Edição 1910 . 22 de junho de 2005

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Brasil
O pagador do mensalão

Quem é e como atua o lobista mineiro
Marcos Valério, amigo do tesoureiro
do PT, Delúbio Soares. Revelado por
Roberto Jefferson, ele promete
contra-atacar


José Edward e Felipe Patury

Tião Mourão/1º Plano
O LOBISTA VALÉRIO
Suas relações com o vice José Alencar e o deputado Virgílio Guimarães lhe abriram as portas da cúpula do PT
NESTA REPORTAGEM
As boas relações de Marcos Valério

DOS ARQUIVOS DE VEJA
Reportagens sobre corrupção


O presidente licenciado do PTB, Roberto Jefferson, trouxe à luz na semana passada o nome de quem seria o pagador do mensalão para os partidos da base aliada do governo: o empresário mineiro Marcos Valério Fernandes de Souza. Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, Jefferson disse que Marcos Valério era o operador do tesoureiro do PT, Delúbio Soares, desde o início do governo. Ele distribuiria o mensalão com a ajuda do líder do PP, deputado José Janene. Em depoimento na Câmara, Jefferson deu mais detalhes. Contou que fechou um acordo pelo qual o PT daria ao PTB dinheiro para financiar sua última campanha municipal, como VEJA havia revelado em reportagem publicada em setembro do ano passado. Valério, "um carequinha falante", segundo Jefferson, teria levado malas recheadas com notas de 50 e 100 reais etiquetadas pelo Banco do Brasil e pelo Banco Rural. Em duas viagens, ele teria dado 4 milhões de reais ao presidente do PTB e prometido fazer mais quatro entregas iguais. Depois, teria acertado com o presidente do PT, José Genoino, uma forma de legalizar o dinheiro, o que nunca aconteceu.

Na última semana, Valério refugiou-se em sua casa em Belo Horizonte. Orientado por seus advogados, evitou a imprensa. Procurado por VEJA, declarou, por intermédio de um assessor, que Jefferson mentiu o tempo todo em seu depoimento: "Todas as acusações que o deputado me imputou são mentirosas. Vou desmascarar uma por uma no Congresso ou nos tribunais, que são os foros adequados". Valério antecipou a amigos parte de sua linha de defesa. Garante que estava nos Estados Unidos no período em que, segundo Jefferson, teria entregue 4 milhões de reais ao PTB. Para provar sua versão, ele dispõe de cópia das passagens aéreas e do voucher do hotel Hilton Times Square, em Nova York, onde teria se hospedado entre 9 e 17 de julho de 2004.

Dida Samapaio/AE
O TESOUREIRO DELÚBIO
Ele usou os serviços de Marcos Valério pela primeira vez na campanha de Lula. Os dois nunca mais se separaram


Até o depoimento de Jefferson, Valério era um personagem conhecido apenas nas sombras dos ministérios. Apresentava-se e era apresentado como publicitário. Uma pesquisa mais aprofundada sobre sua vida, contudo, mostra que ele comprou participações em agências publicitárias sem nunca ter sido publicitário, e sim lobista do sistema financeiro. Valério compensava sua falta de experiência no ramo com a aptidão para a criação e o atendimento. Criação de negócios e atendimento a poderosos, bem entendido – nada a ver com aquelas duas áreas estratégicas da propaganda propriamente dita. Aos 48 anos, casado, pai de dois filhos, ele começou a vida como balconista de farmácia. Deu-se melhor no Bemge, o antigo banco oficial de Minas Gerais. Entrou na instituição como contínuo, chegou a gerente e a conselheiro da distribuidora de valores do mesmo banco. No fim dos anos 80, desembarcou em Brasília para trabalhar como "assessor informal" do então presidente do Banco Central, Elmo Camões. No organograma do BC, nunca existiu esse cargo. E Camões acabou perdendo o seu depois que se descobriu que seu filho estava envolvido em falcatruas do mercado financeiro. Após a experiência com Camões – por mares nunca dantes navegados, dizem alguns –, Valério passou a se apresentar como consultor do mercado financeiro. Sua tarefa era representar os bancos, principalmente os de Minas, nas suas negociações com o Banco Central. Foi só há nove anos que Valério entrou no mundo da publicidade. Ele descobriu que a SMP&B, uma agência de Belo Horizonte, atravessava dificuldades financeiras. Montou um plano para tirá-la do atoleiro e chamou o atual vice-governador de Minas, Clésio Andrade, do PL, para financiar a empreitada. Em 1997, Valério convenceu Andrade a comprar uma participação em outra agência mineira, a DNA, de propriedade de Daniel Freitas, sobrinho do vice-presidente José Alencar. Nos dois casos, Andrade adquiriu 50% do capital da agência e transferiu 10% para Valério como pagamento pelo seu trabalho. No ano seguinte, Valério comprou as duas participações de Andrade, que temia que as agências lhe trouxessem complicações na sua campanha para vice-governador. Hoje, Andrade se arrepende de sua sociedade com Valério. "Ele é um homem truculento que faz tudo para ganhar dinheiro", diz.

