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Ela faz o visual da Jade

Marília Carneiro, figurinista da Globo,
é a maior inventora de moda do Brasil

Silvia Rogar

 
Oscar Cabral

Marília: a mentora do guarda-roupa global só sabe "fazer bainha e pregar botão"


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Galeria de fotos: outras modas de Marília Carneiro

Das apostas que os estilistas fizeram para as coleções deste outono-inverno, muitas não ganharam as ruas. Em compensação, para onde se vira, só se vê Jade, a esvoaçante muçulmana de O Clone. A audiência estratosférica da novela fez com que uma legião de mulheres se enroscasse em tecidos diáfanos, lenços coloridos, muitas pulseiras e maquiagem marcante. Por trás do véu de Jade está a carioca Marília Carneiro, 62 anos, 29 deles trabalhando como figurinista da Globo e, por força da função que desempenha e de uma formidável capacidade de captar o que as mulheres gostam (ou mostrar a elas o que ainda vão gostar), a inventora de muitas das modas que, de repente, tomam conta do país, de norte a sul.

Marília soma 27 novelas no currículo, além de tantas minisséries e especiais que perdeu a conta. De cena em cena, mesmo sendo uma total desconhecida do público, acostumou-se a ditar moda para milhões. A primeira e legendária vez em que mostrou seu toque, fez lurex virar ouro: em 1978, vestiu Júlia Matos, a ex-presidiária interpretada por Sonia Braga em Dancin' Days, com meias listradas brilhantes e sandálias, e o conjunto virou uniforme nas discotecas (felizmente, passou logo). Inspiração de artista? Nada disso. "Vi na capa de um disco que nem lembro mais de quem era e achei que cairia bem num personagem de vanguarda", diz. O senso prático também prevaleceu quando assumiu os figurinos de O Clone, na passagem da trama dos anos 80 para 2000. Em vez de pegar um avião para Fez, como é hábito entre os marroquinos da novela, ela se enfiou na Daslu, a loja mais luxuosa do país, e bateu perna no comércio da Rua Oscar Freire, ambos em São Paulo. Sim, Jade veste mais Jean-Paul Gaultier e Armani que peças orientais típicas, o que lhe garante uma elegância de odalisca de luxo. Até agora, a Globo contabiliza 1.700 telefonemas, e-mails e cartas de gente querendo saber as marcas de esmaltes, jóias e roupas usados pelo elenco. "É uma febre comparável à de Dancin' Days", conta Marília.

 
J. M. Ricardo
Maira Bittencourt
Joel Maia
ANDANDO NAS NUVENS: todo mundo usou a mochila de uma alça só de Débora Bloch UGA UGA: os tererês de ouro da loira Mariana Ximenes viraram acessório onipresente BRILHANTE: o cabelo curtinho de Vera Fischer foi campeão na lista de reclamações

Comercialmente, é muito melhor ter um produto em horário nobre que no corpo de qualquer top model. Que o diga a grife Zoomp, que lançou, em 1999, a mochila com uma única alça diagonal que foi parar nas costas de Débora Bloch em Andando nas Nuvens e, de lá, ganhou o mundo. "Foi um dos acessórios que mais vendemos em toda a década de 90. Se soubesse, teria produzido mais", lamenta até hoje Renato Kherlakian, dono da grife. A designer de jóias Júnia Machado, por sua vez, de tantos pedidos nunca mais esqueceu os códigos de produção dos tererês e colares de Bionda (Mariana Ximenes) em Uga Uga. "Achava que venderia um terço do que saiu. Produzi peças durante os oito meses de novela", diz Júnia. Penteados de novela também viram mania – relembre-se a proliferação do cabelo esticado a gel, franjinha e laçarote de cetim preso na nuca da Maria do Carmo (Regina Duarte) de Rainha da Sucata, de 1990. Tudo foi Marília que fez.

As histórias que ela coleciona estão sendo reunidas num livro que será lançado até o fim do ano. Dele farão parte também alguns escorregões, sendo o maior deles mandar cortar curtinho o cabelo de Vera Fischer em Brilhante, de 1981, heresia que rendeu à Globo uma chuva de telefonemas de espectadores indignados. Em compensação, o recurso da bandana amarrada no pescoço, usado justamente para disfarçar a catástrofe, virou febre. Nem sempre, porém, dá para consertar. A própria Marília teve arrepios quando viu Gal Costa no ar com o vestido de plumas cor-de-rosa que ela escolhera a dedo para a cantora usar em um especial. "Estava parecendo o Garibaldo, de Vila Sésamo", compara. Também tem o caso em que a pessoa não encaixou no figurino. Em Gabriela, no grupo de figurantes que usaria uniformes colegiais de época estava Claudia Jimenez, que não entrou de jeito nenhum na roupinha. Marília decretou: "Vamos substituir a gordinha". Ainda hoje Claudia brinca que a figurinista atrasou sua carreira em quatro anos.

Até 1973, quando Marília entrou na Globo para fazer Os Ossos do Barão, o guarda-roupa de televisão ainda era todo produzido na emissora. Dona de uma butique moderninha no Rio, ela ganhou o primeiro trabalho por indicação da atriz Dina Sfat, que era sua cliente, e passou a incorporar modelos vendidos em lojas. A fórmula ainda funciona: o sucesso de seu trabalho está na busca, junto com sua equipe, de estilos interessantes nas ruas. Em O Clone, ela tem seis assistentes jovens e antenados e divide responsabilidades com a figurinista Rosane Gonçalves. Procura ficar quatro meses antes do início de uma novela pesquisando o que vai levar para as araras da Globo e gosta de visitar subúrbios, mercados populares e shoppings que reúnam todas as tribos. Antes de começar a escolher um guarda-roupa, compra montanhas de revistas de todo tipo. "Acho que a Marília gosta mais de entender as pessoas do que de moda. Ela não é do tipo que fica entrando em várias lojas numa viagem, por exemplo", diz o autor Gilberto Braga.

É curioso que alguém que ocupe seu cargo mal empunhe uma tesoura – "Só sei fazer bainha e pregar botão" – nem desenhe uma única peça de roupa. Marília cultiva um jeito básico de se vestir, quase não se maquia, não é enturmada com estilistas celebrados e praticamente não aparece em desfiles. "Não gosto nem tenho tempo", diz. Em compensação, é bajuladíssima quando vai a qualquer loja. Pudera. Marília não fala em valores, mas um orçamento para figurinos de novela das 8 não costuma ser menor que 400 000 reais.

 

O Islã vai à Daslu

Jade se produz com roupas e acessórios caros e exclusivos

1. Lenço Daslu
348 reais

2. Calça Jean-Paul Gaultier
1 040 reais

3. Sandália Datelli
119 reais

4. Bolsa sob encomenda
300 reais

5. Pulseiras Júnia Machado
13 400 reais (as quatro)

 

   
 
   
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