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Edição 1 752 - 22 de maio de 2002
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Vinhos e calote

Sonegador brasileiro é um rico
empresário na Argentina

Marcelo Carneiro

Fotos Editorial Perfil
Weinert: dívida de 80 milhões de reais no Brasil


Em 1975, o gaúcho Bernardo Weinert desembarcou no sopé da Cordilheira dos Andes, na Argentina, disposto a tornar-se um dos principais produtores de vinho da região de Mendoza. Por ter saído do Brasil, um país sem nenhuma tradição nesse ramo, a aventura tinha tudo para dar errado. Hoje, as garrafas da Bodega y Cavas de Weinert freqüentam as adegas dos restaurantes de luxo de todo o mundo, do Japão à Áustria, da Islândia à Malásia. O faturamento anual da empresa beira 5 milhões de dólares e Weinert planeja abrir uma nova vinícola, na Patagônia. É uma história de sucesso inegável, que tem, no entanto, um lado obscuro e surpreendente. Na década de 90, ao estabelecer-se definitivamente no mercado argentino de vinhos, Bernardo Weinert deixou, no Brasil, uma dívida com o governo federal que hoje ultrapassa 80 milhões de reais. Dono da transportadora Coral, atualmente desativada, o gaúcho figura em quase trinta ações judiciais só nos tribunais federais do Rio de Janeiro. Na Justiça estadual, sua empresa responde a outros quarenta processos, inclusive em varas de falência e concordata. Apesar disso, levou vida mansa na Argentina por mais de uma década.

No início do mês, sua sorte começou a mudar. A Procuradoria da Fazenda Nacional, responsável pela cobrança das dívidas da União, finalmente descobriu que o Weinert dos vinhos argentinos e o Bernardo do calote brasileiro são a mesma pessoa. Em um processo em curso na 2ª Vara de Execução Fiscal do Rio, os procuradores pedem que a Justiça brasileira, por intermédio de um tribunal argentino, conceda a indisponibilidade dos bens do empresário para possibilitar o pagamento de uma dívida de 52 milhões de reais, a maior parte por sonegação de impostos. Na petição, fica claro o jogo de esconde-esconde entre Weinert e o Fisco. A procuradoria diz que "não poupou esforços no sentido de encontrar seus devedores e, após exaustivas buscas, veio a descobrir ser Bernardo Weinert um dos maiores produtores de vinho da Argentina".

 
A empresa de Weinert: os melhores vinhos da América do Sul

Don Bernardo – como o brasileiro é conhecido em Mendoza – alega que nunca ouviu falar em débito com a Fazenda. "Sei apenas que deixei no Brasil algumas dívidas com o INSS, que estou tentando resolver", afirmou, em entrevista a VEJA, na quinta-feira passada. O mais impressionante é que, ao ingressar no mercado de vinhos, Weinert, um senhor de 70 anos cujo hobby é pescar nas montanhas do Oregon, nos Estados Unidos, tornou-se uma pequena celebridade. O americano Robert Parker, um dos maiores especialistas mundiais no assunto, já declarou que os vinhos da Bodega Weinert são os melhores da América do Sul. Nem toda essa fama foi capaz de abrir os olhos da Justiça brasileira para o paradeiro do empresário. Isso ocorre porque cobrar uma dívida em favor do governo é uma corrida de obstáculos, com vitória folgada do sonegador. Há hoje mais de 2 milhões de processos de execução fiscal tramitando nos fóruns de todo o Brasil e apenas 760 procuradores para tomar conta dessas ações. Weinert, por exemplo, só foi descoberto porque sua transportadora teve o nome incluído em um projeto chamado Grandes Devedores, que tem o objetivo de perseguir os maiores caloteiros do país. Agora, talvez essa montanha de dinheiro retorne aos cofres públicos.

   
 
   
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