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Edição 1 752 - 22 de maio de 2002
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Encurralados em Belém

A americana Carolyn Cole foi
a única fotógrafa a entrar na
Igreja da Natividade durante
as cinco semanas de cerco
israelense. Nesta e nas próximas
páginas, o que ela viu lá dentro

Los Angeles Times/Carolyn Cole
A LONGA ESPERA
Sem luz elétrica, cortada pelos israelenses, palestinos iluminam a igreja com uma fogueira. Abaixo, à esquerda, Arafat, e, à direita, Ariel Sharon
Reuters
AFP


Veja também
Todas as fotos tiradas pela americana Carolyn Cole, a única fotógrafa a entrar na Igreja da Natividade durante o cerco israelense

Foram 38 dias de agonia e incerteza num dos locais mais venerados da Terra Santa – a Igreja da Natividade, em Belém, erguida onde, de acordo com a tradição cristã, nasceu Jesus Cristo. Do lado de fora, soldados israelenses mantinham cerco ao complexo que inclui três conventos e outras duas igrejas menores. Israel exigia a rendição de duas centenas de milicianos e civis palestinos, refugiados no santuário de 1 500 anos após a invasão israelense à cidade. Do lado de dentro, muçulmanos armados dispostos a resistir até a morte. A fotógrafa americana Carolyn Cole, do jornal Los Angeles Times, conseguiu entrar no complexo uma semana antes do desfecho da crise, no último dia 10, junto com dez pacifistas que arriscaram a vida para levar comida aos sitiados. Suas fotos, que ilustram esta reportagem, mostram a rotina dentro da igreja durante o cerco, que representou uma metáfora do conflito israelense-palestino – marcado pela disputa sem fim entre dois inimigos irredutíveis na disputa pelo mesmo território, a Palestina.

A Igreja da Natividade nunca foi um lugar especialmente pacífico. Chegou a ser destruída por inteiro no ano de 529, durante a revolta dos samaritanos. Sua reconstrução, com as formas atuais, terminou em 565. A igreja foi saqueada em 1617 pelos turcos, que governaram a Palestina até 1917. Para impedir a entrada da cavalaria turca, os franciscanos alteraram a entrada principal no século XVI, reduzindo-a a uma porta de 1,20 metro de altura, conhecida como "Portão da Humildade" – hoje uma das principais atrações turísticas. Os padres franciscanos e gregos ortodoxos disputavam com tanta violência o controle do lugar que, no século XIX, o sultão turco ordenou a presença permanente de um policial na Igreja, ordem que jamais foi revogada. Mas, em seu eterno confronto, palestinos e israelenses costumam respeitar lugares santos. Os soldados israelenses, que são judeus, não podiam invadir um dos lugares mais sagrados do cristianismo. Mas não estavam dispostos a permitir que palestinos acusados de terrorismo escapassem. Logo no primeiro dia, cortaram o fornecimento de água e luz e postaram tanques em torno do complexo. Já os palestinos, ao perceber que a crise iria se prolongar, trataram de transformar o local numa trincheira.

Fotos Los Angeles Times/Carolyn Cole

NA CASA DE JESUS
Um palestino cristão surpreendido pelo conflito dentro da Igreja da Natividade dorme sob imagens de santos: a maior parte dos refugiados era muçulmana

TÉDIO E SUJEIRA
Refugiado lê jornal velho: a maioria das pessoas passava o dia deitada, debilitada pela falta de comida

Do grupo inicial que havia invadido a igreja, apenas 39 deles eram militantes procurados por Israel – incluindo Ibrahim Abayat, líder em Belém da Brigada dos Mártires de Al Aqsa, um dos grupos terroristas responsáveis pelos atentados suicidas em Israel. Armados, esses extremistas dominaram o interior do complexo. Instalaram armadilhas explosivas em todas as saídas (os israelenses encontraram quarenta delas) e formaram grupos para se revezar na limpeza, na vigilância e até na administração da comida, para assegurar que todos receberiam a mesma cota. Os padres – cerca de quarenta, que preferiram permanecer na igreja – se encarregaram de cuidar dos feridos.

