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Brasil O
pagador do mensalão Quem é e como atua
o lobista mineiro Marcos Valério, amigo do tesoureiro do PT, Delúbio
Soares. Revelado por Roberto Jefferson, ele promete contra-atacar  José
Edward e Felipe Patury
Tião
Mourão/1º Plano
 | O
LOBISTA VALÉRIO Suas relações com o vice José
Alencar e o deputado Virgílio Guimarães lhe abriram as portas da cúpula do PT
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O presidente
licenciado do PTB, Roberto Jefferson, trouxe à luz na semana passada o
nome de quem seria o pagador do mensalão para os partidos da base aliada
do governo: o empresário mineiro Marcos Valério Fernandes de Souza.
Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, Jefferson disse que Marcos Valério
era o operador do tesoureiro do PT, Delúbio Soares, desde o início
do governo. Ele distribuiria o mensalão com a ajuda do líder do
PP, deputado José Janene. Em depoimento na Câmara, Jefferson deu
mais detalhes. Contou que fechou um acordo pelo qual o PT daria ao PTB dinheiro
para financiar sua última campanha municipal, como VEJA havia revelado
em reportagem publicada em setembro do ano passado. Valério, "um carequinha
falante", segundo Jefferson, teria levado malas recheadas com notas de 50 e 100
reais etiquetadas pelo Banco do Brasil e pelo Banco Rural. Em duas viagens, ele
teria dado 4 milhões de reais ao presidente do PTB e prometido fazer mais
quatro entregas iguais. Depois, teria acertado com o presidente do PT, José
Genoino, uma forma de legalizar o dinheiro, o que nunca aconteceu.
Na última semana, Valério refugiou-se em sua casa em Belo Horizonte.
Orientado por seus advogados, evitou a imprensa. Procurado por VEJA, declarou,
por intermédio de um assessor, que Jefferson mentiu o tempo todo em seu
depoimento: "Todas as acusações que o deputado me imputou são
mentirosas. Vou desmascarar uma por uma no Congresso ou nos tribunais, que são
os foros adequados". Valério antecipou a amigos parte de sua linha de defesa.
Garante que estava nos Estados Unidos no período em que, segundo Jefferson,
teria entregue 4 milhões de reais ao PTB. Para provar sua versão,
ele dispõe de cópia das passagens aéreas e do voucher do
hotel Hilton Times Square, em Nova York, onde teria se hospedado entre 9 e 17
de julho de 2004.
Dida
Samapaio/AE
 | O
TESOUREIRO DELÚBIO Ele usou os serviços
de Marcos Valério pela primeira vez na campanha de Lula. Os dois nunca mais se
separaram |
Até o depoimento
de Jefferson, Valério era um personagem conhecido apenas nas sombras dos
ministérios. Apresentava-se e era apresentado como publicitário.
Uma pesquisa mais aprofundada sobre sua vida, contudo, mostra que ele comprou
participações em agências publicitárias sem nunca ter
sido publicitário, e sim lobista do sistema financeiro. Valério
compensava sua falta de experiência no ramo com a aptidão para a
criação e o atendimento. Criação de negócios
e atendimento a poderosos, bem entendido nada a ver com aquelas duas áreas
estratégicas da propaganda propriamente dita. Aos 48 anos, casado, pai
de dois filhos, ele começou a vida como balconista de farmácia.
Deu-se melhor no Bemge, o antigo banco oficial de Minas Gerais. Entrou na instituição
como contínuo, chegou a gerente e a conselheiro da distribuidora de valores
do mesmo banco. No fim dos anos 80, desembarcou em Brasília para trabalhar
como "assessor informal" do então presidente do Banco Central, Elmo Camões.
No organograma do BC, nunca existiu esse cargo. E Camões acabou perdendo
o seu depois que se descobriu que seu filho estava envolvido em falcatruas do
mercado financeiro. Após a experiência com Camões por
mares nunca dantes navegados, dizem alguns , Valério passou a se
apresentar como consultor do mercado financeiro. Sua tarefa era representar os
bancos, principalmente os de Minas, nas suas negociações com o Banco
Central. Foi só há nove anos que Valério entrou no mundo
da publicidade. Ele descobriu que a SMP&B, uma agência de Belo Horizonte,
atravessava dificuldades financeiras. Montou um plano para tirá-la do atoleiro
e chamou o atual vice-governador de Minas, Clésio Andrade, do PL, para
financiar a empreitada. Em 1997, Valério convenceu Andrade a comprar uma
participação em outra agência mineira, a DNA, de propriedade
de Daniel Freitas, sobrinho do vice-presidente José Alencar. Nos dois casos,
Andrade adquiriu 50% do capital da agência e transferiu 10% para Valério
como pagamento pelo seu trabalho. No ano seguinte, Valério comprou as duas
participações de Andrade, que temia que as agências lhe trouxessem
complicações na sua campanha para vice-governador. Hoje, Andrade
se arrepende de sua sociedade com Valério. "Ele é um homem truculento
que faz tudo para ganhar dinheiro", diz.
