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Vinhos
e calote
Sonegador brasileiro é um rico
empresário
na Argentina
Marcelo
Carneiro
Fotos Editorial Perfil
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| Weinert:
dívida de 80 milhões de reais no Brasil |
Em 1975, o gaúcho Bernardo Weinert desembarcou no sopé da
Cordilheira dos Andes, na Argentina, disposto a tornar-se um dos principais
produtores de vinho da região de Mendoza. Por ter saído
do Brasil, um país sem nenhuma tradição nesse ramo,
a aventura tinha tudo para dar errado. Hoje, as garrafas da Bodega y Cavas
de Weinert freqüentam as adegas dos restaurantes de luxo de todo
o mundo, do Japão à Áustria, da Islândia à
Malásia. O faturamento anual da empresa beira 5 milhões
de dólares e Weinert planeja abrir uma nova vinícola, na
Patagônia. É uma história de sucesso inegável,
que tem, no entanto, um lado obscuro e surpreendente. Na década
de 90, ao estabelecer-se definitivamente no mercado argentino de vinhos,
Bernardo Weinert deixou, no Brasil, uma dívida com o governo federal
que hoje ultrapassa 80 milhões de reais. Dono da transportadora
Coral, atualmente desativada, o gaúcho figura em quase trinta ações
judiciais só nos tribunais federais do Rio de Janeiro. Na Justiça
estadual, sua empresa responde a outros quarenta processos, inclusive
em varas de falência e concordata. Apesar disso, levou vida mansa
na Argentina por mais de uma década.
No início do mês, sua sorte começou a mudar. A Procuradoria
da Fazenda Nacional, responsável pela cobrança das dívidas
da União, finalmente descobriu que o Weinert dos vinhos argentinos
e o Bernardo do calote brasileiro são a mesma pessoa. Em um processo
em curso na 2ª Vara de Execução Fiscal do Rio, os procuradores
pedem que a Justiça brasileira, por intermédio de um tribunal
argentino, conceda a indisponibilidade dos bens do empresário para
possibilitar o pagamento de uma dívida de 52 milhões de
reais, a maior parte por sonegação de impostos. Na petição,
fica claro o jogo de esconde-esconde entre Weinert e o Fisco. A procuradoria
diz que "não poupou esforços no sentido de encontrar seus
devedores e, após exaustivas buscas, veio a descobrir ser Bernardo
Weinert um dos maiores produtores de vinho da Argentina".
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| A
empresa de Weinert: os melhores vinhos da América do Sul |
Don
Bernardo como o brasileiro é conhecido em Mendoza
alega que nunca ouviu falar em débito com a Fazenda. "Sei apenas
que deixei no Brasil algumas dívidas com o INSS, que estou tentando
resolver", afirmou, em entrevista a VEJA, na quinta-feira passada. O mais
impressionante é que, ao ingressar no mercado de vinhos, Weinert,
um senhor de 70 anos cujo hobby é pescar nas montanhas do Oregon,
nos Estados Unidos, tornou-se uma pequena celebridade. O americano Robert
Parker, um dos maiores especialistas mundiais no assunto, já declarou
que os vinhos da Bodega Weinert são os melhores da América
do Sul. Nem toda essa fama foi capaz de abrir os olhos da Justiça
brasileira para o paradeiro do empresário. Isso ocorre porque cobrar
uma dívida em favor do governo é uma corrida de obstáculos,
com vitória folgada do sonegador. Há hoje mais de 2 milhões
de processos de execução fiscal tramitando nos fóruns
de todo o Brasil e apenas 760 procuradores para tomar conta dessas ações.
Weinert, por exemplo, só foi descoberto porque sua transportadora
teve o nome incluído em um projeto chamado Grandes Devedores, que
tem o objetivo de perseguir os maiores caloteiros do país. Agora,
talvez essa montanha de dinheiro retorne aos cofres públicos.
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