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"O Brasil está louco para ganhar mercados para seus produtos. Nós podemos ser um aliado contra os setores que lá fora vão dizer não" |
O inglês Michael Bailey é especialista em incomodar empresas e governos dos países ricos em defesa dos pobres do Terceiro Mundo. Ele é coordenador de comércio e investimentos da organização não-governamental Oxfam, uma das maiores do mundo, com atuação em 88 países e orçamento anual de 600 milhões de dólares. Com seu trabalho, Bailey, de 48 anos, pretende convencer os governantes e a população dos países ricos de que caridade, comida e boas intenções não são suficientes para vencer a miséria e a fome da África, da Ásia e da América Latina. Para ele, as ONGs precisam valer-se de um arsenal bem mais sofisticado e ardiloso do que ensinar os pobres a plantar. "Hoje temos condições de nos mobilizar nas grandes capitais do mundo e convencer governantes e organizações de que é possível ajudar os pobres por meio de políticas mais justas com o Terceiro Mundo", explica. Ele trabalhou por seis anos no escritório brasileiro da entidade no Recife e é casado com uma pernambucana. Bailey concedeu a seguinte entrevista a VEJA.
Veja Por que a Oxfam, uma entidade criada para auxiliar refugiados
e vítimas de catástrofes, decidiu ir além dessas
tarefas e enveredar pela área de políticas públicas
e econômicas?
Bailey
A
Oxfam foi criada há sessenta anos para combater a fome na Grécia,
uma decorrência do cerco imposto ao país na II Guerra. Depois
da guerra, levamos esse modelo de ajuda ao então chamado Terceiro
Mundo, com auxílio humanitário e material para refugiados
e vítimas de catástrofes. Com o tempo, passamos a ajudar
as pessoas a plantar, com fornecimento de assistência técnica
e insumos agrícolas. A partir dos anos 80, começamos a perceber
que o caminho não era exatamente esse. Os países pobres
têm estruturas econômicas frágeis que não resistem
às pressões do mercado internacional. Mudanças nas
regras de comércio e a liberalização abrupta de mercados
podem acabar com o meio de vida de milhares de pequenos produtores de
uma hora para outra. Percebemos que pouco adianta dar assessoria técnica
e sementes se, de repente, aquele agricultor que estávamos ajudando
não consegue mais vender seu produto. As pessoas que atendíamos
na América Latina, na África começaram a vir até
nós e dizer que não era essa a ajuda que queriam. Pediam
que voltássemos para casa e pressionássemos nossos governos
a tratá-las de forma diferente.
Veja Como é feito esse tipo de influência?
Bailey
Sabemos falar com a opinião pública de nossos países.
As pessoas reconhecem e respeitam nosso trabalho nos países onde
estamos. A Oxfam hoje é uma ONG grande, com o perfil parecido ao
de uma empresa multinacional. Movimentamos mais de 1,5 bilhão de
reais por ano, temos cerca de 3 500 funcionários em doze Oxfam
espalhadas pelo mundo e mais de 30 000 voluntários apenas na Inglaterra.
Só entre os ingleses temos meio milhão de pessoas que contribuem
regularmente com a Oxfam. Temos departamentos de marketing e pesquisas,
lobistas e escritórios em Washington, Nova York, Genebra e Bruxelas,
onde as grandes decisões mundiais são tomadas. Entre nossas
fontes de renda está uma rede de 850 lojas que vende produtos alternativos
e roupas de segunda mão. Em grandes campanhas na Inglaterra conseguimos
arregimentar 500 pessoas que se dispõem a ir falar com os membros
do Parlamento e outras tantas que entopem de cartas o gabinete do primeiro-ministro.
Veja
Mesmo que isso signifique prejuízos para os países
em que vocês vivem?
Bailey
Acho que o principal ponto de nosso trabalho é deixar as coisas
claras para as pessoas. O lobby dos produtores é fortíssimo,
e nem sempre as coisas são tão dramáticas quanto
eles apregoam. Nós fizemos pesquisas em que avaliamos o grau de
prejuízo e desemprego provocado pelas importações
do Terceiro Mundo. É possível liberar a importação
de produtos de países pobres, principalmente africanos, sem que
isso leve à ruína os concorrentes europeus. É óbvio
que pequenos produtores da França e do País de Gales precisam
ser apoiados, mas a política de subsídios e as barreiras
tarifárias da Europa são escandalosas. A isenção
total de tarifas e restrições para os 49 países mais
pobres do mundo, na maioria africanos, não vai levar nossos produtores
à bancarrota. Para a África, isso é uma questão
dramática. O continente hoje está praticamente à
margem do comércio internacional.
Veja Isso já foi diferente no passado?
Bailey
A África hoje tem uma participação de 1,5% do comércio
mundial, e há dezoito anos chegou a ter 4%. Os africanos perderam
um espaço econômico brutal num período muito curto.