O vice-governador
de Minas é um dos poucos que se queixam de Marcos Valério, que tem
amigos espalhados por todos os cantos um de seus principais talentos é
sua habilidade de pular de galho em galho sem cair. Desde a época em que
Sarney era presidente, tem se dado bem com qualquer governo. Na gestão
de Fernando Henrique Cardoso, construiu uma sólida ponte com o ex-ministro
das Comunicações Pimenta da Veiga. Com ele, a agência SMP&B
passou a atender aos Correios. Valério permaneceu ligado aos tucanos até
o início de 2002, quando o apoio de Pimenta à campanha de José
Serra a presidente da República começou a esmorecer. Valério,
então, se aproximou de Ciro Gomes, então candidato pelo PPS e hoje
ministro da Integração Nacional. Desembarcou da campanha de Serra,
mas não abandonou o amigo Pimenta da Veiga. A agenda de sua ex-secretária
Fernanda Karina Somaggio, à qual VEJA teve acesso, mostra que o ex-ministro
recebeu 50.000 reais do lobista em 2003 (veja reportagem).
Nilton
Fukuda/AE
 | SILVIO
PEREIRA Foi o primeiro contato do lobista Valério
no PT. Eles voltaram a atuar juntos na defesa do banqueiro Daniel Dantas |
Como Ciro não decolou, Valério procurou uma brecha para chegar ao
PT no segundo turno da eleição presidencial. O caminho para a cúpula
petista foi pavimentado pela sua sociedade com o sobrinho do vice-presidente José
Alencar e por Virgílio Guimarães, para quem fazia de graça
a campanha para deputado pelo PT. A campanha de Lula precisava saldar dívidas
do primeiro turno. Valério aproveitou a oportunidade e firmou uma intensa
amizade com o tesoureiro Delúbio Soares e o secretário-geral do
PT, Silvio Pereira. Depois da vitória de Lula, Valério usou a agência
DNA para fazer a campanha do petista João Paulo Cunha a presidente da Câmara
dos Deputados. Ganhou a eleição e a conta de 9,8 milhões
de reais da casa para sua outra agência, a SMP&B.
Na sucessão de João Paulo, fez oficialmente a campanha de outro
petista, Luiz Eduardo Greenhalgh. Valério conquistou amigos graúdos
no governo, mas continuava a recorrer ao amigo Virgílio Guimarães.
"Ele é muito insinuante, tem uma maneira própria de nos envolver",
diz o deputado. Com a ajuda de Guimarães, levou José Augusto Dumont,
do Banco Rural, para uma reunião no Banco Central. Dumont era um porta-voz
dos ex-banqueiros Armando Monteiro Filho, do Mercantil de Pernambuco, e Ângelo
Calmon de Sá, do Econômico. A massa falida dessas instituições
detém títulos públicos que interessam ao Banco Rural. Há
cinco anos, eles pedem sem sucesso que o Banco Central autorize a venda desses
papéis, um negócio de 5,5 bilhões de reais. O Banco Central
não topou.
