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André
Petry
Lula em seu labirinto
"Ou o presidente
sabia de tudo
(e foi conivente), ou não sabia
de nada (e foi inepto). A situação
é tão lamentável que há uma torcida
para que o presidente seja um inepto"
O presidente Lula até pode superar a
crise atual e, quem sabe, reeleger-se para um segundo mandato. Mas
é hipocrisia esconder que foi definitivamente alvejado pelos
estilhaços do escândalo e no coração.
Do labirinto em que foi jogado pelo mensalão, Lula tem só
duas saídas, e nenhuma delas é boa. Ou o presidente
sabia de tudo (e foi conivente) ou não sabia de nada (e foi
inepto). Não há uma terceira alternativa. A situação
é tão lamentável, mas tão lamentável,
que existe uma torcida silenciosa para que a verdade esteja na segunda
hipótese. Ou seja: torce-se para que o presidente seja um
inepto, apenas isso...
É melancólico, mas a outra hipótese
é ainda pior. Se a verdade estiver na primeira alternativa,
a de que Lula foi conivente, o desdobramento inevitável é
a instalação de um processo de impeachment por prevaricação,
crime no qual uma autoridade incorre quando deixa de fazer o que
a lei manda que faça no caso, investigar.
É melancólico porque, tendo
sido apenas inepto, então Lula pode permanecer presidente
da República. Um presidente da República que ignora
o que acontece no núcleo de seu governo. Que desconhece o
que seus principais auxiliares andam fazendo. Que vive alheio ao
que se passa à sua volta. Mas, ainda assim, um presidente
da República.
É melancólico porque, a esta
altura, só farsantes são capazes de sustentar que
não existia mensalão ou que jamais ouviram falar dele.
E só quem faz da estupidez uma profissão de fé
é capaz de acreditar, a esta altura, que o tremendo inchaço
das bancadas de PL, PTB e PP se deu à base do convencimento
político e ideológico.
É melancólico porque o Lula
de hoje é o José Dirceu de ontem. Quando veio a público
o caso de Waldomiro Diniz, José Dirceu levou um tiro no peito
e, dali em diante, jamais remontaria sua autoridade porque ficou
patente que na melhor das hipóteses fora incompetente
ao não saber o que fazia nem quem era o assessor de sua plena
confiança. Hoje, Lula está numa situação
parecida. Na melhor das hipóteses.
É melancólico porque há
um visível esforço coletivo para acreditar na versão
presidencial a de que foi informado do mensalão, mandou
investigar, mas, sabendo que o caso fora arquivado numa sindicância
da Câmara, deu-se por satisfeito. Algo não faz sentido.
Roberto Jefferson, no embalo de inocentar o presidente, diz que
ele ficou chocado quando soube do mensalão. Reagiu como quem
é traído, como quem leva uma facada nas costas, como
quem nas palavras de Jefferson flagra a esposa com
outro. É curioso que o presidente, depois de receber notícia
tão inédita e tão dramática, se tenha
dado por satisfeito com tão pouco.
É melancólico porque, em trinta
meses de governo, Lula apequenou sua figura pública, cuja
nobre dimensão fazia tão bem ao país e, sobretudo,
às camadas mais populares que podiam ver em sua ascensão
a possibilidade real de furar o hermético bloqueio político
e social imposto aos de origem mais humilde.
É melancólico ver esse gigante
da história brasileira agora apenas oscilando entre a espantosa
hipótese de ter sido conivente e a mediocridade de ser inepto.
É melancólico.
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