O vice-governador de Minas é um dos poucos que se queixam de Marcos Valério, que tem amigos espalhados por todos os cantos – um de seus principais talentos é sua habilidade de pular de galho em galho sem cair. Desde a época em que Sarney era presidente, tem se dado bem com qualquer governo. Na gestão de Fernando Henrique Cardoso, construiu uma sólida ponte com o ex-ministro das Comunicações Pimenta da Veiga. Com ele, a agência SMP&B passou a atender aos Correios. Valério permaneceu ligado aos tucanos até o início de 2002, quando o apoio de Pimenta à campanha de José Serra a presidente da República começou a esmorecer. Valério, então, se aproximou de Ciro Gomes, então candidato pelo PPS e hoje ministro da Integração Nacional. Desembarcou da campanha de Serra, mas não abandonou o amigo Pimenta da Veiga. A agenda de sua ex-secretária Fernanda Karina Somaggio, à qual VEJA teve acesso, mostra que o ex-ministro recebeu 50.000 reais do lobista em 2003 (veja reportagem).

 

Nilton Fukuda/AE
SILVIO PEREIRA
Foi o primeiro contato do lobista Valério no PT. Eles voltaram a atuar juntos na defesa do banqueiro Daniel Dantas

Como Ciro não decolou, Valério procurou uma brecha para chegar ao PT no segundo turno da eleição presidencial. O caminho para a cúpula petista foi pavimentado pela sua sociedade com o sobrinho do vice-presidente José Alencar e por Virgílio Guimarães, para quem fazia de graça a campanha para deputado pelo PT. A campanha de Lula precisava saldar dívidas do primeiro turno. Valério aproveitou a oportunidade e firmou uma intensa amizade com o tesoureiro Delúbio Soares e o secretário-geral do PT, Silvio Pereira. Depois da vitória de Lula, Valério usou a agência DNA para fazer a campanha do petista João Paulo Cunha a presidente da Câmara dos Deputados. Ganhou a eleição e a conta de 9,8 milhões de reais da casa para sua outra agência, a SMP&B.

Na sucessão de João Paulo, fez oficialmente a campanha de outro petista, Luiz Eduardo Greenhalgh. Valério conquistou amigos graúdos no governo, mas continuava a recorrer ao amigo Virgílio Guimarães. "Ele é muito insinuante, tem uma maneira própria de nos envolver", diz o deputado. Com a ajuda de Guimarães, levou José Augusto Dumont, do Banco Rural, para uma reunião no Banco Central. Dumont era um porta-voz dos ex-banqueiros Armando Monteiro Filho, do Mercantil de Pernambuco, e Ângelo Calmon de Sá, do Econômico. A massa falida dessas instituições detém títulos públicos que interessam ao Banco Rural. Há cinco anos, eles pedem sem sucesso que o Banco Central autorize a venda desses papéis, um negócio de 5,5 bilhões de reais. O Banco Central não topou.

