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Edição 1 752 - 22 de maio de 2002
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Tudo em família

Em Um Casamento à Indiana, a
diretora Mira Nair defende que
a desunião faz a força

Isabela Boscov


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Trailer do filme

A dias de seu casamento, a moça ainda não se desvencilhou de seu amante. O pai vive em pavor de que o filho adolescente seja gay e é obrigado a endividar-se para oferecer uma festa de arromba. A prima da noiva não agüenta mais os comentários maldosos sobre a sua solteirice e sente o estômago embrulhar quando vê o rico mentor da família dispensando atenções exageradas – das quais ela própria foi alvo na infância – a uma sobrinha pequena. À medida que os parentes chegam à casa, esses problemas e ressentimentos se avolumam, até atingir um ponto que parece insustentável. Dê um enredo assim a um dinamarquês e tem-se um Festa de Família, talvez o melhor exemplar do movimento Dogma, em que o humor corrosivo se voltava contra a hipocrisia das relações familiares. Entregue-o a uma cineasta vibrante como Mira Nair, nascida na Índia e radicada em Nova York, e tem-se Um Casamento à Indiana (Monsoon Wedding, Índia/França/Itália/Estados Unidos, 2001). No filme, que estréia nesta sexta-feira no país, Mira não se propõe a criticar, e sim a celebrar. Na sua visão, essas diferenças de geração, de classe social e de respeito às tradições produzem calor e fagulhas, mas não separam. Ao contrário, elas são o amálgama que estreita e dá sentido aos laços familiares.

Ruidoso, colorido e extravagante – como um casamento na tradição punjabi, à qual pertence a família em questão –, o filme de Mira causa inicialmente uma certa estranheza às platéias ocidentais. Em parte, isso se deve à homenagem da diretora ao cinema kitsch e sentimental de Bollywood, como é chamada a imensa indústria cinematográfica sediada em Bombaim (hoje Mumbai). Os personagens oscilam entre o cômico e o dramático, o elenco mistura atores de prestígio a estrelas pop – como Vasundhara Das, que faz a noiva – e a trilha vai da música tradicional ao tecno indiano. Mas o que no início pode parecer defeito logo se converte em virtude. Mira, que ficou conhecida com Salaam Bombay e o lírico Kama Sutra, diz que desta vez queria mostrar uma família como a que ela encontra à sua própria mesa de jantar. O retrato que ela oferece é fascinante. Em vez de mais um lamento contra a globalização e seu impacto sobre a cultura, tem-se aqui uma perspectiva cheia de frescor. Os personagens são de classe média alta, trabalham com exportação ou na indústria americana de informática e falam parte em punjabi, parte em inglês. Mas o casamento é arranjado, e noivo e noiva mal se conhecem. Num momento, estão todos à volta da mesa bebendo uísque, fumando e contando piadas. Noutro, estão ensaiando canções e danças folclóricas para a festa. Para Mira, não há aí ruptura, e sim um exemplo da inclinação indiana à convergência e à incorporação do outro ao que é seu.

Em setembro, Mira, de 44 anos, saiu do Festival de Veneza com o primeiro Leão de Ouro dado a uma mulher. Comemorou com os 23 parentes que levou consigo. Um Casamento à Indiana é uma produção barata, rodada em pouco mais de duas semanas em Nova Délhi – cidade onde a diretora foi criada –, durante a estação das chuvas, a monção. Sem a ajuda de sua mãe e da parentada, o filme não teria saído. Todos contribuíram com trabalho ou doações, de sáris a louças e móveis. Bem no espírito do enredo.

   
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