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Crise
A ópera do malandro
Com garganta
bem treinada no
canto lírico e a cancha de muitos
anos de tribuna, Roberto Jefferson
estremeceu a República e um ele já levou
Fotos Ana Araujo
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Poucas coisas são mais perturbadoras
do que um mentiroso que resolve dizer a verdade, um corrupto que
assume ter roubado, um malandro que se transforma em paladino da
moralidade. O extraordinário psicodrama político que
se desenvolveu na terça-feira passada com o depoimento do
deputado Roberto Jefferson ao Conselho de Ética da Câmara
envolveu tantos elementos contraditórios que por vezes é
difícil distinguir o que é denúncia fundamentada,
insinuação cifrada, distorção deliberada.
Mas as linhas mestras são de uma contundência assustadora.
Número 1: a cúpula do governo e do PT, com os dois
Josés, Dirceu e Genoíno, à frente, comandava
um esquema sem precedentes de suborno em bloco de parlamentares.
Esmiuçando as denúncias já antecipadas, o deputado
deu nomes, datas, números. Número 2: a maldição
do financiamento ilícito de campanhas. O mesmo Jefferson
que atribui a uma fantasiosa conspiração entre a Abin
e VEJA a denúncia do esquema do PTB nos Correios e nega o
por fora que o partido recebia de 400 000 reais por mês via
Instituto de Resseguros do Brasil assumiu uma dinheirama muitas
vezes maior: uma "contribuição" de 20 milhões
de reais que, segundo ele, chegava via PT para irrigar campanhas
do PTB e cujo maior defeito foi não chegar inteira.
"Aqui todos sabem de onde vem o dinheiro da campanha", provocou,
apregoando a culpa coletiva do Legislativo. A seguir, trechos condensados
da ópera entoada com autoconfiança, histrionismo,
ressentimento homicida e nem uma gota de suor na camisa lilás:
UM NEGÓCIO CHAMADO MENSALÃO
"Provas não tenho a exibir; eu sou
testemunha. Jamais na minha vida como parlamentar eu havia presenciado
o partido do governo pagando mesada a partidos que compõem
a base. Nunca na minha vida. Mas desde agosto de 2003 é voz
corrente em cada canto desta casa, em cada fundo de plenário,
em cada gabinete, em cada banheiro, que o senhor Delúbio,
com o conhecimento do senhor José Genoíno, sim, tendo
como pombo-correio o senhor Marcos Valério, um carequinha
que é publicitário lá de Minas Gerais, repassa
dinheiro a partidos que compõem a base de sustentação
do governo num negócio chamado mensalão."
DELÚBIO E A UNHA ENCRAVADA
"Eu atendi (Delúbio) em minha
casa. Isso em princípios de 2004. E o Delúbio foi
simpático, fumou um charuto. Simples, um homem simples, mas
cumprindo uma missão. Cheio de melindres, de tato, para falar
comigo, aquele jeitão dele de goiano do interior. E disse
que gostaria de ajudar a desencravar uma unha que pudesse haver
a expressão que ele usa: 'Ajudar a desencravar uma
unha' de algum companheiro que pudesse, faria uns repasses ao PTB.
Eu disse: 'Delúbio, muito obrigado, não quero não.
O PTB quer estrutura de governo. Quer participar no pensamento e
na inteligência de governo, mas mensalão não
quer não."
DE MINISTRO EM MINISTRO
"Fui procurar o ministro José Dirceu
e disse isso a ele: 'Zé, tem um negócio ruim que está
acontecendo, que está um buchicho na casa, que está
ruim'. 'O que é?' 'O tal do mensalão. O Delúbio
está repassando dinheiro para partidos de base, que estão
distribuindo aos seus deputados um mensalão: 30 000 reais'.
Ele deu um soco na mesa. Com ele sobre esse assunto eu falei uma
meia dúzia de vezes. Né, Zé Dirceu? Né,
Zé? Com o Genoíno, falei com ele uma meia dúzia
de vezes. Falei ao ministro Ciro Gomes. Vou ao ministro das Comunicações,
Miro Teixeira. Ele achou grave, registrou. Disse isso ao ministro
Palocci. Ele nega, mas Palocci, ministro, com todo o respeito, disse
isso a vossa excelência, olhando dentro dos seus olhos. Depois,
mais tarde, disse isso ao ministro Aldo Rebelo."
