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Edição 1 752 - 22 de maio de 2002
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Sucessão: O efeito Lula
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O ex-futuro vice

Serra procura outro companheiro
de chapa. Alves, do PMDB, está fora,
após a denúncia de que tem 15 milhões
de dólares no exterior

 
Paulo Lima

Alves, que queria ser vice, e a ex, que queria mais dinheiro: projeto interrompido

Para o presidenciável José Serra, a notícia é ruim, mas poderia ser péssima. Na semana passada, a revista IstoÉ publicou reportagem de capa a respeito da fortuna que o deputado federal Henrique Eduardo Alves, do PMDB, mantém no exterior. O dinheiro não foi declarado à Receita Federal. Alves, conhecido em seu Estado, o Rio Grande do Norte, como Henriquinho, havia sido selecionado pelo PMDB para ser vice na chapa tucana à Presidência. De acordo com os dados oficiais declarados por Alves ao Leão, sua renda média mensal equivale a 15.000 reais, incluindo nessa quantia o salário de deputado e retiradas das empresas da família. Segundo a acusação, Henriquinho mantém uma vida financeira abastada. Ele possuiria no exterior 15 milhões de dólares em contas bancárias espalhadas por três paraísos fiscais. Na cúpula tucana, a demora do PMDB para indicar o vice estava incomodando os tucanos, e Serra pressionava por uma definição. O desfecho deveria ocorrer nesta terça-feira. Até a denúncia explodir, o presidente do PSDB, José Aníbal, afirmava que Henriquinho seria o escolhido. O presidente do PMDB, Michel Temer, dizia a mesma coisa. Daí por que a notícia é ruim para Serra. Afinal, ele perdeu um vice. Ao mesmo tempo, o tucano escapou de uma confusão que seria péssima para sua campanha. Imagine o tamanho do estrago se o caso estourasse após a escolha, quando Henriquinho já fosse o companheiro de chapa.

A denúncia contra o deputado não se baseia em acusações de desafetos políticos, mas em farta documentação contida num processo aberto na Justiça há dois anos por sua ex-mulher, Mônica, insatisfeita com o resultado da partilha de bens. Ela pede aumento na pensão para poder fazer frente a seus gastos mensais, de 17.000 reais. O processo contém extratos bancários, contas telefônicas, correspondências, comprovantes de pagamento de cartões de crédito, tudo orientado pelo depoimento de Mônica, que acusa o ex-marido ainda de recorrer a laranjas para esconder a propriedade de imóveis e empresas. Uma das peças do processo é o extrato de uma conta do banco suíço Union Bancaire Privée (UBP), nas Ilhas Jersey, em que se movimentaram 500.000 dólares em 1996. Outra é uma conta telefônica, de janeiro de 1995, informando que o deputado chegou a ligar vinte vezes para o UBP – isso num único dia.

A repercussão da denúncia no comando da campanha foi imediata. Henriquinho se recolheu. Em vez de políticos, agora conversa com advogados. Dirigentes do PSDB e do PMDB já consideram Alves carta fora do baralho. "O deputado deve ter o direito de se defender das denúncias. Mas o vice ideal é aquele que não precisa ficar se explicando", afirma José Aníbal. "O PMDB não precisa substituir ninguém, simplesmente porque ninguém foi indicado até agora. Temos outros nomes em condições de ocupar esse cargo", diz o deputado Geddel Vieira Lima, líder do PMDB, até outro dia um dos maiores entusiastas da candidatura de Alves a vice de Serra. Com a saída de Alves, ganham força no PMDB os nomes dos senadores Ramez Tebet e Pedro Simon e da deputada federal Rita Camata.

