da Schincariol. Ele teria criado o esquema de sonegação, juntamente
com Nélson Schincariol, o então presidente da empresa, assassinado
com três tiros em 2003, quando entrava em casa, em Itu. A polícia
concluiu que foi uma tentativa de assalto. Nesse caso, o golpe consistiria em
criar empresas de fachada em nome de "laranjas". A maior parte recebia até
2.000 reais por mês para emitir as notas fiscais usadas para burlar os impostos.
Os laranjas participaram desse esquema até 1997, quando se afastaram da
empresa. Em 1994, Schincariol já havia se
enrolado com o Fisco. A companhia tinha sido acusada pela Receita Federal e pela
Secretaria de Fazenda de São Paulo de não pagar tributos sobre mais
da metade das vendas. Tal prática permitiria que os preços da cerveja
fossem jogados para baixo. Os fiscais foram acionados, e a companhia passou a
ser um dos maiores contribuintes paulistas. Em 2001, surgiu nova suspeita, após
uma denúncia anônima. Foi ela que desencadeou a Operação
Cevada. A firma de Itu foi então tachada de ser conivente com irregularidades
ocorridas em uma de suas distribuidoras exclusivas de bebidas, em Minas Gerais.
A apuração do caso, que durou dois anos, confirmou os problemas
na distribuidora, autuada em 1 milhão de reais. Serviu também para
constatar a participação da cervejaria nas irregularidades. Em maio
de 2004, a Polícia Federal e o Ministério Público se juntaram
ao caso. Foi aí que a criatura da nova propaganda da Schincariol, o "enrolation",
se virou contra o criador. O Brasil é o
quinto maior produtor de cerveja do mundo e o consumo individual fica em 47 litros
ao ano, o que coloca o país entre os dez maiores bebedores de loira gelada
do planeta. A história da sonegação na indústria cervejeira
nacional é tão antiga quanto o gosto por essa bebida. Com impostos
que chegam a 35% do valor do litro de cerveja, é grande a tentação
dos produtores e distribuidores de criar alternativas para fugir do Fisco. Em
2003, o Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja (Sindicerv) fez uma
pesquisa com empresas do setor e descobriu que 15% do total de impostos devidos
pelo setor era sonegado. "É uma quantia expressiva, cerca de 750 milhões
de reais todo ano", diz Marcos Mesquita, superintendente do Sindicerv. Uma das
medidas já adotadas para diminuir a evasão fiscal é a obrigatoriedade
da instalação de medidores de vazão aparelhos que
indicam quanta bebida é produzida e envasada nas fábricas com capacidade
de produção acima de 5 milhões de litros por ano. Os medidores
vão enviar informações para a Receita Federal, que pode acompanhar
com mais precisão a atividade das companhias. Essa é uma tentativa
de fazer com que a cerveja não desça tão quadrada para o
país. Foto
Frederico Busch
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