Se a África pudesse pegar mais 1% do comércio mundial, isso
geraria uma receita de 70 bilhões de dólares por ano para
o continente. É mais de cinco vezes o que a África recebe
de ajuda internacional, e olha que os países africanos recebem
a parte do leão nesse tipo de ajuda. Nesse ponto, nosso trabalho
não é caridade, não é filantropia. Você
está dando a eles uma chance de trabalhar.
Veja O senhor é contra a globalização?
Bailey
Acho
que a globalização tem graves problemas. O caso da perda
de mercado da África é um exemplo de como aumenta a desigualdade
entre ricos e pobres. Se compararmos a diferença entre os ganhos
dos países ricos com os dos países pobres teremos uma situação
mais caótica que a do Brasil, considerado o pior modelo de distribuição
de renda do planeta. Nós estamos percebendo que é hora de
fazer ajustes, de garantir acesso dos países pobres aos mercados
do Primeiro Mundo. É hora de os países ricos fazerem algumas
concessões. Culturalmente falando, a globalização
é um sucesso espetacular, mas do ponto de vista econômico
é um fracasso. Precisamos entender que a globalização
não é uma força indomável da natureza. Ela
é criação humana, produto de instituições
e governos, de regras, e pode ser alterada. Não concordo com a
primeira-ministra Margaret Thatcher quando dizia que não há
alternativa a essa globalização que conhecemos. Há
alternativas, sim.
Veja Quais seriam elas?
Bailey
Os países ricos têm de entender que os pobres precisam de
algum grau de proteção. Eles não podem abrir seus
mercados para as importações porque não vão
resistir. Também é necessário compreender que não
pode haver aquele velho protecionismo que existia na América Latina
até pouco tempo atrás. É preciso concorrência,
é preciso abertura para importações, senão
o mercado consumidor nacional fica cativo de produtos de baixa qualidade.
O modelo mais interessante disso é o dos chamados Tigres Asiáticos,
que tinham importações e, ao mesmo tempo, protegiam em certo
grau a produção nacional. Conforme alcançavam o desenvolvimento,
liberavam o mercado. O que não pode acontecer é a abertura
indiscriminada e indistinta de mercados que o FMI e outros órgãos
pregam.
Veja Manifestações de rua são parte
da estratégia da Oxfam. Os quebra-quebras e a morte de um manifestante
italiano durante a reunião do G-8 em Gênova no ano passado
mudaram alguma coisa?
Bailey
Eu
não estava presente, mas éramos parte da coalizão
de ONGs que participava dos protestos em Gênova. Quando a situação
começou a radicalizar, achamos que era hora de ceder e não
expor nossos membros a riscos. Precisamos ter uma conduta responsável.
Costumamos levar muitas pessoas para esses eventos e temos de saber orientá-las
corretamente. A rua é parte importante de nossa estratégia,
e defendemos a manifestação pública dentro dos padrões
de lei como forma legítima de manifestar a opinião. Tivemos
sucessos enormes com esse tipo de pressão na reunião do
G-8 em 1997, quando conseguimos grandes vantagens na questão da
dívida externa dos países pobres. É uma estratégia
que continua valendo a pena para nós.
Veja Vocês já tiveram de mudar de tática
alguma vez para não chocar ou desagradar a opinião pública?
Bailey
Algumas
vezes adotamos estratégias que deram errado. Na campanha contra
o alto custo dos medicamentos havíamos centrado na ridicularização
de alguns símbolos dos Estados Unidos. Tínhamos um site
só sobre isso na internet e construímos um boneco imenso
do Tio Sam, com 5 metros de altura, para levar à reunião
da Organização Mundial do Comércio em Doha. Só
que depois do atentado de 11 de setembro ficou inviável manter
o mesmo tom da campanha. A última coisa que queríamos naquele
momento era ser identificados como simpatizantes daquela tragédia.
Não somos politicamente idiotas.
Veja A Oxfam recebe 30% de sua dotação orçamentária
de países ricos da União Européia. O senhor não
acha um contra-senso, para dizer o mínimo, usar o dinheiro dos
governos para criticá-los?
Bailey
O
que precisa ficar claro é que o dinheiro dos governos vai para
as atividades humanitárias que mantemos nos países pobres.
Nós continuamos a fazer esse trabalho. O dinheiro vai, por exemplo,
para a construção de 300 casas populares para as vítimas
das enchentes do Recife ou para os campos de refugiados do Sudão.
As pesquisas econômicas, as manifestações e os relatórios
são custeados com o dinheiro que arrecadamos de outras fontes.
Felizmente há uma longa tradição na Inglaterra e
em outros países europeus de poder combinar o recebimento de dinheiro
do governo com a possibilidade de criticá-lo. Isso é difícil
de entender na América Latina, onde sempre houve uma tradição
clientelista. Se um governo latino-americano financia uma entidade da
sociedade civil, ele jamais vai esperar que a entidade vá morder
a mão que lhe está dando o alimento.
