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Edição 1 752 - 22 de maio de 2002
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Fome de texto

Ex-Libris, da americana Anne
Fadiman, trata
de um assunto
apaixonante: o vício de ler

Moacyr Scliar


Quando criança, a americana Anne Fadiman construía castelos de brinquedo não com blocos de madeira, mas com clássicos escolhidos entre os 7.000 volumes da biblioteca de seu pai. Leitora voraz, certa vez teve de saciar sua fome com um manual do Toyota Corolla 1974, única coisa da casa que ainda não lera duas vezes. Seriam credenciais suficientes para a autora de um livro sobre o vício de ler – o curioso Ex-Libris: Confissões de uma Leitora Comum (tradução de Ricardo Gomes Quintana; Jorge Zahar Editor; 164 páginas; 23 reais). Mas elas não param aí. Anne foi editora de Civilization, revista da Biblioteca do Congresso de Washington, e é escritora premiada. Filha do famoso crítico Clifton Fadiman e de Annalee Jacoby Fadiman, jornalista da Time, ela é também casada com um escritor.

Ex-Libris, expressão em latim para designar aqueles selos ou carimbos que pessoas cultas punham nos livros para impedir que algum visitante os carregasse, é uma compilação de ensaios escritos para a Civilization. Traz experiências pessoais e comentários sobre a compulsão da leitura. As primeiras nem sempre são relevantes. Já os segundos são deliciosos, para bibliófilos ou não. Anne sabe contar suas historietas com uma graça que surpreende. Fala sobre comprar livros (em pequenas livrarias), ler livros (prefira a cama) e guardá-los (use seu instinto para estabelecer uma ordem). Defende que livros devem ser maltratados: escreva nas margens, dobre-os à vontade, manuseie-os às refeições – aliás, há leitores capazes de literalmente comer os volumes. "Menelique II, imperador da Etiópia, gostava de mastigar páginas de sua Bíblia. Infelizmente, morreu após ter consumido o Livro dos Reis", escreve Anne. Ela garante que certo editor do Wall Street Journal, quando distraído, ingere pedaços de dicionário (e talvez assim incorpore matéria nova a seu repertório vocabular). Há espaço também para escritores e sua relação com os livros. Anne conta que Bernard Shaw encontrou, num sebo, um livro que tinha dedicado a alguém "com afeto". Comprou o volume e enviou-o ao ingrato com a dedicatória corrigida: "Com redobrado afeto". Os livros não têm fim, garante, lamentoso, o Eclesiastes. Nem as histórias sobre livros, para a alegria dos leitores.

   
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