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Edição 1 752 - 22 de maio de 2002
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Luiz Felipe de Alencastro

O Brasil dá as caras

"O censo de 2000 mostra o brasileiro
como um povo emancipado, decidido
a expor
a variedade de suas crenças
religiosas,
ou a sua não-crença, e a
força da cultura de seus ancestrais"


Ilustração Ale Setti

À medida que os dados do censo de 2000 vão sendo apurados, surgem as novas caras brasileiras. Apontadas pelos excelentes relatórios do IBGE, as principais novidades foram analisadas por diversos comentadores. Abordagens mais sutis aparecerão em seguida, quando os especialistas recruzarem as tabelas que mostram pedaços da vida dos 174 milhões de habitantes do país. Situadas na perspectiva histórica, algumas das mudanças culturais agora reveladas ganham uma grande significação.

Assim, considerem-se o recuo da porcentagem dos que se identificam como católicos e o crescimento dos evangélicos. Note-se ainda o aumento relativo dos que se dizem sem religião. Sem entrar no mérito do assunto, cabe constatar que o catolicismo foi religião oficial durante o Império e sempre se beneficiou de uma enorme preponderância no país. Desse modo, a tendência era as pessoas se declararem católicas. Quando não o faziam, o recenseador marcava "católico" do mesmo jeito. Um exemplo conhecido dessa manipulação estatística e cultural está no primeiro censo brasileiro, realizado em 1872. Na época, os recenseadores não hesitaram: os 1.508.566 escravos então computados no Império foram todos, todinhos, registrados como "católicos". O imperativo do catolicismo pesou, e pesa ainda, tão forte que até pessoas notoriamente adeptas de outras religiões se declararam católicas. Era o caso, por exemplo, de Mãe Menininha do Gantois (1894-1986), venerável ialorixá baiana. Na circunstância, as alterações sobre a religiosidade registradas pelo censo de 2000 mostram que os brasileiros se sentem menos intimidados pela religião dominante, afirmando-se como livres-pensadores ou como membros de uma das centenas de igrejas evangélicas.

Na mesma ordem de idéias, observe-se o acréscimo do número de índios, que passou de 240.000 em 1991 para 701.000 em 2000. Os dados ainda estão sendo conferidos, mas indicam uma forte alta que tem pouco a ver com o crescimento demográfico. Na realidade, está em curso uma valorização da identidade étnica que rompe com séculos de aviltamento do estatuto social dos indígenas. Gente que antes buscava ser assimilada aos grupos dominantes formados pelos brancos e "pardos" (conforme a nomenclatura do censo) "retorna" agora – no censo e na vida – a sua identidade indígena.

O mesmo raciocínio serve para explicar a maior proporção de pessoas que se identificam como pretas e uma redução na porcentagem dos ditos "pardos". Inverte-se a tendência histórica que via regularmente diminuir a proporção de negros nos recenseamentos brasileiros. O fato surpreendeu. Como declarou uma estudiosa do assunto, Rosana Heringer, "as pesquisas que tínhamos antes mostravam exatamente o contrário, parecia que os negros iam acabar". Para além do debate sobre as qualificações pejorativas "pardo" e "preto", herdadas das classificações discriminatórias que orientavam a sociedade colonial, evidencia-se o movimento de afirmação identitária em torno do orgulho de ser negro.

Em seu sentido mais amplo, a luta do povo brasileiro contra a ditadura teve o objetivo de criar um Estado de direito que possibilitasse a instauração das liberdades públicas e a redução das desigualdades. Essa luta incluiu várias aspirações, entre elas a de que a "democracia racial" ganhasse a efetividade necessária para constituir um dos fundamentos da democracia política. O tema foi debatido na Constituinte e, em 1988, inscreveu-se na Constituição. Agora, os dados do censo demonstram que ao longo da década de 90 a prática social incorporou essas aspirações.

No total, o censo de 2000 mostra um povo emancipado, decidido a expor a variedade de suas crenças religiosas, ou a sua não-crença, e a força da cultura de seus ancestrais. O Brasil do século XXI dá as caras. No pano de fundo formado pelas tabelas do IBGE, surge uma sociedade mais livre.

Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris – Sorbonne (abomey@uol.com.br)


 
 
   
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