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Luiz
Felipe de Alencastro
O Brasil dá
as caras
"O
censo de 2000 mostra o brasileiro
como um povo emancipado, decidido
a expor a
variedade de suas crenças
religiosas, ou a sua não-crença, e
a
força da cultura de seus ancestrais"
Ilustração Ale Setti
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À medida que os dados do censo de 2000 vão sendo apurados,
surgem as novas caras brasileiras. Apontadas pelos excelentes relatórios
do IBGE, as principais novidades foram analisadas por diversos comentadores.
Abordagens mais sutis aparecerão em seguida, quando os especialistas
recruzarem as tabelas que mostram pedaços da vida dos 174 milhões
de habitantes do país. Situadas na perspectiva histórica,
algumas das mudanças culturais agora reveladas ganham uma grande
significação.
Assim, considerem-se
o recuo da porcentagem dos que se identificam como católicos e
o crescimento dos evangélicos. Note-se ainda o aumento relativo
dos que se dizem sem religião. Sem entrar no mérito do assunto,
cabe constatar que o catolicismo foi religião oficial durante o
Império e sempre se beneficiou de uma enorme preponderância
no país. Desse modo, a tendência era as pessoas se declararem
católicas. Quando não o faziam, o recenseador marcava "católico"
do mesmo jeito. Um exemplo conhecido dessa manipulação estatística
e cultural está no primeiro censo brasileiro, realizado em 1872.
Na época, os recenseadores não hesitaram: os 1.508.566
escravos então computados no Império foram todos, todinhos,
registrados como "católicos". O imperativo do catolicismo pesou,
e pesa ainda, tão forte que até pessoas notoriamente adeptas
de outras religiões se declararam católicas. Era o caso,
por exemplo, de Mãe Menininha do Gantois (1894-1986), venerável
ialorixá baiana. Na circunstância, as alterações
sobre a religiosidade registradas pelo censo de 2000 mostram que os brasileiros
se sentem menos intimidados pela religião dominante, afirmando-se
como livres-pensadores ou como membros de uma das centenas de igrejas
evangélicas.
Na mesma
ordem de idéias, observe-se o acréscimo do número
de índios, que passou de 240.000 em
1991 para 701.000 em 2000. Os dados ainda estão
sendo conferidos, mas indicam uma forte alta que tem pouco a ver com o
crescimento demográfico. Na realidade, está em curso uma
valorização da identidade étnica que rompe com séculos
de aviltamento do estatuto social dos indígenas. Gente que antes
buscava ser assimilada aos grupos dominantes formados pelos brancos e
"pardos" (conforme a nomenclatura do censo) "retorna" agora no
censo e na vida a sua identidade indígena.
O mesmo
raciocínio serve para explicar a maior proporção
de pessoas que se identificam como pretas e uma redução
na porcentagem dos ditos "pardos". Inverte-se a tendência histórica
que via regularmente diminuir a proporção de negros nos
recenseamentos brasileiros. O fato surpreendeu. Como declarou uma estudiosa
do assunto, Rosana Heringer, "as pesquisas que tínhamos antes mostravam
exatamente o contrário, parecia que os negros iam acabar". Para
além do debate sobre as qualificações pejorativas
"pardo" e "preto", herdadas das classificações discriminatórias
que orientavam a sociedade colonial, evidencia-se o movimento de afirmação
identitária em torno do orgulho de ser negro.
Em seu sentido
mais amplo, a luta do povo brasileiro contra a ditadura teve o objetivo
de criar um Estado de direito que possibilitasse a instauração
das liberdades públicas e a redução das desigualdades.
Essa luta incluiu várias aspirações, entre elas a
de que a "democracia racial" ganhasse a efetividade necessária
para constituir um dos fundamentos da democracia política. O tema
foi debatido na Constituinte e, em 1988, inscreveu-se na Constituição.
Agora, os dados do censo demonstram que ao longo da década de 90
a prática social incorporou essas aspirações.
No total,
o censo de 2000 mostra um povo emancipado, decidido a expor a variedade
de suas crenças religiosas, ou a sua não-crença,
e a força da cultura de seus ancestrais. O Brasil do século
XXI dá as caras. No pano de fundo formado pelas tabelas do IBGE,
surge uma sociedade mais livre.
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris Sorbonne (abomey@uol.com.br)
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