Veja E vocês mordem?
Bailey
Nos
países anglo-saxões, como Estados Unidos e Inglaterra, você
pode morder um pouco. Mas é preciso reconhecer que não dá
para morder demais. O político tem limites. Se o atacamos constantemente,
provavelmente vamos ter de fazer um ajuste no orçamento. É
preciso entender também que governos como os nossos não
são monolíticos. Um relatório da Oxfam pode desagradar
profundamente ao ministro do Comércio, mas ter um impacto totalmente
diferente nos ministérios do Desenvolvimento ou da Ação
Social, que contribuem com nosso trabalho.
Veja Como a Oxfam consegue controlar o gasto dos recursos,
de forma que não sejam mal utilizados?
Bailey
A Oxfam tem um quadro de pessoas nos países onde atua que acompanham
bem de perto o que está acontecendo no desenvolvimento dos projetos.
A grande maioria deles é tocada em parceria com ONGs locais. Com
isso conseguimos ter uma avaliação muito cuidadosa da capacidade
de execução, da organização e de como é
a contabilidade dessas entidades. Liberado o dinheiro, a Oxfam continua
acompanhando o desenvolvimento do projeto, com relatórios e visitas.
É claro que ninguém pode dizer que 100% dos projetos são
bem-sucedidos. Lamentavelmente o mundo não é assim.
Veja Qual a taxa média de sucesso de seus projetos?
Bailey
A
concepção de sucesso depende do tipo de projeto. Em nossa
avaliação, os programas da área de desenvolvimento
social e humano sempre funcionam, porque acabam criando uma nova cultura.
No mínimo, a população aprende a reivindicar seus
direitos. Há fracassos mesmo em projetos de ampliação
de produção ou em programas assistenciais nos quais as entidades
parceiras não conseguem ir até o fim do planejado. São
programas que observamos e dizemos: "Olha aí, perdemos dinheiro".
No Brasil, essa taxa é de 1% a 2% dos projetos. Há outros
em que a gente não perde dinheiro do ponto de vista contábil,
mas os resultados ficam aquém do esperado. Um dos caminhos para
reduzir o risco de fracasso é ter em todos os países funcionários
da região que conheçam as entidades com as quais trabalham.
Com todo o respeito a meus conterrâneos e outros gringos, quem vem
de fora e chega a um país africano ou latino-americano, sem entender
a língua direito, tem maior probabilidade de provocar desperdícios.
Veja Como o senhor vê as iniciativas do Brasil na área
de comércio internacional?
Bailey
O
papel do Brasil na briga de patentes foi importante para a campanha da
Oxfam contra os laboratórios. O Brasil não é como
um país africano absolutamente pobre. Não pode pedir os
mesmos acordos que beneficiam nações mais desfavorecidas
nas relações comerciais com os países ricos. Mas
tampouco é uma Suíça. A tese de campanha pelo comércio
justo é que os países ricos têm de abrir seus mercados.
É preciso acabar com a escandalosa hipocrisia de eles mandarem
os pobres derrubar as barreiras comerciais e, ao mesmo tempo, manterem
o mercado deles fechado ao aço, aos têxteis, ao suco de laranja
do Terceiro Mundo. Nós acreditamos que fazendo barulho vamos tornar
os governos do norte um pouco mais flexíveis. A pressão
fica mais forte com o apoio de países como o Brasil e a Índia.
É curioso que governos como o do Paquistão, que não
gosta de ONGs, e mesmo o do Brasil, que ainda não decidiu se gosta
ou não, reconhecem os benefícios de trabalhar em conjunto
com elas no cenário internacional.
Veja Qual sua opinião sobre o Brasil?
Bailey
O Brasil é hoje um símbolo mundial da desigualdade e da
má distribuição de renda. Você percebe que
tem um monte de dinheiro que não chega aos programas sociais, à
educação na favela, aos postos de saúde, às
microempresas. Isso acontece por dois motivos. Primeiro, muitas das despesas
do governo beneficiam quem não precisa, como juízes aposentados
que ganham 15 000 reais por mês. Segundo, o dinheiro destinado a
atividades sociais, que não é pouco, é aplicado de
forma não muito eficiente. Isso ocorre mesmo em lugares governados
pelos partidos de esquerda. Esses são nossos aliados e podem até
me criticar por essas posições, mas o fato é que
o Estado e o serviço público no Brasil não são
eficientes. Uma redistribuição de riqueza é inevitável.
É a única forma de enfrentar a instabilidade e a insegurança
geradas pela má distribuição. Pessoalmente, eu preferiria
ganhar um pouco menos, como um cidadão de classe média,
e poder viver sem a paranóia de segurança que as pessoas
têm no Brasil.
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