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Encurralados em Belém
A
americana Carolyn Cole foi
a única fotógrafa a entrar na
Igreja da Natividade durante
as cinco semanas de cerco
israelense. Nesta e nas próximas
páginas, o que ela viu lá dentro
Los Angeles Times/Carolyn Cole
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A
LONGA ESPERA
Sem luz elétrica, cortada pelos israelenses, palestinos iluminam a
igreja com uma fogueira. Abaixo, à esquerda, Arafat, e, à
direita, Ariel Sharon |
Reuters
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AFP
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Veja também |
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Foram
38 dias de agonia e incerteza num dos locais mais venerados da Terra Santa
a Igreja da Natividade, em Belém, erguida onde, de acordo
com a tradição cristã, nasceu Jesus Cristo. Do lado
de fora, soldados israelenses mantinham cerco ao complexo que inclui três
conventos e outras duas igrejas menores. Israel exigia a rendição
de duas centenas de milicianos e civis palestinos, refugiados no santuário
de 1 500 anos após a invasão israelense à cidade.
Do lado de dentro, muçulmanos armados dispostos a resistir até
a morte. A fotógrafa americana Carolyn Cole, do jornal Los Angeles
Times, conseguiu entrar no complexo uma semana antes do desfecho da
crise, no último dia 10, junto com dez pacifistas que arriscaram
a vida para levar comida aos sitiados. Suas fotos, que ilustram esta reportagem,
mostram a rotina dentro da igreja durante o cerco, que representou uma
metáfora do conflito israelense-palestino marcado pela disputa
sem fim entre dois inimigos irredutíveis na disputa pelo mesmo
território, a Palestina.
A
Igreja da Natividade nunca foi um lugar especialmente pacífico.
Chegou a ser destruída por inteiro no ano de 529, durante a revolta
dos samaritanos. Sua reconstrução, com as formas atuais,
terminou em 565. A igreja foi saqueada em 1617 pelos turcos, que governaram
a Palestina até 1917. Para impedir a entrada da cavalaria turca,
os franciscanos alteraram a entrada principal no século XVI, reduzindo-a
a uma porta de 1,20 metro de altura, conhecida como "Portão da
Humildade" hoje uma das principais atrações turísticas.
Os padres franciscanos e gregos ortodoxos disputavam com tanta violência
o controle do lugar que, no século XIX, o sultão turco ordenou
a presença permanente de um policial na Igreja, ordem que jamais
foi revogada. Mas, em seu eterno confronto, palestinos e israelenses costumam
respeitar lugares santos. Os soldados israelenses, que são judeus,
não podiam invadir um dos lugares mais sagrados do cristianismo.
Mas não estavam dispostos a permitir que palestinos acusados de
terrorismo escapassem. Logo no primeiro dia, cortaram o fornecimento de
água e luz e postaram tanques em torno do complexo. Já os
palestinos, ao perceber que a crise iria se prolongar, trataram de transformar
o local numa trincheira.
Fotos Los Angeles Times/Carolyn Cole
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NA
CASA DE JESUS
Um palestino cristão surpreendido pelo conflito dentro da
Igreja da Natividade dorme sob imagens de santos: a maior parte
dos refugiados era muçulmana
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TÉDIO
E SUJEIRA
Refugiado lê jornal velho: a maioria das pessoas passava o
dia deitada, debilitada pela falta de comida
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Do
grupo inicial que havia invadido a igreja, apenas 39 deles eram militantes
procurados por Israel incluindo Ibrahim Abayat, líder em
Belém da Brigada dos Mártires de Al Aqsa, um dos grupos
terroristas responsáveis pelos atentados suicidas em Israel. Armados,
esses extremistas dominaram o interior do complexo. Instalaram armadilhas
explosivas em todas as saídas (os israelenses encontraram quarenta
delas) e formaram grupos para se revezar na limpeza, na vigilância
e até na administração da comida, para assegurar
que todos receberiam a mesma cota. Os padres cerca de quarenta,
que preferiram permanecer na igreja se encarregaram de cuidar dos
feridos.
A
maioria dormiu na nave da igreja, adornada com mosaicos bizantinos, longe
das janelas e do alcance dos atiradores israelenses. Os aposentos do convento
foram saqueados em busca de cobertores e comida. Uma cozinha foi improvisada
no altar. Apenas uma refeição por dia era servida, sempre
às 14 horas. O cardápio se limitava a sopa de lentilha e
algumas colheradas de macarrão. Muitos refugiados perderam 10 quilos
durante o cerco, mas nunca faltou comida. Na última semana, a sopa
passou a contar com folhas secas tiradas do limoeiro do pátio.
