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Entrevista: Ayaan Hirsi Ali
"O Islã é fascista"
Ameaçada de morte por fanáticos,
a política
holandesa diz que qualquer sociedade que vive
sob os preceitos do Corão se torna patológica

Antonio Ribeiro
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Antonio
Ribeiro

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"Em teoria, nada diferencia
um fanático cristão ou judeu de um fanático
muçulmano. Na prática, eles se sentem
mais à vontade no Islã"
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Após descarregar toda a munição
da pistola no cineasta Theo van Gogh, o fundamentalista islâmico
Mohammed Bouyeri aproximou-se da vítima. Ajoelhado numa rua
de Amsterdã, Van Gogh murmurou: "Tem certeza de que não
podemos conversar?". O assassino cortou-lhe a jugular com uma faca
de açougueiro e, com outra, espetou no cadáver uma
carta endereçada à holandesa de origem somali Ayaan
Hirsi Ali: "A próxima será você". Ayaan é
parlamentar em seu país e roteirista de Submissão
Parte I, o curta-metragem de Van Gogh sobre a repressão
sofrida pelas mulheres no Islã. Esse é um assunto
que ela conhece bem. Aos 5 anos, sofreu excisão do clitóris.
Aos 22, fugiu de um casamento arranjado com o primo pelo pai. Refugiada
na Holanda, trabalhou como tradutora nos centros sociais para imigrantes
e foi brilhante universitária de ciências políticas.
Na semana passada, sete meses depois da ameaça de morte,
Ayaan, uma negra longilínea de 35 anos, desceu de um carro
blindado numa ruela de Paris. Escoltada por seis guarda-costas,
falou com exclusividade a VEJA sobre sua renúncia ao islamismo,
sobre fundamentalismo e sobre seu encontro com outra célebre
vítima da violência religiosa, o escritor britânico
Salman Rushdie (tema
da reportagem especial desta edição).
Veja Por que seus inimigos
preferem a ameaça de morte ao debate de idéias?
Ayaan A razão é simples: eles não
têm nenhum argumento lógico para opor aos meus. Usam
o instrumento dos perdedores, a intimidação. Num debate,
eles sabem de antemão que seriam derrotados. O assassinato
bárbaro de Theo van Gogh pretendeu mostrar o fim de quem
ousa criticar o Islã. Enganaram-se. A dor da perda reforçou
minha certeza. Essa gente deve ser confrontada. A tarefa dispensa
o medo da controvérsia. O combate contra eles começa
com a palavra.
Veja Qual é o problema
com o Islã?
Ayaan O problema é o Corão e
o profeta Maomé. É a mensagem à qual está
sujeito 1,2 bilhão de indivíduos no mundo. O Islã
não é só uma religião, mas uma civilização.
Seu aspecto político e social, regido por códigos
severos, contém sementes fascistas. É um sistema que
espolia as liberdades do indivíduo e intervém na sua
privacidade sem admitir ser contestado. Nenhum muçulmano
é livre para questionar a sua crença religiosa. Ao
contrário da Bíblia e do Talmude, livros
sagrados dos monoteísmos abraâmicos semelhantes ao
islamismo, qualquer exegese do Corão é inadmissível.
Os muçulmanos devem crer, cegamente. Eu aprendi a decorar
o Corão desde a infância, posso recitar suras
inteiras. Algumas delas servem para justificar a violência,
liberar a consciência dos seus autores e também dos
observadores passivos. Segundo o livro sagrado do islamismo, os
fiéis devem aspirar, em permanência, ao conhecimento.
O mesmo livro diz que Alá sabe tudo. Toda fonte de conhecimento
está contida no Corão. Pergunto, como conciliar
as duas exigências? Qualquer comunidade que vive segundo os
preceitos de Maomé e do Corão torna-se patológica.
Veja Numa entrevista, a senhora
qualificou o profeta Maomé de tirano e perverso. Por que
pensa assim?
Ayaan Disse isso e não nego, nem me arrependo.
O calendário marca o ano de 2005, mas os fundamentalistas
islâmicos exigem dos muçulmanos imitação
perfeita de um comportamento tribal de 2.000 anos atrás.
Maomé, o guia infalível, disse haver uma só
verdade, e em seu nome revogou toda liberdade. Era um tirano, sim.
Maomé seduziu e violou Zainab, a mulher de um pupilo. Isso
não é perverso? Permita-me ir além. O profeta
casou-se com Aisha, uma menina de 9 anos, filha do seu melhor amigo.
Ele não esperou nem a criança atingir a puberdade,
apesar da súplica paterna, para pedir a sua mão em
casamento. Aisha foi prometida aos 6 anos de idade. Hoje no Irã,
casamentos desse tipo são perfeitamente legais, freqüentes.
