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Fora
de compasso
Cacoetes tiram de Último Tango
a aura de obra-prima
que ele
manteve por três décadas
Isabela
Boscov
United Artists
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| Maria
e Brando: ela é fraca de doer, ele está monocromático
|
Em
1972, não se falava em outra coisa: um apartamento decrépito
em Paris, os encontros clandestinos entre Maria Schneider e Marlon Brando,
aquela barra de manteiga. O Último Tango em Paris (Le
Dernier Tango à Paris, França/Itália, 1972),
do italiano Bernardo Bertolucci, ganhou imediatamente o status de uma
obra-prima, tão escandalosa quanto inovadora. Ao vê-lo, a
crítica americana Pauline Kael escreveu que Brando e Bertolucci
haviam mudado "a face de uma forma de arte". No filme, que sai agora em
DVD no Brasil, Brando faz um desses personagens clássicos da ficção
de cunho existencialista um americano desgarrado, em todos os sentidos,
na França. Sua mulher acabou de se matar. Como reação,
ele envolve uma jovem desconhecida numa relação de sexo
mutuamente destrutivo. Ela entra no jogo para, presume-se, fugir à
banalidade de sua vida burguesa.
Dito assim, parece que a essência de Último Tango
continua intacta dor, perplexidade e frustração,
afinal, são matéria-prima sem prazo de validade. Quem viu
o filme à época tem também na memória uma
lembrança de impacto e descoberta. É chocante, portanto,
constatar como Último Tango envelheceu, e mal. O naturalismo
forjado das interpretações em especial a da fraquíssima
Maria Schneider , os diálogos que soam como arengas e a "crítica"
primária ao segmento da nouvelle vague liderado por François
Truffaut (na figura do cineasta estúpido vivido por Jean-Pierre
Léaud, que foi alter ego do diretor francês em vários
de seus filmes) tiram do filme muito de sua aura. Como Bertolucci é
um grande cineasta, ele alcança um ou outro momento de beleza.
Mas eles são minoria. Também Brando tem ao menos uma cena
antológica a do monólogo junto ao caixão de
sua mulher. De resto, ele se sai com uma atuação quase monocromática.
De certa forma, rever O Último Tango em Paris traz a mesma
espécie de decepção e nostalgia que se tem ao considerar
os rumos do cinema desde então: a das promessas que pareciam libertadoras
e definitivas, mas não chegaram a se cumprir.
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