A maioria dormiu na nave da igreja, adornada com mosaicos bizantinos, longe das janelas e do alcance dos atiradores israelenses. Os aposentos do convento foram saqueados em busca de cobertores e comida. Uma cozinha foi improvisada no altar. Apenas uma refeição por dia era servida, sempre às 14 horas. O cardápio se limitava a sopa de lentilha e algumas colheradas de macarrão. Muitos refugiados perderam 10 quilos durante o cerco, mas nunca faltou comida. Na última semana, a sopa passou a contar com folhas secas tiradas do limoeiro do pátio. A falta de água impôs a proibição de banho e de higiene pessoal. Nem mesmo os três poços de um pátio interno foram úteis. A água poluída causou diarréia nos afoitos. Para ir ao banheiro era necessário arriscar a vida, atravessando um corredor externo vigiado por atiradores israelenses. Seis refugiados foram baleados nessas circunstâncias. No sexto dia do cerco morreu um palestino atingido – e seu corpo ficou dois dias exposto, até ser colocado num caixão improvisado.

 

NOITES NA SACRISTIA
A perna ferida deste palestino, líder da Brigada dos Mártires de Al Aqsa, infeccionou (à esq.). Refugiados dormem no chão (à dir.): sobrevivência em condições precárias

Na segunda semana, um grupo de 100 pessoas, na maioria adolescentes e idosos, pôde deixar o local. Outros civis foram "convencidos" a ficar, sob o temor de ser acusados de "colaboracionistas" pelos palestinos. Aos poucos, os sitiados foram se adaptando à rotina, marcada pelas noites frias e pela incerteza quanto ao futuro. O impasse terminou após um acordo mediado pela comunidade internacional. Os treze terroristas mais procurados foram deportados para Chipre e de lá seguiram para países europeus. Outros 100 foram interrogados e liberados. Durante os 38 dias de cerco, franco-atiradores israelenses mataram oito pessoas no complexo, incluindo o sineiro da igreja. Outras 22 ficaram feridas. Quando tudo terminou restaram cobertores e sobras de vela espalhados pelo chão, muita sujeira e um forte cheiro de urina. Mas nada foi destruído. Nos dias seguintes, uma operação de limpeza envolvendo padres e voluntários recolocou tudo em ordem.

O fim do cerco à Igreja da Natividade marcou o término da invasão israelense das cidades autônomas palestinas. Significou também a permissão para que Yasser Arafat pudesse deixar Ramallah, cidade a que esteve confinado pelos israelenses durante meses. Desde então, o presidente palestino enfrenta pressões de todos os lados. Os extremistas querem continuar com os atentados suicidas contra civis israelenses, política a que Arafat se opõe. O Egito, a Jordânia e a Arábia Saudita querem que ele ponha fim à Intifada – a revolta palestina – e invista em diplomacia. A comunidade internacional deixou clara a necessidade de uma ampla reforma no governo da Autoridade Palestina como condição para continuar apoiando sua liderança. Arafat entendeu o recado. Na semana passada, ao discursar no Parlamento palestino, ele prometeu convocar eleições, reformular o governo e combater a corrupção. Mas, como de costume, não estipulou data nem explicou como pretende adotar as medidas – reforçando as dúvidas que cercam as perspectivas de paz num conflito que não respeita sequer os locais sagrados.



PRONTIDÃO
Palestino monta guarda no interior da igreja: rodízio para impedir ataque-surpresa

FUGINDO DO INIMIGO
Milicianos perto do altar: longe das janelas e dos tiros

O primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, enfrenta rebelião similar em suas fileiras. Na semana passada, amargou um desgaste interno com a decisão aprovada pelo comitê central de seu partido, o direitista Likud, de rejeitar a criação de um Estado palestino. A resolução é uma manifestação de apoio ao seu rival na liderança do Likud, o ex-primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, e não se tornará a política oficial de Israel, que é governado por uma coalizão de vários partidos. O Partido Trabalhista, que tem o Ministério da Defesa e o de Relações Exteriores, anunciou o próprio plano. Esse prevê a criação de um Estado palestino ao lado de Israel. Na semana passada, Sharon cancelou, na última hora, a invasão da Faixa de Gaza em represália a outro atentado suicida. Fez isso por pressão da União Européia e dos Estados Unidos, que não querem pôr lenha na fogueira dos radicais. É uma ironia que Arafat e Sharon precisem agora dedicar maior atenção às rebeliões internas que à guerra um com o outro. Como sempre no Oriente Médio, o que vai sair daí é imprevisível.


 
 
   
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