DUAS MALAS ENORMES
"Fiz, sim, acordos políticos com o
PT. Em maio do ano passado conversamos eu, o tesoureiro do meu partido,
Emerson Palmieri, o doutor Delúbio, o presidente José
Genoíno e Marcelo Sereno, lá no prédio da Varig,
onde fui várias vezes. Pedi (a Genoíno) apoio
para as campanhas do partido. 'Sem problema.' Eles aprovaram os
20 milhões de reais para o financiamento das campanhas do
PTB em todo o Brasil. Cumpriram a primeira parte em princípios
de julho: 4 milhões de reais. O dinheiro foi levado ao partido
na 303 Norte, onde é a sede nacional de meu partido, pelo
senhor Marcos Valério. Primeiro, 2,2 milhões, duas
malas enormes, notas de 50 e 100, etiquetadas 'Banco Rural' e 'Banco
do Brasil'. Três dias depois, ou quatro dias depois, ele volta
com 1,8 milhão e a promessa de outras quatro parcelas
iguais."
DIFICULDADES QUE VIVEMOS
"'Genoíno, e como é que a gente
vai fazer para justificar esse dinheiro (mencionado acima)?'
Ele falou: 'No final, a gente faz a entrada via partido e a saída
conta contribuição'. Mas até hoje essas notas
não chegaram. Isso gerou uma crise brutal no meu partido,
porque a pior coisa é cumprir a primeira. E eu autorizei
aos companheiros de partido que fizessem despesas em função
do que foi tratado. E os companheiros sabem a dificuldade que nós
vivemos. Fui várias vezes falar com o José Genoíno,
várias vezes conversei com o Delúbio. Fui inclusive
ao Zé Dirceu. Voltei ao Zé Dirceu uma, duas, dez vezes.
Digo: 'Zé, está esgarçando, eu estou perdendo
autoridade'. Ele falou: 'Roberto, a Polícia Federal é
meio tucana. Meteu em cana 62 doleiros agora, às vésperas
da eleição. A turma que ajuda não está
podendo internar dinheiro no Brasil'."
A LISTA DE JEFFERSON
"Venho ao plenário desta Comissão
dizer que não são todos os deputados que recebem mensalão,
não. Tem muita gente do PP que está muito acima disso,
tem muita gente do PL que está muito acima disso. Mas deputado
Valdemar Costa Neto, deputado Janene, deputado Pedro Corrêa,
deputado Sandro Mabel, Bispo Rodrigues, Pedro Henry, me perdoem,
me perdoem, de coração. Eu não posso ser cúmplice
de vocês nessa história que envergonha uma grande parte
da Câmara dos Deputados."
É ASSIM E SEMPRE FOI
"Não há partido nenhum aqui
que faça diferente (sobre o dinheiro de campanha que diz
ter recebido do PT). Nenhum partido aqui recebe ajuda na eleição
que não seja assim. Eu não aluguei o meu partido,
não fiz dele um exército mercenário nem transformei
os meus colegas de bancada em homens de aluguel, mas eu sei de onde
vêm os recursos das eleições e todos sabem.
Aqui, todos sabem. Só que nós temos a hipocrisia de
não confessar ao Brasil. Eu estou assumindo isso. Os dinheiros
vêm dos empresários que, a maioria das vezes, mantêm
relações com as empresas públicas. É
assim e sempre foi."
SÓ COM CONTRAPARTIDA
"O secretário-geral do PT àquela
época e o ministro José Dirceu ofereceram este cargo
ao PTB: a presidência do IRB. Nós não tínhamos
um nome. O corretor Henrique Brandão trouxe o doutor Lídio
(Duarte) ao nosso encontro. Ele disse que se sentaria na
presidência do IRB e ajudaria o PTB, que ele ia juntar um
grupo de cinco, seis brokers, cada um daria 60 000 reais e eles
fariam um depósito na conta de contribuição
do meu partido, o PTB, todo mês. Nunca cumpriu a palavra que
empenhou, mas eu assumo isso de público. Vossa Excelência
não nomeia dirigentes de estatais sem uma contrapartida para
o seu partido."
MAIS FÁCIL ALUGAR
"Quem não ouviu falar (no mensalão)?
Nas rodas de jantares, nas rodas de bares, no fundo do plenário.
Eu apenas destampei, mas quero dizer que a bancada do PT não
tem nada a ver com isso. Foi uma decisão de cúpula
e eu entendo o motivo. É mais fácil alugar o deputado
do que repartir compromisso de governo, pensar projeto de poder.
É mais fácil."
O DEPUTADO LÊ VEJA
"Ô, revistinha! Ô, revistinha!"
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