Alguns muçulmanos reivindicam poder emular, sem entraves,
esse modelo de moralidade. Trata-se de pedofilia pura. Na Holanda,
Maomé seria levado pela polícia às barras de
um tribunal.
Veja Qual a diferença
entre os fundamentalistas das diversas religiões?
Ayaan Em teoria, nada diferencia um fanático
cristão ou judeu de um fanático muçulmano.
Na prática, eles se sentem mais à vontade no Islã.
Veja Por quê?
Ayaan Além de encontrar justificativa religiosa
farta, a crítica dos membros de sua própria crença
é quase nula. Quando o papa se posiciona contra o uso de
contraceptivos, católicos do mundo inteiro contestam sem
sofrer represálias. A cantora Madonna desperta antipatia
em puritanos com a canção Like a Prayer, mas
sua cabeça não está a prêmio. Ninguém
degolou os humoristas do Monty Python por ter realizado o filme
A Vida de Brian, uma sátira sobre Jesus Cristo exibida
no mundo todo. Esse espaço de tolerância não
existe no mapa do Islã, mesmo que muito almejado em silêncio.
O Islã está como o pai do terrorista Mohamed Atta
depois dos atentados de 11 de setembro de 2001. Traumatizado, desamparado,
cego. "Meu filho não tem nada a ver com isso. Foi obra da
CIA, dos judeus!" O pai não se deu conta da parte maléfica
do filho. Recuso que uma religião, outrora pacífica,
plena de força e energia, tenha no seu âmago o fanatismo
e a violência.
Veja Como a senhora descreve
a situação das mulheres no Islã?
Ayaan Numa cena do curta-metragem Submissão
Parte I, a câmera mostra o corpo da personagem
Zainab, espancada pelo marido. Zainab está coberta por hematomas,
feridas, cicatrizes e pelos versos do Corão que autorizam
o marido a bater, caso ele julgue a esposa desobediente. Os fundamentalistas
islâmicos ficaram irados ao ver os versos sagrados escritos
no corpo de uma mulher. O resto, para eles, é normal. Tive
um professor que me obrigava a escrever versos do Corão
em tabulários. Um hábito em desuso desde o século
XVI. Um dia, recusei-me a obedecer. Ele me vendou os olhos, levei
uma surra até conseguir me livrar da venda. Encolerizado,
ele me pegou pelos cabelos e bateu minha cabeça contra um
muro. Desmaiei.
Veja Como a platéia
não religiosa respondeu ao filme?
Ayaan De forma positiva, mas eu esperava uma dose
maior de indignação dos liberais laicos, intelectuais
e políticos da esquerda. O pessoal que acha ter o monopólio
dos bons sentimentos. Na verdade, eles padecem do velho paradoxo
da Revolução Francesa, que promoveu os direitos humanos
em casa, mas manteve a escravidão nas colônias. Em
nome da convivência multicultural, do respeito às tradições
de outrem, esses intelectuais do Ocidente hesitam em colocar em
evidência a situação subjugada da mulher dentro
do Islã. Eles têm receio de ofender, de suscitar cólera,
e assim ajudam a perpetuar o sofrimento e a injustiça. Ora,
aqui não cabem relativismos. Abuso e mutilação
sexual são crimes, e ponto final. Hoje, agora, já!
Tampouco deve ser tolerado o assédio, a perseguição
da qual são vítimas os homossexuais muçulmanos.
Os ocidentais não podem fazer vista grossa nem calar, como
já fizeram durante a existência dos gulags soviéticos.
O Islã não viveu o Iluminismo. As sociedades islâmicas
enfrentam os mesmos problemas do cristianismo anterior ao século
XVIII. Ainda não se estabeleceu o justo equilíbrio
entre razão e religião.
Veja O que é a "obsessão
do hímen", uma expressão que a senhora utiliza com
freqüência?
Ayaan No Islã, moças sem hímen
intacto são consideradas "objetos usados". Muitas jovens,
ao perder a virgindade, vêm para a Europa submeter-se a cirurgias
reparatórias. Na Holanda, até bem pouco tempo atrás,
em respeito ao multiculturalismo as imigrantes muçulmanas
eram reembolsadas pela seguridade social. Aos 5 anos, fui submetida
à clitorectomia, uma prática encorajada pelos clérigos
islâmicos. Essa é a maneira extrema de garantir a virgindade
antes do casamento. Na falta de uma mulher disponível, a
minha excisão foi feita por um homem. Relatórios da
ONU revelam que 98% das meninas na Somália são submetidas
à excisão do clitóris. Os outros 2% são
a margem de erro.
Veja Pode haver convivência
pacifica entre o Islã e o Ocidente?
