Edição 1910 . 22 de junho de 2005

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Brasil
As boas relações
de Marcos Valério

O empresário Marcos Valério, acusado
de ser o encarregado do PT de distribuir
o mensalão a deputados, teve seis encontros
com o tesoureiro Delúbio Soares em um ano.
Está na sua agenda


Thaís Oyama e André Rizek

Paulo Filgueiras/Ag. Globo
Pedro Vilela/AE
AS ANOTAÇÕES
A agenda da ex-secretária de Valério, entregue à Polícia Federal: viagens em avião do Banco Rural, presentes para amigos no PT e reuniões com a cúpula do partido

VEJA teve acesso à agenda que Fernanda Karina Somaggio, a ex-secretária do empresário Marcos Valério, entregou na semana passada à Polícia Federal. Nela estão listados compromissos do seu ex-chefe em 2003. Valério, um dos proprietários da agência SMP&B, de Belo Horizonte, é acusado por Roberto Jefferson de ser o encarregado do PT de distribuir o mensalão a deputados da base aliada do governo. As anotações contidas no documento, feitas entre os dias 20 de maio e 15 de dezembro de 2003, comprovam a intimidade do empresário com figuras-chave do PT, mostram sua estreita relação com o Banco Rural e confirmam a generosidade do dono da SMP&B – Valério costumava presentear membros do governo com canetas Montblanc, um mimo caro.

O tesoureiro do PT, Delúbio Soares, é citado doze vezes na agenda. Segundo as anotações de Fernanda, ele teve pelo menos seis reuniões com Valério entre junho e dezembro de 2003. Uma delas contou com a presença do diretor do banco Opportunity Carlos Rodenburg (que, por sua vez, teve outras duas reuniões com Valério). O secretário-geral do partido, Silvio Pereira, comparece com sete citações e, de acordo com os registros, reuniu-se em quatro ocasiões com o dono da SMP&B em 2003. Outro petista que aparece com freqüência no documento é o deputado José Mentor. Há quatro menções ao seu nome, duas delas relacionadas ao Banco Rural. A agenda entregue pela ex-secretária Fernanda Karina à PF traz ainda o registro de dois depósitos bancários efetuados pela SMP&B naquele ano: um em benefício de um certo José Alves de Oliveira, no valor de 100 000 reais, e outro na conta do ex-ministro das Comunicações do governo Fernando Henrique, Pimenta da Veiga. Segundo o ex-ministro, o depósito se refere a "honorários advocatícios". O depósito para Pimenta da Veiga, no valor de 50 000 reais, foi feito na conta-corrente do Banco Rural.

O Rural era, segundo afirma Roberto Jefferson, o banco que os petistas usavam para pagar os deputados do mensalão. A agenda entregue à PF faz cinco referências à instituição. Numa delas, Fernanda anota que "Marcos, Cristiano, Paulinho, Dr. Rogério" vão – para lugar não mencionado – em "avião do Banco Rural". Em outra, a secretária anota o adiamento de uma reunião de Valério, e outras três pessoas não identificadas, com o deputado José Mentor, registrando: "Assunto rural". O deputado Mentor, que foi relator da CPI do Banestado, é acusado de ter "aliviado" a situação do Banco Rural no relatório final da CPI. A anotação da reunião com Mentor é acompanhada da seguinte observação: "Ideal para pessoa do banco".

Os registros indicam ainda que o empresário Valério é do tipo que se esforça para agradar aos amigos – em particular, os do PT. Uma das anotações de Fernanda, por exemplo, se destina a lembrar o chefe de que 27 de novembro é o dia de aniversário da secretária de Silvio Pereira, Viviane. Outra, do dia 10 de junho – logo abaixo do registro de uma das reuniões do empresário com o tesoureiro Delúbio –, é um lembrete para a compra de duas canetas da marca Montblanc: uma para Marcus Flora e outra para o deputado João Paulo Cunha. Marcus Flora é o segundo homem na hierarquia da Secretaria de Comunicação de Governo e Gestão Estratégica, pasta do ministro Luiz Gushiken, que trata, entre outras coisas, da relação do governo com agências de publicidade. João Paulo Cunha foi presidente da Câmara dos Deputados, cuja conta publicitária pertence à SMP&B. No ano passado, a Câmara baixou uma portaria transferindo de um departamento para uma pessoa – no caso, um petista de sua confiança – a fiscalização do contrato entre a SMP&B e a Casa. Ouvido por VEJA, o deputado disse não se lembrar se, de fato, ganhou uma Montblanc de presente de Valério, mas afirmou ser "muito amigo" do empresário. Segundo João Paulo, a caneta "pode ter sido um presente de aniversário".

 

Agenda poderosa 

Nomes ligados ao escândalo do mensalão que aparecem na agenda da ex-secretária de Marcos Valério e as suspeitas que eles suscitam – ou reforçam  

DELÚBIO SOARES
Suspeita
As agências de Marcos Valério, acusado de ser o distribuidor do mensalão, não prestam serviços ao PT, mas as seis reuniões do tesoureiro do partido com Valério mostram que ambos tinham muito a conversar

SILVIO PEREIRA
Suspeita
Jefferson acusa Silvio de ser, com Delúbio, responsável pela administração do mensalão. Silvio confirma ter estado com Valério, mas para tratar de "peças de publicidade para a campanha municipal de 2004". Diz que não gostou do material apresentado  

BANCO RURAL
Suspeita
O uso de um avião do banco e as diversas menções a ele na agenda da secretária de Valério reforçam a acusação de Jefferson de que era por meio da instituição que saía o dinheiro com que o empresário pagava aos deputados da base aliada  

JOSÉ MENTOR
Suspeita
A observação de que uma das reuniões de Valério com o deputado, que foi relator da CPI do Banestado, é "ideal para pessoa do banco" reforça suspeitas contra o parlamentar. Mentor é acusado de ter favorecido o Rural ao excluí-lo do relatório final da CPI do Banestado


AGRADOS
O deputado João Paulo, que teria ganho uma Montblanc de Valério: "muito amigos"

JOÃO PAULO CUNHA
Suspeita
Portaria baixada na administração do ex-presidente da Câmara transferiu de um departamento para uma pessoa – no caso, um petista – a fiscalização do contrato entre a SMP&B e a Casa. O fato de Valério encomendar uma Montblanc para presentear o deputado pode ser prova de amizade ou de gratidão

 

 
 
 
 
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