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O
que é isso, Bush?
"A
avacalhação sexual foi a única
contribuição brasileira para a
humanidade. Agora os americanos
querem nos privar dessa conquista"
Os americanos jamais entendem por que o resto do mundo os odeia. É
fácil explicar. Basta ver o que aconteceu na última conferência
sobre a infância da ONU. O governo Bush queria escrever no relatório
final que a única maneira de evitar doenças sexualmente
transmissíveis e gravidez indesejada é a abstinência
sexual. Um de seus delegados chegou a afirmar que os Estados Unidos pretendiam
liderar o planeta nessa batalha. Depois se surpreendem que a gente torça
contra eles.
Uma das principais medidas para estimular a abstinência sexual dentro
do território americano é o retorno das salas de aula separadas:
só para meninos ou só para meninas. O governo Bush prometeu
dar um incentivo financeiro aos distritos cujas escolas abolirem as classes
mistas. É curioso que esse debate ocorra num momento em que até
Britney Spears e os padres da Igreja Católica parecem ter renunciado
ao voto de castidade. Padres, aliás, que estudaram em seminários
só para meninos. Mas a campanha pela abstinência sexual responde
a outros interesses. Ela é promovida por grupos de fundamentalistas
evangélicos de extrema direita, sem os quais Bush nunca teria sido
eleito. Esses grupos, além de querer ditar o comportamento sexual
dos americanos, também influenciam a política para o Oriente
Médio. O reverendo Pat Robertson, por exemplo, conhecido por sua
amizade com o ex-ditador do Zaire, Mobutu, disse que Israel deve ocupar
a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, expulsando os palestinos de lá,
porque se trata da Terra Prometida dos judeus. Ele é apoiado, entre
outros, pelo reverendo Jerry Falwell, o mesmo que acusou os homossexuais
de ter provocado os atentados de 11 de setembro.
Para os brasileiros, claro, a idéia de abstinência sexual
é inconcebível. Choca-se frontalmente com a nossa cultura.
Como explicou Gilberto Freyre, em Casa-Grande & Senzala, a
volúpia sexual foi o elemento fundador da vida brasileira, que
permitiu aos portugueses, "um pessoalzinho ralo, insignificante em número",
povoar um espaço gigantesco como o Brasil, "emprenhando mulheres
e fazendo filhos". Em matéria de sexo, sempre segundo Gilberto
Freyre, aqui houve de tudo: índias que se entregavam por qualquer
bugiganga ou caco de espelho; estupradores atraídos pelas possibilidades
de uma vida livre, no meio de muita mulher nua; colonizadores sádicos
e negras masoquistas; filhos de senhores de engenho que abusavam sexualmente
de filhos de escravos, os chamados "leva-pancadas"; clérigos que
se deixavam contaminar pelo ambiente devasso; indiozinhos que se juntavam
com suas progenitoras; sodomitas italianos e espanhóis; irregularidades
entre sinhás e escravos.
Os americanos dizem que a abstinência sexual impede a gravidez indesejada?
Pois, no Brasil, emprenhar mulheres e fazer filhos era uma razão
de Estado. Os americanos acham que a abstinência pode salvar a juventude
das doenças sexualmente transmissíveis? Pois Gilberto Freyre
conta que, entre nós, os meninos de 12 ou 13 anos eram ridicularizados
se não tinham a marca da sífilis no corpo, ostentada "como
se fosse uma ferida de guerra". A avacalhação sexual foi
a única contribuição brasileira para a história
da humanidade. Agora os americanos querem nos privar dessa conquista.
Os americanos e Luiz Felipe Scolari. Vamos torcer contra eles.
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