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Roberto Pompeu de Toledo

Grandes homens e
gestos de grandeza

Lionel Jospin e Jimmy Carter
representam uma lufada de ar fresco,
numa quadra internacional infeliz

Grandes homens não existem mais. Desapareceram, assim como os dinossauros, a civilização khazar e grande parte da Mata Atlântica. Nelson Rodrigues contava que, em seu tempo, havia "grandes homens" até nas redações. Eram os "grandes jornalistas". O moço Nelson ouvia dos mais velhos: "Está vendo aquele ali? É fulano. Grande jornalista". E caprichava-se na pronúncia da aparatosa palavra grande: "grrraaaannnde". Havia ainda o "grande orador", também chamado de "grande tribuno". Rui Barbosa era um deles. Carlos Lacerda, outro. Hoje, assim como o grande jornalista, não há mais o grande tribuno. Se alguém tentar sê-lo, correrá o risco de fazer papel tão fora de moda quanto a dama que insistisse em sair enfunada numa saia-balão.

Os grandes homens, propriamente ditos, estão armazenados nos livros escolares ou de biografia. Os últimos foram espécimes como Roosevelt, Churchill e De Gaulle, os heróis da II Guerra Mundial. Virar "grande homem" quando se vence uma guerra é fácil. Ou melhor, era. Hoje, nem as guerras os produzem. Qual o grande homem da Guerra do Golfo? Ou da do Afeganistão? Os grandes homens não existem mais e, na verdade, não há o que lamentar quanto a isso. Antes, é motivo para comemoração. Ficamos todos do mesmo tamanho. Mas, se eles faltam, não falta outra categoria que, essa sim, merece ser louvada – a dos homens capazes de gestos de grandeza. Falaremos aqui de dois deles.

O primeiro é o ex-primeiro-ministro e líder socialista francês Lionel Jospin. Jospin é geralmente descrito como apagado e sem charme. São qualificações que, lidas pelo avesso, revertem em seu favor. O que ele é é modesto e avesso aos brilharecos. Uma vez, em face da dificuldade de se distinguir direita e esquerda, na prática política atual, deu uma resposta intrigante: "A esquerda é uma moral". O gesto de grandeza de Jospin foi, tão logo consumada sua derrota na última eleição presidencial, anunciar que se retirava da política. Sabe-se como é raro alguém se dispor a largar seja lá o que for, ainda mais nesse ramo. Ou, para recorrer à linguagem popular, sabe-se como é raro alguém largar a rapadura. Em jogo, não está apenas a embriaguez do poder, do prestígio e da influência, mas também as delícias dos carros oficiais, dos palácios e dos rapapés. No Brasil, ninguém larga nada. Já houve quem, depois de passar pela Presidência, voltasse a disputar o cargo de prefeito, como Jânio Quadros. Outros tentam ser governador, outros senador – e até senador por outro Estado. Pois Jospin escolheu a vida privada, quase uma escolha de monge, uma opção pelo silêncio e pela reclusão, em se tratando de alguém afeito às pompas e ao barulho do poder.

O outro gesto de grandeza foi praticado pelo ex-presidente americano Jimmy Carter. Carter, especialmente para nós, latino-americanos, merece lugar de honra entre os ocupantes da Presidência dos Estados Unidos. Em seu governo, na década de 70, instituiu uma política de direitos humanos depois da qual as ditaduras do continente nunca mais foram as mesmas. Ele puxou-lhes o tapete de sob os pés. Arrancou-lhes a base onde se assentavam, que era o apoio de Washington. Dado esse passo, ficou difícil reverter tal política mesmo para os governos de inclinação direitista que lhe sucederam, como o de Ronald Reagan e, agora, o de George W. Bush. Carter, terminado seu mandato, deixou a política, como é praxe entre os ex-presidentes americanos – lá, largar a rapadura é um imperativo dos usos e costumes –, mas não abandonou a militância pró-direitos humanos. E eis que, na semana passada, estava em Cuba, numa iniciativa inédita e de amplo alcance, fazendo sua pregação... ao vivo na TV cubana e cara a cara com Fidel Castro! Nestes tempos em que o governo dos Estados Unidos faz nítida opção pelo confronto – seja político, militar ou comercial –, é reconfortante haver alguém com o currículo de Carter que opte pelo caminho inverso, o da visita ao adversário, pelo diálogo e pela persuasão. Foi seu gesto de grandeza.

"Cuba adotou um governo socialista em que um único partido domina, e ao povo não é permitido organizar nenhum movimento político", disse ele aos cubanos. Também propugnou pelo fim do embargo americano a Cuba, mas ressalvou que tal embargo, ao contrário do que quer a propaganda castrista, está longe de ser a causa das aflições econômicas da ilha. Fidel Castro encabeçava a seleta platéia no salão da Universidade de Havana. Segundo o correspondente do New York Times David Gonzalez, Carter, que falou em espanhol, fez "alguns dos mais francos comentários que os cubanos jamais ouviram na televisão". O escritor cubano José Pratts Soreol, citado na mesma reportagem do New York Times, comentou: "Foi uma lufada de ar fresco. Um homem habituado ao diálogo falou a um povo habituado ao monólogo". Nesta quadra em que o mundo vive a infeliz coincidência de Ariel Sharon e George W. Bush estarem ao mesmo tempo no poder, os gestos de Carter e Jospin são igualmente uma lufada de ar fresco.

   
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