A falta de água impôs a proibição de banho
e de higiene pessoal. Nem mesmo os três poços de um pátio
interno foram úteis. A água poluída causou diarréia
nos afoitos. Para ir ao banheiro era necessário arriscar a vida,
atravessando um corredor externo vigiado por atiradores israelenses. Seis
refugiados foram baleados nessas circunstâncias. No sexto dia do
cerco morreu um palestino atingido e seu corpo ficou dois dias
exposto, até ser colocado num caixão improvisado.
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NOITES
NA SACRISTIA
A perna ferida deste palestino, líder da Brigada dos Mártires
de Al Aqsa, infeccionou (à esq.). Refugiados dormem
no chão (à dir.): sobrevivência em condições
precárias
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Na
segunda semana, um grupo de 100 pessoas, na maioria adolescentes e idosos,
pôde deixar o local. Outros civis foram "convencidos" a ficar, sob
o temor de ser acusados de "colaboracionistas" pelos palestinos. Aos poucos,
os sitiados foram se adaptando à rotina, marcada pelas noites frias
e pela incerteza quanto ao futuro. O impasse terminou após um acordo
mediado pela comunidade internacional. Os treze terroristas mais procurados
foram deportados para Chipre e de lá seguiram para países
europeus. Outros 100 foram interrogados e liberados. Durante os 38 dias
de cerco, franco-atiradores israelenses mataram oito pessoas no complexo,
incluindo o sineiro da igreja. Outras 22 ficaram feridas. Quando tudo
terminou restaram cobertores e sobras de vela espalhados pelo chão,
muita sujeira e um forte cheiro de urina. Mas nada foi destruído.
Nos dias seguintes, uma operação de limpeza envolvendo padres
e voluntários recolocou tudo em ordem.
O
fim do cerco à Igreja da Natividade marcou o término da
invasão israelense das cidades autônomas palestinas. Significou
também a permissão para que Yasser Arafat pudesse deixar
Ramallah, cidade a que esteve confinado pelos israelenses durante meses.
Desde então, o presidente palestino enfrenta pressões de
todos os lados. Os extremistas querem continuar com os atentados suicidas
contra civis israelenses, política a que Arafat se opõe.
O Egito, a Jordânia e a Arábia Saudita querem que ele ponha
fim à Intifada a revolta palestina e invista em diplomacia.
A comunidade internacional deixou clara a necessidade de uma ampla reforma
no governo da Autoridade Palestina como condição para continuar
apoiando sua liderança. Arafat entendeu o recado. Na semana passada,
ao discursar no Parlamento palestino, ele prometeu convocar eleições,
reformular o governo e combater a corrupção. Mas, como de
costume, não estipulou data nem explicou como pretende adotar as
medidas reforçando as dúvidas que cercam as perspectivas
de paz num conflito que não respeita sequer os locais sagrados.

PRONTIDÃO
Palestino monta guarda no interior da igreja: rodízio para impedir
ataque-surpresa |

FUGINDO
DO INIMIGO
Milicianos perto do altar: longe das janelas e dos tiros |
O
primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, enfrenta rebelião similar
em suas fileiras. Na semana passada, amargou um desgaste interno com a
decisão aprovada pelo comitê central de seu partido, o direitista
Likud, de rejeitar a criação de um Estado palestino. A resolução
é uma manifestação de apoio ao seu rival na liderança
do Likud, o ex-primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, e não se tornará
a política oficial de Israel, que é governado por uma coalizão
de vários partidos. O Partido Trabalhista, que tem o Ministério
da Defesa e o de Relações Exteriores, anunciou o próprio
plano. Esse prevê a criação de um Estado palestino
ao lado de Israel. Na semana passada, Sharon cancelou, na última
hora, a invasão da Faixa de Gaza em represália a outro atentado
suicida. Fez isso por pressão da União Européia e
dos Estados Unidos, que não querem pôr lenha na fogueira
dos radicais. É uma ironia que Arafat e Sharon precisem agora dedicar
maior atenção às rebeliões internas que à
guerra um com o outro. Como sempre no Oriente Médio, o que vai
sair daí é imprevisível.
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