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Tudo
em família
Em Um Casamento à Indiana, a
diretora Mira Nair defende que
a desunião faz a força
Isabela
Boscov

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A
dias de seu casamento, a moça ainda não se desvencilhou
de seu amante. O pai vive em pavor de que o filho adolescente seja gay
e é obrigado a endividar-se para oferecer uma festa de arromba.
A prima da noiva não agüenta mais os comentários maldosos
sobre a sua solteirice e sente o estômago embrulhar quando vê
o rico mentor da família dispensando atenções exageradas
das quais ela própria foi alvo na infância
a uma sobrinha pequena. À medida que os parentes chegam à
casa, esses problemas e ressentimentos se avolumam, até atingir
um ponto que parece insustentável. Dê um enredo assim a um
dinamarquês e tem-se um Festa de Família, talvez o
melhor exemplar do movimento Dogma, em que o humor corrosivo se voltava
contra a hipocrisia das relações familiares. Entregue-o
a uma cineasta vibrante como Mira Nair, nascida na Índia e radicada
em Nova York, e tem-se Um Casamento à Indiana (Monsoon
Wedding, Índia/França/Itália/Estados Unidos,
2001). No filme, que estréia nesta sexta-feira no país,
Mira não se propõe a criticar, e sim a celebrar. Na sua
visão, essas diferenças de geração, de classe
social e de respeito às tradições produzem calor
e fagulhas, mas não separam. Ao contrário, elas são
o amálgama que estreita e dá sentido aos laços familiares.
Ruidoso, colorido e extravagante como um casamento na tradição
punjabi, à qual pertence a família em questão
, o filme de Mira causa inicialmente uma certa estranheza às
platéias ocidentais. Em parte, isso se deve à homenagem
da diretora ao cinema kitsch e sentimental de Bollywood, como é
chamada a imensa indústria cinematográfica sediada em Bombaim
(hoje Mumbai). Os personagens oscilam entre o cômico e o dramático,
o elenco mistura atores de prestígio a estrelas pop como
Vasundhara Das, que faz a noiva e a trilha vai da música
tradicional ao tecno indiano. Mas o que no início pode parecer
defeito logo se converte em virtude. Mira, que ficou conhecida com Salaam
Bombay e o lírico Kama Sutra, diz que desta vez queria
mostrar uma família como a que ela encontra à sua própria
mesa de jantar. O retrato que ela oferece é fascinante. Em vez
de mais um lamento contra a globalização e seu impacto sobre
a cultura, tem-se aqui uma perspectiva cheia de frescor. Os personagens
são de classe média alta, trabalham com exportação
ou na indústria americana de informática e falam parte em
punjabi, parte em inglês. Mas o casamento é arranjado,
e noivo e noiva mal se conhecem. Num momento, estão todos à
volta da mesa bebendo uísque, fumando e contando piadas. Noutro,
estão ensaiando canções e danças folclóricas
para a festa. Para Mira, não há aí ruptura, e sim
um exemplo da inclinação indiana à convergência
e à incorporação do outro ao que é seu.
Em setembro, Mira, de 44 anos, saiu do Festival de Veneza com o primeiro
Leão de Ouro dado a uma mulher. Comemorou com os 23 parentes que
levou consigo. Um Casamento à Indiana é uma produção
barata, rodada em pouco mais de duas semanas em Nova Délhi
cidade onde a diretora foi criada , durante a estação
das chuvas, a monção. Sem a ajuda de sua mãe e da
parentada, o filme não teria saído. Todos contribuíram
com trabalho ou doações, de sáris a louças
e móveis. Bem no espírito do enredo.
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