O grão clandestino
Apesar
de proibida pela Justiça,
a soja transgênica
já ocupa
15% da área plantada
Diogo Schelp,
de Porto Alegre
Raul Junior

Lavoura
de soja: semente transgênica vem da Argentina |
O Brasil
é o único entre os três maiores exportadores de soja
que proíbe a variedade geneticamente modificada. Em tese, isso
daria ao produto nacional uma vantagem competitiva em relação
aos concorrentes, os Estados Unidos e a Argentina, pois muitos europeus
e asiáticos preferem alimentos não-transgênicos. Na
prática, só atrapalha, pois a proibição, resultado
de uma liminar concedida a ambientalistas pela Justiça Federal,
não é respeitada. Estima-se que cerca de 15% da área
plantada no Brasil seja da variedade transgênica, o que representa
mais de 2 milhões de hectares. Pelo menos 65% do plantio de soja
geneticamente modificada está no Rio Grande do Sul. Outros 15%
estão distribuídos entre Santa Catarina e Paraná,
mais 15% ficariam no Centro-Oeste e o resto estaria pulverizado nos outros
Estados. Os produtores gaúchos começaram a adquirir sementes
de soja transgênica contrabandeadas da Argentina há cinco
anos. Fizeram isso porque esse grão permite economia no uso de
herbicidas e tem considerável vantagem em termos de produtividade.
O governo
estadual gaúcho iniciou três anos atrás uma campanha
para tornar o Estado livre de transgênicos. Mas uma lei aprovada
pela Assembléia Legislativa impediu, durante quase todo o ano de
2000, que a Secretaria de Agricultura fiscalizasse as plantações.
Como conseqüência, na safra de 2001, 30% do que foi colhido
de soja gaúcha era transgênico. "Para este ano, a colheita
pode chegar a 45% de soja modificada", diz Nereo Egberto Starlick, presidente
da associação dos produtores de sementes do Rio Grande do
Sul. A lei prevê de um a três anos de prisão para quem
planta e vende transgênicos, mas os produtores correm pouco risco
real. Os procuradores da República encarregados de levar
esses casos à Justiça preferem restringir-se a pedir
a apreensão da soja.
O fato de
o Brasil ter grande quantidade de soja transgênica clandestina é
pior para a imagem do produto nacional que assumir oficialmente o plantio.
Como a produção modificada não é vendida separada
do grão convencional, é como se toda a soja produzida no
Rio Grande do Sul fosse transgênica. Por enquanto, os agricultores
gaúchos não estão perdendo dinheiro com essa situação.
É verdade que alguns compradores externos preferem buscar o produto
no Centro-Oeste, onde a incidência de transgênicos é
menor. Mas ninguém paga mais por isso. O sojicultor só consegue
preço melhor quando a soja tem certificado de não-transgênica
concedido por algum laboratório reconhecido internacionalmente.
Apenas 20% da soja exportada possui certificado de origem não-transgênica.
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