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Edição 1 752 - 22 de maio de 2002
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Fora de compasso

Cacoetes tiram de Último Tango
a aura de
obra-prima que ele
manteve por três décadas

Isabela Boscov

 
United Artists
Maria e Brando: ela é fraca de doer, ele está monocromático

Em 1972, não se falava em outra coisa: um apartamento decrépito em Paris, os encontros clandestinos entre Maria Schneider e Marlon Brando, aquela barra de manteiga. O Último Tango em Paris (Le Dernier Tango à Paris, França/Itália, 1972), do italiano Bernardo Bertolucci, ganhou imediatamente o status de uma obra-prima, tão escandalosa quanto inovadora. Ao vê-lo, a crítica americana Pauline Kael escreveu que Brando e Bertolucci haviam mudado "a face de uma forma de arte". No filme, que sai agora em DVD no Brasil, Brando faz um desses personagens clássicos da ficção de cunho existencialista – um americano desgarrado, em todos os sentidos, na França. Sua mulher acabou de se matar. Como reação, ele envolve uma jovem desconhecida numa relação de sexo mutuamente destrutivo. Ela entra no jogo para, presume-se, fugir à banalidade de sua vida burguesa.

Dito assim, parece que a essência de Último Tango continua intacta – dor, perplexidade e frustração, afinal, são matéria-prima sem prazo de validade. Quem viu o filme à época tem também na memória uma lembrança de impacto e descoberta. É chocante, portanto, constatar como Último Tango envelheceu, e mal. O naturalismo forjado das interpretações – em especial a da fraquíssima Maria Schneider –, os diálogos que soam como arengas e a "crítica" primária ao segmento da nouvelle vague liderado por François Truffaut (na figura do cineasta estúpido vivido por Jean-Pierre Léaud, que foi alter ego do diretor francês em vários de seus filmes) tiram do filme muito de sua aura. Como Bertolucci é um grande cineasta, ele alcança um ou outro momento de beleza. Mas eles são minoria. Também Brando tem ao menos uma cena antológica – a do monólogo junto ao caixão de sua mulher. De resto, ele se sai com uma atuação quase monocromática. De certa forma, rever O Último Tango em Paris traz a mesma espécie de decepção e nostalgia que se tem ao considerar os rumos do cinema desde então: a das promessas que pareciam libertadoras e definitivas, mas não chegaram a se cumprir.

   
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