 
Flavio Florido/Folha Imagem

Oliveira: ajuda para rolar a dívida do marido da prima de Serra

A denúncia contra Alves surge no momento em que dois outros personagens que gravitam em torno de Serra também estão dando explicações sobre irregularidades a eles atribuídas. Um deles é o economista Ricardo Sérgio de Oliveira, ex-caixa dos tucanos. Oliveira arrecadou dinheiro para as campanhas de Serra em 1990 e em 1994. Depois disso, com o apoio de Serra, foi indicado para a diretoria do Banco do Brasil. No cargo, envolveu-se em duas megaprivatizações, das teles e da Vale do Rio Doce, nas quais fez a mesma coisa, organizou os consórcios vencedores com dinheiro dos fundos de pensão de estatais, e saiu acusado de um mesmo crime: cobrar propina pelo serviço. Na semana passada, Oliveira esteve na Polícia Federal no Rio de Janeiro para dar seu depoimento sobre a privatização da Telemar, em que foi acusado pelo ex-senador Antonio Carlos Magalhães de ter cobrado 90 milhões de reais. Também nos últimos dias tem sido procurado para dar explicações sobre denúncia semelhante na privatização da Vale.

De acordo com reportagem publicada em VEJA, um ministro de Estado, Paulo Renato Souza, e um ex-ministro, Luiz Carlos Mendonça de Barros, contam ter ouvido que Ricardo Sérgio pediu 15 milhões de dólares para reforçar o consórcio ganhador com dinheiro dos fundos de pensão estatais. Os ministros não ouviram um rumor, pois a denúncia lhes foi feita pelo empresário Benjamin Steinbruch, vencedor do leilão da Vale, que se disse achacado por Oliveira. Embora a reclamação tenha sido feita a duas altas autoridades do governo e o caso tenha ido parar na Presidência da República, nada aconteceu. Não houve investigação alguma e Oliveira, acusado de achacar um empresário, continuou no cargo. Meses depois, foi acionado a coordenar a privatização da Telemar. O resto da história é conhecido.

 

Marin: parceria na privatização com o ex-caixa de Serra

O segundo personagem enrolado que gravita em torno de Serra é o empresário Gregorio Marin Preciado, casado com uma prima do candidato tucano. Marin surgiu numa reportagem da Folha de S. Paulo, quinze dias atrás. Entre 1993 e 1995, o empresário acumulou empréstimos no valor de 5,3 milhões de dólares no Banco do Brasil. Não pagou, e, em três anos, o débito saltou para mais de 50 milhões de dólares. Após uma série de negociações, a dívida foi reduzida para 7% de seu valor. O caso seria só uma discussão comercial (bem-sucedida para o devedor) se a dívida não tivesse sido reduzida por Ricardo Sérgio, que dirigia no BB uma área que nada tinha a ver com o assunto. Mais: embora o empresário não tenha pago o que devia, conseguiu sentar-se novamente com o ex-caixa, não mais como devedor, mas na condição de parceiro num negócio bilionário. Os dois negociaram, juntos, a privatização da estatal de energia elétrica da Bahia, a Coelba. Marin representava os espanhóis da Iberdrola, que arremataram a companhia. Ricardo Sérgio entrou na operação organizando os fundos de pensão das estatais para colocar dinheiro no negócio.

Além da dívida do BB, Marin responde a mais de vinte processos por calote em São Paulo e em Minas Gerais. Entre eles, há débitos de 31 milhões de reais com a Receita Federal e a Previdência, a dívida milionária com o Banco do Brasil e outra com o Banespa, de 1993. O valor original era de 2,7 milhões de dólares, mas ele também não pagou. O atual proprietário do Banespa, o Santander, acabou entrando na Justiça. O banco fez um primeiro acordo em que abriu mão de multas e juros, mas Marin ainda assim não pagou. Uma curiosidade sobre essa dívida. Em 1983, Serra virou secretário de Planejamento de São Paulo e indicou o marido da prima para o conselho do Banespa. Dez anos depois, o empresário voltaria ao banco na condição de devedor. Na semana passada, Marin divulgou uma nota à imprensa. "Lamento apenas que o carregado ambiente político no Brasil acabe criando condições para a produção e a geração de acusações infundadas como as que atingiram minha empresa e a mim", afirma.

 
 
   
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