Ricardo
Borba/CB
 | O
ADVOGADO KAKAY Antônio Carlos de Almeida Castro
convenceu José Dirceu a defender os interesses de Daniel Dantas no governo |
Em outra operação financeira, Valério e Dumont se uniram
ao tesoureiro petista Delúbio Soares. O trio pretendia criar o Banco do
Trabalhador, uma instituição que centralizaria a movimentação
bancária de todos os sindicatos ligados à Central Única dos
Trabalhadores. Um trabalho de primeira, como se vê. Já tinham até
elaborado um projeto que deveria ser encampado por parlamentares petistas, como
João Paulo Cunha e o líder do governo na Câmara, Professor
Luizinho. A idéia foi abandonada em abril do ano passado, quando Dumont
morreu num acidente de automóvel. Delúbio compareceu ao enterro
com um séquito de sindicalistas. Entre o fim de 2003 e o início
de 2004, Valério e Delúbio tentaram colocar em prática outro
plano ousado. Valério pretendia tocar um plano de campanha para as prefeituras
pequenas e médias às quais o PT estivesse concorrendo. Elas teriam
caixa único e uma estratégia comum. O plano chegou a ser implementado
em algumas cidades do interior de São Paulo. O governo Lula foi generoso
com as agências de Valério. Os gastos do Banco do Brasil com publicidade
saltaram de 153 milhões para 238 milhões de reais entre 2003 e 2004,
um aumento de 55%, bem acima do registrado nos anos anteriores. Cerca de 30% desse
valor, 71,4 milhões de reais, foi parar nas mãos da DNA. O Banco
Popular do Brasil, subsidiária do Banco do Brasil cujo objetivo é
emprestar dinheiro à população de baixa renda, também
contratou a agência de Valério e gastou 24 milhões de reais
com propaganda. Apesar de tantas atividades, Valério
encontrou tempo para se meter na maior briga corporativa da última década
e hoje credita a isso uma parte dos ataques que tem recebido. Em 2004,
a pedido do banqueiro Daniel Dantas, ofereceu-se para azeitar as relações
do banco Opportunity com o PT. Dantas, dono do Opportunity, tornara-se inimigo
figadal de boa parte do partido em 1998, quando comprou a Brasil Telecom com o
dinheiro dos fundos de pensão estatais. Com a vitória de Lula, não
queria cair em desgraça e pediu a Valério que o apresentasse a Delúbio.
Em troca, a DNA de Valério conquistou as contas da Telemig Celular e da
Amazônia Celular, ambas de Dantas. Delúbio encampou as teses de Dantas
e passou a bombardear seus opositores no governo. Valério e Delúbio
contaram com apoios de peso: do advogado Antônio Carlos de Almeida Castro,
o Kakay, amigo do peito do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, e do
secretário petista Silvio Pereira. No fim do ano passado, o quarteto quase
conseguiu demitir o presidente da Previ, Sérgio Rosa, que comandava a guerra
contra Dantas dentro do governo. Eles só não foram bem-sucedidos
porque Luiz Gushiken, ministro da Comunicação do governo, impediu.
Hoje, Kakay atua como um dos advogados de Dantas.
Agliberto
Lima/AE
 | O
CANDIDATO GAROTINHO Valério o acusa de urdir
matérias na imprensa para atingir Lula. Ele nega |
No
ano passado, Valério rompeu com o Opportunity em circunstâncias ainda
obscuras. As relações amistosas deram lugar a ameaças. A
seus assessores, Valério atribui ao Opportunity as gestões para
que sua ex-secretária Fernanda Karina Somaggio o denunciasse publicamente.
Na semana passada, a revista IstoÉ Dinheiro publicou uma entrevista
em que Karina revela a ligação de Valério com o governo e
confirma as denúncias do deputado Roberto Jefferson sobre as malas de dinheiro
do mensalão. "Já vi o boy sair com o motorista para tirar 1 milhão
de reais do Banco Rural. Para dividir dinheiro, entendeu?", diz ela. A revista
diz ter feito a entrevista em dois momentos. No primeiro, em 2 de setembro de
2004, decidiu guardar a fita e "continuar avançando nas investigações".
Depois que Jefferson fez as denúncias, voltou a procurar a secretária
para uma nova entrevista. Dessa vez, resolveu publicá-la. Na quarta-feira
passada, Fernanda Karina depôs na Polícia Federal. Entregou sua agenda
e negou que tivesse visto malas de dinheiro na sede da empresa.
