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Fome
de texto
Ex-Libris,
da americana Anne
Fadiman, trata
de um assunto
apaixonante: o vício de ler
Moacyr
Scliar
Quando
criança, a americana Anne Fadiman construía castelos de
brinquedo não com blocos de madeira, mas com clássicos escolhidos
entre os 7.000 volumes da biblioteca de seu pai. Leitora voraz, certa
vez teve de saciar sua fome com um manual do Toyota Corolla 1974, única
coisa da casa que ainda não lera duas vezes. Seriam credenciais
suficientes para a autora de um livro sobre o vício de ler
o curioso Ex-Libris: Confissões de uma Leitora Comum (tradução
de Ricardo Gomes Quintana; Jorge Zahar Editor; 164 páginas; 23
reais). Mas elas não param aí. Anne foi editora de Civilization,
revista da Biblioteca do Congresso de Washington, e é escritora
premiada. Filha do famoso crítico Clifton Fadiman e de Annalee
Jacoby Fadiman, jornalista da Time, ela é também
casada com um escritor.
Ex-Libris,
expressão em latim para designar aqueles selos ou carimbos que
pessoas cultas punham nos livros para impedir que algum visitante os carregasse,
é uma compilação de ensaios escritos para a Civilization.
Traz experiências pessoais e comentários sobre a compulsão
da leitura. As primeiras nem sempre são relevantes. Já os
segundos são deliciosos, para bibliófilos ou não.
Anne sabe contar suas historietas com uma graça que surpreende.
Fala sobre comprar livros (em pequenas livrarias), ler livros (prefira
a cama) e guardá-los (use seu instinto para estabelecer uma ordem).
Defende que livros devem ser maltratados: escreva nas margens, dobre-os
à vontade, manuseie-os às refeições
aliás, há leitores capazes de literalmente comer os volumes.
"Menelique II, imperador da Etiópia, gostava de mastigar páginas
de sua Bíblia. Infelizmente, morreu após ter consumido
o Livro dos Reis", escreve Anne. Ela garante que certo editor do Wall
Street Journal, quando distraído, ingere pedaços de
dicionário (e talvez assim incorpore matéria nova a seu
repertório vocabular). Há espaço também para
escritores e sua relação com os livros. Anne conta que Bernard
Shaw encontrou, num sebo, um livro que tinha dedicado a alguém
"com afeto". Comprou o volume e enviou-o ao ingrato com a dedicatória
corrigida: "Com redobrado afeto". Os livros não têm fim,
garante, lamentoso, o Eclesiastes. Nem as histórias sobre
livros, para a alegria dos leitores.
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