Manual de caça
ao corrupto
O caso
de uma pequena cidade rende
uma
cartilha que ensina o cidadão
a defender o patrimônio público
Cley Scholz

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Roubar dinheiro
público é muito fácil, a julgar pela quantidade de
corruptos flagrados a toda hora no país. Provas coletadas em vários
casos revelam que os mecanismos de controle da administração
pública ainda são frágeis e muitos se aproveitam
disso sem a menor cerimônia. Os vestígios indicam que eles
agem como cupins. Estão sempre em bando e fazem apodrecer as estruturas.
Já foram pegos senadores, deputados, juízes, prefeitos,
funcionários públicos e empresários mancomunados
para meter a mão no dinheiro público. Num caso pequeno,
mas emblemático, a organização não-governamental
Amigos Associados de Ribeirão Bonito, criada numa cidade a 270
quilômetros da capital paulista, conseguiu pegar um prefeito, dois
vereadores, quatro empregados municipais e quatro fornecedores que andavam
desviando dinheiro dos cofres públicos. Dessa associação,
cujo objetivo era restaurar uma praça e reabrir o cinema da cidade,
faz parte o renomado consultor empresarial Antoninho Marmo Trevisan, presidente
da Trevisan Auditores e Consultores. O grupo percebeu que, apesar do abandono
da cidade de 11.000 habitantes, o prefeito
relutava em aceitar a colaboração para melhorá-la.
Surgiram suspeitas de malversação de recursos e denúncias
anônimas, e não demorou para que se descobrisse que 30% do
orçamento era desviado. Ficou comprovado que havia uma gangue de
empresas, autoridades e maus funcionários agindo na região.
Após a fuga do prefeito, a ONG listou os procedimentos que permitiram
vencer os corruptos numa espécie de cartilha para quem desconfia
de maracutaias e quer exercer sua cidadania vigiando de perto as autoridades.
Eis seus tópicos principais:
Esse é um trabalho a ser feito em equipe. Mobilize o maior número
de pessoas possível. O apoio de gente notória e insuspeita
na comunidade ajuda muito. Em cidades do interior é bom convocar
ex-moradores que estão distantes da pressão do poder local.
Crie uma associação. Ela terá mais poder que uma
pessoa para pedir informações ou uma auditoria.
Denúncias anônimas ajudam, mas são apenas pontos de
partida. Sem comprovação, não têm nenhum valor.
Nada dificulta mais a descoberta da verdade que uma mentira. Não
alimente boatos. Respeite a regra de que todos são inocentes até
prova em contrário.
Empresas fantasmas são um recurso muito comum na corrupção.
Verifique quem são os proprietários, confira se são
"laranjas" e se há registros legais na Junta Comercial, na Secretaria
da Fazenda.
Corruptos gostam de pagar caro pelo que deveria custar menos. Merendeiras
podem dizer se há carne de fato na merenda escolar e qualquer um
é capaz de contar quantos caminhões de lixo saem de sua
vila.
Notícias podem atrair outras informações. Encaminhe
as denúncias e as provas para a imprensa.
Funcionário público ou político que de repente começa
a exibir sinais exteriores de riqueza inexplicáveis deve ser olhado
com cuidado.
É fundamental contar com a ajuda de um advogado, para que ele auxilie
na obtenção de provas que não venham a ser impugnadas
posteriormente.
O Ministério Público é a porta certa para bater quando
se tem denúncias comprovadas. Muitos órgãos também
dispõem de ouvidorias ou corregedorias como a polícia
e os tribunais , que podem ser úteis.
Lembre-se da Receita e da Polícia Federal e dos Tribunais de Contas.
O cidadão paga os salários dos funcionários dessas
instituições e deve ser atendido corretamente quando as
procura.
O administrador corrupto deve ser denunciado também a seu órgão
de classe e a seu partido.
A passividade é o melhor amigo do corrupto. O processo para que
devolva o que roubou, seu maior castigo.
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