Valério conta a amigos uma história diferente e cabeluda
sobre o episódio. Garante ter provas de que a agência de investigações
Kroll ofereceu dinheiro para que a secretária falasse no ano passado. A
Kroll, para quem não se lembra, é aquela agência de investigações
flagrada em 2004 corrompendo funcionários públicos, bisbilhotando
autoridades e pagando empregados de empresas privadas para que revelassem intimidades
de seus patrões. Tudo a pedido de Dantas, em sua briga (hoje já
encerrada) com a Telecom Italia pelo controle da Brasil Telecom. À
Justiça, na qual é processada por Valério por extorsão,
Karina admite ter recebido e rejeitado uma oferta de dinheiro em
junho do ano passado por meio de um e-mail assinado por "AnaM e equipe". Nele,
recebe a seguinte proposta: "Estamos dispostos a ajudá-la financeiramente
para que você apenas responda a nossas perguntas sobre as coisas de seu
ex-chefe. Pense que vai ser bom para nossa investigação e também
bom para você, afinal você continua sem emprego". Valério diz
a amigos ter certeza de que "AnaM e equipe" é um nome fantasia usado pelos
investigadores da Kroll. Segundo a versão de Valério, o depoimento
de Fernanda Karina não veio a público no ano passado porque ele
conseguiu convencer a revista IstoÉ Dinheiro, pessoalmente, de que
os relatos de Karina não tinham consistência. Valério mostrou
a amigos o que seria uma cópia da matéria que sairia publicada em
setembro. O documento, conforme seu relato, lhe teria sido entregue pelos dirigentes
da editora responsável pela revista. Os editores de IstoÉ Dinheiro
explicaram que deixaram de publicar a reportagem em setembro porque não
viram nela relevância jornalística. Só teriam dado importância
à entrevista da secretária quando Jefferson revelou a atuação
de Marcos Valério no governo petista. Apesar
disso, o empresário, ainda de acordo com relato de amigos, está
convicto de que a entrada de um novo personagem, e não uma reavaliação
editorial, fez a história de sua ex-secretária renascer. O personagem
seria, na hipótese levantada pela defesa de Valério, o ex-governador
do Rio de Janeiro Anthony Garotinho, candidato declarado à sucessão
de Lula. Segundo a versão da defesa de Valério, Garotinho descobriu
a existência do depoimento da secretária e fez de tudo para que a
história viesse a público em conluio com Roberto Jefferson.
Os dois teriam objetivos próprios, mas uma estratégia comum: desgastar
Lula. Jefferson ataca o governo para tentar salvar seu mandato. Garotinho quer
que o PT chegue esfarrapado às eleições do ano que vem. Hoje
secretário de Governo do Rio, Garotinho nega a teoria de Valério.
"Eu só soube da entrevista dessa secretária pela TV durante o depoimento
do Roberto Jefferson. Não a conheço e não falo com Roberto
Jefferson há mais de um ano. Esse Marcos Valério está delirando."
Pode ser ou não um delírio, mas sem dúvida todos esses escândalos
são um pesadelo.
O amigo oculto
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EMPRESÁRIO MOURA: ele ajudou a escolher diretores
de estatais e usou o nome do então ministro Dirceu para fazer negócios |
Até
a semana passada, o melhor cartão de visita que se podia ter em Brasília
era o de amigo do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu. Ser próximo
do "homem" abria as portas de gente poderosa, como bem sabe o advogado Antônio
Carlos de Almeida Castro, o Kakay, especialista em "embargos auriculares", entre
outras modalidades que não constam dos manuais jurídicos mais ortodoxos.
Um dos que falavam em nome de Dirceu era o empresário paulista Fernando
Antônio Hourneaux de Moura. Segundo relatos de três pessoas ouvidas
por VEJA, Moura algumas vezes colocava seus interlocutores para falar com o ex-ministro
no celular, ou os deixava ouvir as mensagens gravadas por Dirceu. O empresário
passou despercebido no meio político de Brasília o que não
o impediu de fazer negócios fora dele. Muitos negócios.
Moura, reconheça-se, é um exemplo de empresário que conseguiu
dar a volta por cima. No fim dos anos 90, ele quebrou. Parou de pagar até
o condomínio de seu apartamento. Acabou condenado a dois anos e quatro
meses de reclusão por não pagar impostos. Graças à
sua amizade propalada com Dirceu, saiu do buraco. Afinal de contas, amigo é
para essas coisas. Em 2002, Moura ajudou Dirceu a arrecadar dinheiro para sua
campanha a deputado. Cabia à equipe do tesoureiro do PT, Delúbio
Soares, recolher para José Dirceu o dinheiro obtido com a venda dos bônus
eleitorais. Moura entrava em cena na fase seguinte, coletando em sigilo as doações
feitas diretamente ao candidato. Ficou amigo também de Luis Favre, hoje
marido da ex-prefeita paulistana Marta Suplicy. Festejou a posse de Lula num jantar
com Dirceu e a mulher do ex-ministro. Na transição
e nos primeiros meses do governo, Moura ajudou Silvio Pereira a entrevistar candidatos
para a diretoria de estatais, como a Petrobras, e a nomear gente para postos importantes
do governo. Pediu a ajuda do ministro para emplacar um de seus irmãos na
área de compras do Ministério da Saúde. Não conseguiu.
