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Edição 1 752 - 22 de maio de 2002
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Até que enfim

O governo vai lançar uma
campanha contra a Aids
destinada aos homossexuais

Karina Pastore

 
Paulo Jares

O rapaz toca a campainha. Dentro de casa, a mulher avisa o marido:

– É ele.

O homem abre a porta e o jovem diz:

– Preciso muito...

Enérgico, quase autoritário, o outro interrompe:

– Ele não vai falar com você. E não volte mais aqui!

A porta se fecha. Marido e mulher vão até o quarto do filho.

– E aí? Ele já foi embora? – quer saber o moço.

– Não se preocupe, não. Você ainda vai encontrar alguém que te merece – consola o pai.

– Alguém que use camisinha – arremata a mãe.

Uma voz masculina faz, então, a advertência: "Respeitar as diferenças é tão importante quanto usar preservativo".

Até o fim do mês, o drama do jovem infectado com o HIV pelo namorado será exibido na televisão. São trinta segundos de filme, um marco na história das campanhas de prevenção à Aids no Brasil. Pela primeira vez, em quase duas décadas de epidemia, o Ministério da Saúde lança uma propaganda destinada especificamente aos homossexuais. Ainda que chegue com alguns anos de atraso, a campanha representa um grande passo. E não apenas porque está dirigida aos gays, mas pela forma como trata a homossexualidade. "Ao trazer a realidade homossexual à tona, sem estereótipos nem preconceitos, a campanha cria um ambiente favorável à prevenção", analisa o sanitarista Mario Scheffer, representante do Movimento de Luta contra a Aids no Conselho Nacional de Saúde.

 
Alan Marques/Folha Imagem

FHC, com o militante gay Welton Trindade: apoio à união civil de homossexuais

Além do filme para a TV, a campanha inclui uma propaganda a ser veiculada nas principais revistas do país. Ela traz a foto de um homem mais velho abraçando um jovem, e seus dizeres incentivam as famílias e a sociedade em geral a tratar abertamente da homossexualidade. Propõe, enfim, uma "saída do armário" geral, como forma de combater a epidemia de Aids. Também serão distribuídos folhetos em saunas, boates e bares de freqüência predominantemente gay. Um deles traz o slogan "Camisinha e gel: parceiros inseparáveis", para lembrar que o lubrificante evita que o preservativo se rompa durante o ato sexual. Outro terá como objetivo o público das dark rooms, as salas escuras de algumas boates que servem única e exclusivamente à prática do sexo anônimo entre homossexuais. O slogan, nesse caso, é "Camisinha tem de aparecer no escuro".

Do modo como a Aids se disseminou, hoje não dá mais para falar em grupo de risco. Todos estão sujeitos ao HIV. Há de se levar em conta, no entanto, que a probabilidade de um homem ser contaminado é onze vezes maior numa relação homossexual do que ao fazer sexo com uma mulher (veja quadro ao lado). Além disso, com o coquetel anti-Aids, o medo da doença diminuiu, a prevenção afrouxou e a infecção se alastrou entre os gays jovens. Os militantes homossexuais acreditam que a campanha é uma conquista tão importante quanto a defesa da união civil de pessoas do mesmo sexo, feita pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, durante o lançamento do novo Programa Nacional de Direitos Humanos.

 

A propaganda em outros países

 

Cartaz francês: "Você é um bom companheiro. Mas não é o único. Infiel no amor? Fiel ao preservativo"

 


"A nova linha íntima para homens": na propaganda suíça, a importância do gel e da camisinha

Campanha inglesa em defesa do sexo seguro: sem preconceitos nem estereótipos


   
 
   
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