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Um novo adeus às
armas
Os Estados
Unidos e a Rússia
chegam a acordo para reduzir
os arsenais de bombas nucleares

Eduardo Salgado
Foto Reuters
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George
W. Bush: livre para fazer
o escudo antimíssil |
Por quase
toda a segunda metade do século XX, a humanidade viveu sob a ameaça
do holocausto nuclear. Entre o fim da II Guerra e a queda do Muro de Berlim,
em 1989, os Estados Unidos e a União Soviética acumularam
bombas nucleares em quantidade suficiente para destruir várias
vezes o planeta. Nos anos 60, quando o confronto parecia inevitável,
estimou-se que a guerra nuclear causaria, só na primeira troca
de mísseis, 200 milhões de mortes. A história deu
outra chance à humanidade com o fim do comunismo na União
Soviética e em seus satélites. Nesta semana, os presidentes
George W. Bush, dos Estados Unidos, e Vladimir Putin, da Rússia,
vão se encontrar em Moscou e assinar o acordo de redução
radical dos estoques de armas nucleares, anunciado na semana passada.
Em seguida, Putin e os líderes da Otan inaugurarão um conselho
de cooperação entre a Rússia e a aliança militar
do Ocidente. Há apenas um ano, quando as rivalidades remanescentes
da Guerra Fria ainda davam as cartas, tais novidades seriam impensáveis.
Tudo mudou com a reorganização das alianças após
os atentados terroristas nos Estados Unidos os russos deixaram
definitivamente de ser vistos como inimigos. E vice-versa.
Foto AP
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Putin:
estratégia para pôr a Rússia entre os grandes |
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O mérito
maior é de Putin, que se vem revelando um estadista. Depois de
setenta anos de comunismo e dez de confusa transição para
a economia de mercado, ele está determinado a colocar a Rússia
no time das nações respeitáveis e desenvolvidas.
Isso inclui a entrada na Organização Mundial do Comércio,
como fez recentemente a China. O presidente sabe que o futuro de seu povo
depende da economia, e não da quantidade de mísseis nucleares
em estoque. Além do mais, falta-lhe dinheiro em caixa para sustentar
o arsenal. No novo tratado, os dois países se comprometem a diminuir
a quantidade de armas prontas para o ataque para um terço das atuais.
Do patamar entre 6 000 e 7 000 ogivas, o número de bombas nucleares
baixará para a faixa de 2.000. Esse
total ainda será suficiente para destruir o planeta várias
vezes, mas a redução reforça a tendência ao
entendimento. O tratado também dá continuidade às
negociações para melhorar os mecanismos de verificação
do número de ogivas. "Esse é o ponto mais importante, porque
é a base de uma relação previsível e estável
entre os dois países", disse a VEJA Nikolai Sokov, especialista
do Centro de Estudos de Não-Proliferação de Monterey,
na Califórnia, que trabalhou como representante soviético
nas negociações de desarmamento com os Estados Unidos nos
anos 80.
O mundo
está muito mudado. O novo tratado de redução de armas
nucleares tem apenas três páginas, em contraste com as mais
de 700 de um tratado anterior, negociado em 1993. O anúncio do
acordo é motivo de alívio. Chegou-se a pensar que o processo
de desarmamento estava com os dias contados. A linha dura do governo americano,
liderada pelo secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, queria um
acordo informal. A lógica era a seguinte: como a Rússia
atravessa enormes dificuldades econômicas, será obrigada
a reduzir seu arsenal para baixar os custos de manutenção.
Isso deixaria os Estados Unidos com as mãos livres para manter
sua supremacia militar, mas representaria uma terrível humilhação
para Putin. No final, Bush resolveu atender ao pedido do presidente russo
de um tratado formal. A criação do conselho na Otan e o
tratado são prêmios que Putin precisa exibir a seu próprio
povo. Ele tem investido tempo e energia no estreitamento das relações
com o Ocidente. Na caçada a Osama bin Laden, chegou a permitir
que as tropas americanas usassem as bases militares nas ex-repúblicas
soviéticas do Uzbequistão e Tadjiquistão, um sacrilégio
que arrepiou os militares russos.
O resultado
é um acordo bastante flexível. Não proíbe
a construção do escudo antimíssil americano, o grande
plano de Bush, tampouco toca na questão das armas táticas,
de menor potência e que podem ser utilizadas em campos de batalha.
Também não prevê prazos intermediários para
a remoção dos armamentos. Caso os Estados Unidos ou a Rússia
iniciem o processo de desmantelamento ou armazenagem perto do prazo de
2012, tudo certo. Se decidirem abandonar o tratado, Moscou e Washington
precisam apenas dar um aviso com noventa dias de antecedência. Os
americanos querem ter essa liberdade porque temem a ascensão de
um governo russo contrário aos Estados Unidos e o aumento do arsenal
nuclear chinês no futuro. Ou seja, sempre se pode recomeçar
a corrida armamentista.
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