Pouco depois, passou a informar Dirceu a respeito das negociações
da GTech, multinacional americana da área de loterias, com a Caixa Econômica
Federal, em torno de um contrato no valor de 600 milhões de reais. Quando
estourou o escândalo envolvendo Waldomiro Diniz, assessor e amigo de Dirceu,
em fevereiro de 2004, Moura foi orientado a sumir de Brasília. Mudou seus
negócios para o Rio de Janeiro. Desde então, tenta sobreviver como
fornecedor da Petrobras. Não vai mal. Já conseguiu um contrato para
vender dutos e outro de afretamento de navios. A Petrobras afirma, contudo, que
Moura não consta de sua lista de fornecedores. | |
Mensalão 2 (o de São Paulo) Helvio
Romero/AE
 | MAIS
DENÚNCIA A ex-prefeita Marta e seu secretário
Garreta: 4 milhões para o PPS |
VEJA já havia tornado públicas, cerca de um mês atrás,
as suspeitas da existência de um mensalão na cidade de São
Paulo, que, à semelhança daquele que estaria em vigor na Câmara
Federal em Brasília, destinava até 120 000 reais aos vereadores
em troca de votos favoráveis à gestão petista. Na sexta-feira
passada, o jornal O Estado de S.Paulo trouxe novos elementos para o caso.
Segundo a reportagem, no primeiro semestre do ano passado, dois petistas de alto
coturno o secretário-geral, Silvio Pereira, e o então secretário
municipal de Comunicação, Valdemir Garreta teriam oferecido
4 milhões de reais a dois dirigentes do PPS para que orientassem a bancada
do partido a votar de acordo com os interesses da prefeita Marta Suplicy. A proposta,
segundo a denúncia, teria ocorrido em duas oportunidades e contaria com
a aprovação do tesoureiro do PT, Delúbio Soares. O presidente
municipal do PPS, Carlos Fernandes, e o tesoureiro do partido, Rui Vicentini,
teriam recusado o suborno. Na ocasião, o
PPS tinha dois parlamentares na Câmara: Edivaldo Estima e Myryam Athie.
Um levantamento feito por VEJA, a partir de quatro votações consideradas
polêmicas as taxas de lixo e iluminação, o aumento
do IPTU e a Lei Orgânica do Município, que reduziu as verbas para
a área de educação , mostra que, na maior parte delas,
ambos deram votos favoráveis aos interesses da prefeita Marta. Essas votações
ocorreram antes da suposta proposta feita pelos petistas aos líderes do
PPS. O que chama atenção, porém, é a imensa maioria
que a prefeita obteve em todas essas disputas. Em média, o governo obtinha,
num universo de 44 vereadores a Câmara tem 55, mas nem todos compareciam
às votações , 34 votos favoráveis e apenas 10
contra. "Essa margem tão elástica de apoio a um governo do PT, ainda
mais em votações de pouco apelo popular, como o aumento de taxas,
sempre me surpreendeu", diz o ex-vereador Claudio Fonseca, que pertenceu à
bancada do PCdoB na Câmara nos quatro anos do governo Marta. A ex-prefeita,
por sua vez, voltou a negar as acusações de pagamento e chamou de
"tentativa de linchamento do PT" as denúncias publicadas na imprensa. Silvio
Pereira e Valdemir Garreta fizeram coro a ela. "Eu nunca sequer apertei a mão
desses senhores. Não me reuni com eles nem negociei nada", disse Garreta.
Pereira se propôs a submeter-se a uma acareação com Fernandes
e Vicentini. As suspeitas da existência de um mensalão na administração
de Marta Suplicy haviam suscitado, na semana passada, o pedido de instauração
de uma CPI na Câmara Municipal de São Paulo. Dias depois, o prefeito
tucano José Serra orientou sua bancada a enterrar a iniciativa. Estranho.
Marcelo Carneiro | |
Com reportagem de Marcelo
Carneiro, Ronaldo França, Carina Nucci e Francisco Mendes |