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Edição 1 752 - 22 de maio de 2002
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O que é isso, Bush?

"A avacalhação sexual foi a única
contribuição brasileira para a
humanidade. Agora os americanos
querem nos privar dessa conquista"

Os americanos jamais entendem por que o resto do mundo os odeia. É fácil explicar. Basta ver o que aconteceu na última conferência sobre a infância da ONU. O governo Bush queria escrever no relatório final que a única maneira de evitar doenças sexualmente transmissíveis e gravidez indesejada é a abstinência sexual. Um de seus delegados chegou a afirmar que os Estados Unidos pretendiam liderar o planeta nessa batalha. Depois se surpreendem que a gente torça contra eles.

Uma das principais medidas para estimular a abstinência sexual dentro do território americano é o retorno das salas de aula separadas: só para meninos ou só para meninas. O governo Bush prometeu dar um incentivo financeiro aos distritos cujas escolas abolirem as classes mistas. É curioso que esse debate ocorra num momento em que até Britney Spears e os padres da Igreja Católica parecem ter renunciado ao voto de castidade. Padres, aliás, que estudaram em seminários só para meninos. Mas a campanha pela abstinência sexual responde a outros interesses. Ela é promovida por grupos de fundamentalistas evangélicos de extrema direita, sem os quais Bush nunca teria sido eleito. Esses grupos, além de querer ditar o comportamento sexual dos americanos, também influenciam a política para o Oriente Médio. O reverendo Pat Robertson, por exemplo, conhecido por sua amizade com o ex-ditador do Zaire, Mobutu, disse que Israel deve ocupar a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, expulsando os palestinos de lá, porque se trata da Terra Prometida dos judeus. Ele é apoiado, entre outros, pelo reverendo Jerry Falwell, o mesmo que acusou os homossexuais de ter provocado os atentados de 11 de setembro.

Para os brasileiros, claro, a idéia de abstinência sexual é inconcebível. Choca-se frontalmente com a nossa cultura. Como explicou Gilberto Freyre, em Casa-Grande & Senzala, a volúpia sexual foi o elemento fundador da vida brasileira, que permitiu aos portugueses, "um pessoalzinho ralo, insignificante em número", povoar um espaço gigantesco como o Brasil, "emprenhando mulheres e fazendo filhos". Em matéria de sexo, sempre segundo Gilberto Freyre, aqui houve de tudo: índias que se entregavam por qualquer bugiganga ou caco de espelho; estupradores atraídos pelas possibilidades de uma vida livre, no meio de muita mulher nua; colonizadores sádicos e negras masoquistas; filhos de senhores de engenho que abusavam sexualmente de filhos de escravos, os chamados "leva-pancadas"; clérigos que se deixavam contaminar pelo ambiente devasso; indiozinhos que se juntavam com suas progenitoras; sodomitas italianos e espanhóis; irregularidades entre sinhás e escravos.

Os americanos dizem que a abstinência sexual impede a gravidez indesejada? Pois, no Brasil, emprenhar mulheres e fazer filhos era uma razão de Estado. Os americanos acham que a abstinência pode salvar a juventude das doenças sexualmente transmissíveis? Pois Gilberto Freyre conta que, entre nós, os meninos de 12 ou 13 anos eram ridicularizados se não tinham a marca da sífilis no corpo, ostentada "como se fosse uma ferida de guerra". A avacalhação sexual foi a única contribuição brasileira para a história da humanidade. Agora os americanos querem nos privar dessa conquista. Os americanos e Luiz Felipe Scolari. Vamos torcer contra eles.

 
 
   
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