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Edição 1 752 - 22 de maio de 2002
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Um novo adeus às armas

Os Estados Unidos e a Rússia
chegam a acordo para reduzir
os arsenais de bombas nucleares

Eduardo Salgado

Foto Reuters
George W. Bush: livre para fazer
o escudo antimíssil

Por quase toda a segunda metade do século XX, a humanidade viveu sob a ameaça do holocausto nuclear. Entre o fim da II Guerra e a queda do Muro de Berlim, em 1989, os Estados Unidos e a União Soviética acumularam bombas nucleares em quantidade suficiente para destruir várias vezes o planeta. Nos anos 60, quando o confronto parecia inevitável, estimou-se que a guerra nuclear causaria, só na primeira troca de mísseis, 200 milhões de mortes. A história deu outra chance à humanidade com o fim do comunismo na União Soviética e em seus satélites. Nesta semana, os presidentes George W. Bush, dos Estados Unidos, e Vladimir Putin, da Rússia, vão se encontrar em Moscou e assinar o acordo de redução radical dos estoques de armas nucleares, anunciado na semana passada. Em seguida, Putin e os líderes da Otan inaugurarão um conselho de cooperação entre a Rússia e a aliança militar do Ocidente. Há apenas um ano, quando as rivalidades remanescentes da Guerra Fria ainda davam as cartas, tais novidades seriam impensáveis. Tudo mudou com a reorganização das alianças após os atentados terroristas nos Estados Unidos – os russos deixaram definitivamente de ser vistos como inimigos. E vice-versa.

 
Foto AP
  Putin: estratégia para pôr a Rússia entre os grandes

O mérito maior é de Putin, que se vem revelando um estadista. Depois de setenta anos de comunismo e dez de confusa transição para a economia de mercado, ele está determinado a colocar a Rússia no time das nações respeitáveis e desenvolvidas. Isso inclui a entrada na Organização Mundial do Comércio, como fez recentemente a China. O presidente sabe que o futuro de seu povo depende da economia, e não da quantidade de mísseis nucleares em estoque. Além do mais, falta-lhe dinheiro em caixa para sustentar o arsenal. No novo tratado, os dois países se comprometem a diminuir a quantidade de armas prontas para o ataque para um terço das atuais. Do patamar entre 6 000 e 7 000 ogivas, o número de bombas nucleares baixará para a faixa de 2.000. Esse total ainda será suficiente para destruir o planeta várias vezes, mas a redução reforça a tendência ao entendimento. O tratado também dá continuidade às negociações para melhorar os mecanismos de verificação do número de ogivas. "Esse é o ponto mais importante, porque é a base de uma relação previsível e estável entre os dois países", disse a VEJA Nikolai Sokov, especialista do Centro de Estudos de Não-Proliferação de Monterey, na Califórnia, que trabalhou como representante soviético nas negociações de desarmamento com os Estados Unidos nos anos 80.

O mundo está muito mudado. O novo tratado de redução de armas nucleares tem apenas três páginas, em contraste com as mais de 700 de um tratado anterior, negociado em 1993. O anúncio do acordo é motivo de alívio. Chegou-se a pensar que o processo de desarmamento estava com os dias contados. A linha dura do governo americano, liderada pelo secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, queria um acordo informal. A lógica era a seguinte: como a Rússia atravessa enormes dificuldades econômicas, será obrigada a reduzir seu arsenal para baixar os custos de manutenção. Isso deixaria os Estados Unidos com as mãos livres para manter sua supremacia militar, mas representaria uma terrível humilhação para Putin. No final, Bush resolveu atender ao pedido do presidente russo de um tratado formal. A criação do conselho na Otan e o tratado são prêmios que Putin precisa exibir a seu próprio povo. Ele tem investido tempo e energia no estreitamento das relações com o Ocidente. Na caçada a Osama bin Laden, chegou a permitir que as tropas americanas usassem as bases militares nas ex-repúblicas soviéticas do Uzbequistão e Tadjiquistão, um sacrilégio que arrepiou os militares russos.

O resultado é um acordo bastante flexível. Não proíbe a construção do escudo antimíssil americano, o grande plano de Bush, tampouco toca na questão das armas táticas, de menor potência e que podem ser utilizadas em campos de batalha. Também não prevê prazos intermediários para a remoção dos armamentos. Caso os Estados Unidos ou a Rússia iniciem o processo de desmantelamento ou armazenagem perto do prazo de 2012, tudo certo. Se decidirem abandonar o tratado, Moscou e Washington precisam apenas dar um aviso com noventa dias de antecedência. Os americanos querem ter essa liberdade porque temem a ascensão de um governo russo contrário aos Estados Unidos e o aumento do arsenal nuclear chinês no futuro. Ou seja, sempre se pode recomeçar a corrida armamentista.

 

 
 
   
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