Ricardo Borba/CB
O ADVOGADO KAKAY
Antônio Carlos de Almeida Castro convenceu José Dirceu a defender os interesses de Daniel Dantas no governo


Em outra operação financeira, Valério e Dumont se uniram ao tesoureiro petista Delúbio Soares. O trio pretendia criar o Banco do Trabalhador, uma instituição que centralizaria a movimentação bancária de todos os sindicatos ligados à Central Única dos Trabalhadores. Um trabalho de primeira, como se vê. Já tinham até elaborado um projeto que deveria ser encampado por parlamentares petistas, como João Paulo Cunha e o líder do governo na Câmara, Professor Luizinho. A idéia foi abandonada em abril do ano passado, quando Dumont morreu num acidente de automóvel. Delúbio compareceu ao enterro com um séquito de sindicalistas. Entre o fim de 2003 e o início de 2004, Valério e Delúbio tentaram colocar em prática outro plano ousado. Valério pretendia tocar um plano de campanha para as prefeituras pequenas e médias às quais o PT estivesse concorrendo. Elas teriam caixa único e uma estratégia comum. O plano chegou a ser implementado em algumas cidades do interior de São Paulo. O governo Lula foi generoso com as agências de Valério. Os gastos do Banco do Brasil com publicidade saltaram de 153 milhões para 238 milhões de reais entre 2003 e 2004, um aumento de 55%, bem acima do registrado nos anos anteriores. Cerca de 30% desse valor, 71,4 milhões de reais, foi parar nas mãos da DNA. O Banco Popular do Brasil, subsidiária do Banco do Brasil cujo objetivo é emprestar dinheiro à população de baixa renda, também contratou a agência de Valério e gastou 24 milhões de reais com propaganda.

Apesar de tantas atividades, Valério encontrou tempo para se meter na maior briga corporativa da última década – e hoje credita a isso uma parte dos ataques que tem recebido. Em 2004, a pedido do banqueiro Daniel Dantas, ofereceu-se para azeitar as relações do banco Opportunity com o PT. Dantas, dono do Opportunity, tornara-se inimigo figadal de boa parte do partido em 1998, quando comprou a Brasil Telecom com o dinheiro dos fundos de pensão estatais. Com a vitória de Lula, não queria cair em desgraça e pediu a Valério que o apresentasse a Delúbio. Em troca, a DNA de Valério conquistou as contas da Telemig Celular e da Amazônia Celular, ambas de Dantas. Delúbio encampou as teses de Dantas e passou a bombardear seus opositores no governo. Valério e Delúbio contaram com apoios de peso: do advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, amigo do peito do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, e do secretário petista Silvio Pereira. No fim do ano passado, o quarteto quase conseguiu demitir o presidente da Previ, Sérgio Rosa, que comandava a guerra contra Dantas dentro do governo. Eles só não foram bem-sucedidos porque Luiz Gushiken, ministro da Comunicação do governo, impediu. Hoje, Kakay atua como um dos advogados de Dantas.

Agliberto Lima/AE
O CANDIDATO GAROTINHO
Valério o acusa de urdir matérias na imprensa para atingir Lula. Ele nega


No ano passado, Valério rompeu com o Opportunity em circunstâncias ainda obscuras. As relações amistosas deram lugar a ameaças. A seus assessores, Valério atribui ao Opportunity as gestões para que sua ex-secretária Fernanda Karina Somaggio o denunciasse publicamente. Na semana passada, a revista IstoÉ Dinheiro publicou uma entrevista em que Karina revela a ligação de Valério com o governo e confirma as denúncias do deputado Roberto Jefferson sobre as malas de dinheiro do mensalão. "Já vi o boy sair com o motorista para tirar 1 milhão de reais do Banco Rural. Para dividir dinheiro, entendeu?", diz ela. A revista diz ter feito a entrevista em dois momentos. No primeiro, em 2 de setembro de 2004, decidiu guardar a fita e "continuar avançando nas investigações". Depois que Jefferson fez as denúncias, voltou a procurar a secretária para uma nova entrevista. Dessa vez, resolveu publicá-la. Na quarta-feira passada, Fernanda Karina depôs na Polícia Federal. Entregou sua agenda e negou que tivesse visto malas de dinheiro na sede da empresa.