Ayaan Espero que sim. No entanto, posso afirmar
sem equívoco, o Islã atual é incompatível
com o estado de direito das democracias ocidentais. A sobrevivência
das democracias ocidentais depende da sua vitalidade em defender
os valores liberais. A escolha que o século XXI oferece aos
muçulmanos é clara: modernidade ou regime tribal.
Eu proponho às comunidades islâmicas fazer uma reflexão
crítica da sua doutrina religiosa, a exemplo dos fiéis
de todas as grandes religiões. Se dizem que é preciso
rezar cinco vezes ao dia, vamos demonstrar, empiricamente, que isso
é impraticável no âmbito de uma vida moderna.
Eu proponho às comunidades islâmicas reter a espada
que corta a cabeça de quem pensa por si mesmo. Onde não
se pode criticar, todos os elogios são suspeitos. Caso eu
estivesse num país muçulmano, já estaria morta.
É do interesse tanto do mundo ocidental quanto do mundo islâmico
promover a crítica entre os muçulmanos. Enfrentar
o fundamentalismo é um objetivo comum.
Veja Como foi seu encontro
com o escritor britânico Salman Rushdie, que também
teve de viver escondido por causa de ameaças religiosas?
Ayaan Trocamos impressões sobre a vida cativa.
Ela coloca em risco pessoas próximas e, devido a isso, inibe
até iniciar relacionamentos amorosos. Ele me aconselhou a
seguir firme em frente, sem deixar que essa situação
me enlouqueça. Ambos sabemos que haverá sempre um
fanático em nosso encalço. Eu relatei a ele uma história
da minha juventude. Quando o aiatolá Khomeini emitiu um fatwa
contra Rushdie, eu era uma estudante devota da Escola Secundária
de Meninas Muçulmanas de Nairóbi, no Quênia.
Eu e minhas colegas ficamos, imediatamente, solidárias com
o líder iraniano que tomava a defesa do sagrado Corão
e punia o autor de um romance, suposta blasfêmia contra o
profeta Maomé, nosso venerável guia. O fato vinha
corroborar nosso aprendizado diário, a indignidade dos kafirs,
os infiéis, os não muçulmanos. A primeira coisa
que veio a minha cabeça foi: "Esse Rushdie deve ser morto".
Veja O que ele disse?
Ayaan Rushdie sorriu. Foi gentil ao lembrar que,
na época, eu era apenas uma garota.
Veja Por que a senhora propõe
fechar as escolas muçulmanas na Holanda?
Ayaan Os professores das escolas muçulmanas
holandesas ensinam a ser hostil às leis do país. Dizem
aos seus alunos: "Nós vivemos na terra do inimigo, somos
subjugados pelas leis dele. A lei suprema é a vontade de
Alá, revelada pelo arcanjo Gabriel a Maomé, transcrita
no Corão". Esses estabelecimentos de ensino público
recebem ajuda do governo. Não, não e não! A
escola deve ser um lugar neutro, com o objetivo de preparar os alunos
para a vida numa sociedade sintonizada com seu tempo, fundada no
espírito crítico e no ensino da cidadania. Os holandeses,
que vivem em um dos países mais tolerantes da Europa, ficam
exasperados de ver, em manifestações de rua, jovens
muçulmanos holandeses gritando "Hamas, Hamas! Judeus para
a câmara de gás!".
Veja A Turquia deve ser aceita
como integrante da União Européia?
Ayaan Sim, desde que o governo turco implemente,
durante o período de candidatura, as medidas exigidas pela
União. Elas beneficiarão os turcos em geral e, em
particular, as mulheres muçulmanas, que terão seus
direitos mais bem respaldados. Já se percebem alguns passos
tímidos nessa direção. A questão geográfica,
se a Turquia pertence ou não à Europa, é hipócrita.
Por trás dela estão o preconceito da extrema direita
nacionalista européia e o medo da competição
de mercado que atormenta os partidos da esquerda demagógica.
A objeção geográfica nunca foi apresentada
quando convidaram a Turquia para ingressar na Otan. Negar a inclusão
da Turquia reforçaria a posição dos fundamentalistas
muçulmanos turcos. Trava-se atualmente uma batalha de corações
e mentes contra o islamismo político. Veja os efeitos catastróficos
da tortura a que soldados americanos submeteram os prisioneiros
iraquianos da penitenciária de Abu Ghraib. Os fundamentalistas
acharam ótimo.
Veja Líderes das comunidades
muçulmanas européias a acusam de projetar uma experiência
de vida traumática sobre um grupo inteiro. Aceita essa crítica?
Ayaan Isso é uma estratégia conhecida
para desviar-se da verdadeira questão: o Islã quer
ir para a frente ou para trás?
Veja A senhora abandonou
a sua religião, tornou-se apóstata. Mas, se um dia
encontrasse com Deus, o que gostaria de ouvir dele?
Ayaan Você é verdadeira.
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