Valério conta a amigos uma história diferente – e cabeluda – sobre o episódio. Garante ter provas de que a agência de investigações Kroll ofereceu dinheiro para que a secretária falasse no ano passado. A Kroll, para quem não se lembra, é aquela agência de investigações flagrada em 2004 corrompendo funcionários públicos, bisbilhotando autoridades e pagando empregados de empresas privadas para que revelassem intimidades de seus patrões. Tudo a pedido de Dantas, em sua briga (hoje já encerrada) com a Telecom Italia pelo controle da Brasil Telecom. À Justiça, na qual é processada por Valério por extorsão, Karina admite ter recebido – e rejeitado – uma oferta de dinheiro em junho do ano passado por meio de um e-mail assinado por "AnaM e equipe". Nele, recebe a seguinte proposta: "Estamos dispostos a ajudá-la financeiramente para que você apenas responda a nossas perguntas sobre as coisas de seu ex-chefe. Pense que vai ser bom para nossa investigação e também bom para você, afinal você continua sem emprego". Valério diz a amigos ter certeza de que "AnaM e equipe" é um nome fantasia usado pelos investigadores da Kroll. Segundo a versão de Valério, o depoimento de Fernanda Karina não veio a público no ano passado porque ele conseguiu convencer a revista IstoÉ Dinheiro, pessoalmente, de que os relatos de Karina não tinham consistência. Valério mostrou a amigos o que seria uma cópia da matéria que sairia publicada em setembro. O documento, conforme seu relato, lhe teria sido entregue pelos dirigentes da editora responsável pela revista. Os editores de IstoÉ Dinheiro explicaram que deixaram de publicar a reportagem em setembro porque não viram nela relevância jornalística. Só teriam dado importância à entrevista da secretária quando Jefferson revelou a atuação de Marcos Valério no governo petista.

Apesar disso, o empresário, ainda de acordo com relato de amigos, está convicto de que a entrada de um novo personagem, e não uma reavaliação editorial, fez a história de sua ex-secretária renascer. O personagem seria, na hipótese levantada pela defesa de Valério, o ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho, candidato declarado à sucessão de Lula. Segundo a versão da defesa de Valério, Garotinho descobriu a existência do depoimento da secretária e fez de tudo para que a história viesse a público – em conluio com Roberto Jefferson. Os dois teriam objetivos próprios, mas uma estratégia comum: desgastar Lula. Jefferson ataca o governo para tentar salvar seu mandato. Garotinho quer que o PT chegue esfarrapado às eleições do ano que vem. Hoje secretário de Governo do Rio, Garotinho nega a teoria de Valério. "Eu só soube da entrevista dessa secretária pela TV durante o depoimento do Roberto Jefferson. Não a conheço e não falo com Roberto Jefferson há mais de um ano. Esse Marcos Valério está delirando." Pode ser ou não um delírio, mas sem dúvida todos esses escândalos são um pesadelo.

 

O amigo oculto

O EMPRESÁRIO MOURA: ele ajudou a escolher diretores de estatais e usou o nome do então ministro Dirceu para fazer negócios

Até a semana passada, o melhor cartão de visita que se podia ter em Brasília era o de amigo do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu. Ser próximo do "homem" abria as portas de gente poderosa, como bem sabe o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, especialista em "embargos auriculares", entre outras modalidades que não constam dos manuais jurídicos mais ortodoxos. Um dos que falavam em nome de Dirceu era o empresário paulista Fernando Antônio Hourneaux de Moura. Segundo relatos de três pessoas ouvidas por VEJA, Moura algumas vezes colocava seus interlocutores para falar com o ex-ministro no celular, ou os deixava ouvir as mensagens gravadas por Dirceu. O empresário passou despercebido no meio político de Brasília – o que não o impediu de fazer negócios fora dele. Muitos negócios.

Moura, reconheça-se, é um exemplo de empresário que conseguiu dar a volta por cima. No fim dos anos 90, ele quebrou. Parou de pagar até o condomínio de seu apartamento. Acabou condenado a dois anos e quatro meses de reclusão por não pagar impostos. Graças à sua amizade propalada com Dirceu, saiu do buraco. Afinal de contas, amigo é para essas coisas. Em 2002, Moura ajudou Dirceu a arrecadar dinheiro para sua campanha a deputado. Cabia à equipe do tesoureiro do PT, Delúbio Soares, recolher para José Dirceu o dinheiro obtido com a venda dos bônus eleitorais. Moura entrava em cena na fase seguinte, coletando em sigilo as doações feitas diretamente ao candidato. Ficou amigo também de Luis Favre, hoje marido da ex-prefeita paulistana Marta Suplicy. Festejou a posse de Lula num jantar com Dirceu e a mulher do ex-ministro.

Na transição e nos primeiros meses do governo, Moura ajudou Silvio Pereira a entrevistar candidatos para a diretoria de estatais, como a Petrobras, e a nomear gente para postos importantes do governo. Pediu a ajuda do ministro para emplacar um de seus irmãos na área de compras do Ministério da Saúde. Não conseguiu. Pouco depois, passou a informar Dirceu a respeito das negociações da GTech, multinacional americana da área de loterias, com a Caixa Econômica Federal, em torno de um contrato no valor de 600 milhões de reais. Quando estourou o escândalo envolvendo Waldomiro Diniz, assessor e amigo de Dirceu, em fevereiro de 2004, Moura foi orientado a sumir de Brasília. Mudou seus negócios para o Rio de Janeiro. Desde então, tenta sobreviver como fornecedor da Petrobras. Não vai mal. Já conseguiu um contrato para vender dutos e outro de afretamento de navios. A Petrobras afirma, contudo, que Moura não consta de sua lista de fornecedores.

 

Mensalão 2 (o de São Paulo)

Helvio Romero/AE
MAIS DENÚNCIA
A ex-prefeita Marta e seu secretário Garreta: 4 milhões para o PPS

VEJA já havia tornado públicas, cerca de um mês atrás, as suspeitas da existência de um mensalão na cidade de São Paulo, que, à semelhança daquele que estaria em vigor na Câmara Federal em Brasília, destinava até 120 000 reais aos vereadores em troca de votos favoráveis à gestão petista. Na sexta-feira passada, o jornal O Estado de S.Paulo trouxe novos elementos para o caso. Segundo a reportagem, no primeiro semestre do ano passado, dois petistas de alto coturno – o secretário-geral, Silvio Pereira, e o então secretário municipal de Comunicação, Valdemir Garreta – teriam oferecido 4 milhões de reais a dois dirigentes do PPS para que orientassem a bancada do partido a votar de acordo com os interesses da prefeita Marta Suplicy. A proposta, segundo a denúncia, teria ocorrido em duas oportunidades e contaria com a aprovação do tesoureiro do PT, Delúbio Soares. O presidente municipal do PPS, Carlos Fernandes, e o tesoureiro do partido, Rui Vicentini, teriam recusado o suborno.

Na ocasião, o PPS tinha dois parlamentares na Câmara: Edivaldo Estima e Myryam Athie. Um levantamento feito por VEJA, a partir de quatro votações consideradas polêmicas – as taxas de lixo e iluminação, o aumento do IPTU e a Lei Orgânica do Município, que reduziu as verbas para a área de educação –, mostra que, na maior parte delas, ambos deram votos favoráveis aos interesses da prefeita Marta. Essas votações ocorreram antes da suposta proposta feita pelos petistas aos líderes do PPS. O que chama atenção, porém, é a imensa maioria que a prefeita obteve em todas essas disputas. Em média, o governo obtinha, num universo de 44 vereadores – a Câmara tem 55, mas nem todos compareciam às votações –, 34 votos favoráveis e apenas 10 contra. "Essa margem tão elástica de apoio a um governo do PT, ainda mais em votações de pouco apelo popular, como o aumento de taxas, sempre me surpreendeu", diz o ex-vereador Claudio Fonseca, que pertenceu à bancada do PCdoB na Câmara nos quatro anos do governo Marta. A ex-prefeita, por sua vez, voltou a negar as acusações de pagamento e chamou de "tentativa de linchamento do PT" as denúncias publicadas na imprensa. Silvio Pereira e Valdemir Garreta fizeram coro a ela. "Eu nunca sequer apertei a mão desses senhores. Não me reuni com eles nem negociei nada", disse Garreta. Pereira se propôs a submeter-se a uma acareação com Fernandes e Vicentini. As suspeitas da existência de um mensalão na administração de Marta Suplicy haviam suscitado, na semana passada, o pedido de instauração de uma CPI na Câmara Municipal de São Paulo. Dias depois, o prefeito tucano José Serra orientou sua bancada a enterrar a iniciativa. Estranho.

Marcelo Carneiro

 

Com reportagem de Marcelo Carneiro,
Ronaldo França, Carina Nucci e Francisco Mendes

 
 
 
 
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