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Edição 1 752 - 22 de maio de 2002
Entrevista: Michael Bailey

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Não basta
dar comida

Dirigente de ONG inglesa defende
novas regras econômicas que
beneficiem países pobres

Daniel Hessel Teich

 
Divulgação

"O Brasil está louco para ganhar mercados para seus produtos. Nós podemos ser um aliado contra os setores que lá fora vão dizer não"

O inglês Michael Bailey é especialista em incomodar empresas e governos dos países ricos em defesa dos pobres do Terceiro Mundo. Ele é coordenador de comércio e investimentos da organização não-governamental Oxfam, uma das maiores do mundo, com atuação em 88 países e orçamento anual de 600 milhões de dólares. Com seu trabalho, Bailey, de 48 anos, pretende convencer os governantes e a população dos países ricos de que caridade, comida e boas intenções não são suficientes para vencer a miséria e a fome da África, da Ásia e da América Latina. Para ele, as ONGs precisam valer-se de um arsenal bem mais sofisticado e ardiloso do que ensinar os pobres a plantar. "Hoje temos condições de nos mobilizar nas grandes capitais do mundo e convencer governantes e organizações de que é possível ajudar os pobres por meio de políticas mais justas com o Terceiro Mundo", explica. Ele trabalhou por seis anos no escritório brasileiro da entidade no Recife e é casado com uma pernambucana. Bailey concedeu a seguinte entrevista a VEJA.

Veja – Por que a Oxfam, uma entidade criada para auxiliar refugiados e vítimas de catástrofes, decidiu ir além dessas tarefas e enveredar pela área de políticas públicas e econômicas?
Bailey – A Oxfam foi criada há sessenta anos para combater a fome na Grécia, uma decorrência do cerco imposto ao país na II Guerra. Depois da guerra, levamos esse modelo de ajuda ao então chamado Terceiro Mundo, com auxílio humanitário e material para refugiados e vítimas de catástrofes. Com o tempo, passamos a ajudar as pessoas a plantar, com fornecimento de assistência técnica e insumos agrícolas. A partir dos anos 80, começamos a perceber que o caminho não era exatamente esse. Os países pobres têm estruturas econômicas frágeis que não resistem às pressões do mercado internacional. Mudanças nas regras de comércio e a liberalização abrupta de mercados podem acabar com o meio de vida de milhares de pequenos produtores de uma hora para outra. Percebemos que pouco adianta dar assessoria técnica e sementes se, de repente, aquele agricultor que estávamos ajudando não consegue mais vender seu produto. As pessoas que atendíamos na América Latina, na África começaram a vir até nós e dizer que não era essa a ajuda que queriam. Pediam que voltássemos para casa e pressionássemos nossos governos a tratá-las de forma diferente.

Veja – Como é feito esse tipo de influência?
Bailey – Sabemos falar com a opinião pública de nossos países. As pessoas reconhecem e respeitam nosso trabalho nos países onde estamos. A Oxfam hoje é uma ONG grande, com o perfil parecido ao de uma empresa multinacional. Movimentamos mais de 1,5 bilhão de reais por ano, temos cerca de 3 500 funcionários em doze Oxfam espalhadas pelo mundo e mais de 30 000 voluntários apenas na Inglaterra. Só entre os ingleses temos meio milhão de pessoas que contribuem regularmente com a Oxfam. Temos departamentos de marketing e pesquisas, lobistas e escritórios em Washington, Nova York, Genebra e Bruxelas, onde as grandes decisões mundiais são tomadas. Entre nossas fontes de renda está uma rede de 850 lojas que vende produtos alternativos e roupas de segunda mão. Em grandes campanhas na Inglaterra conseguimos arregimentar 500 pessoas que se dispõem a ir falar com os membros do Parlamento e outras tantas que entopem de cartas o gabinete do primeiro-ministro.

Veja – Mesmo que isso signifique prejuízos para os países em que vocês vivem?
Bailey – Acho que o principal ponto de nosso trabalho é deixar as coisas claras para as pessoas. O lobby dos produtores é fortíssimo, e nem sempre as coisas são tão dramáticas quanto eles apregoam. Nós fizemos pesquisas em que avaliamos o grau de prejuízo e desemprego provocado pelas importações do Terceiro Mundo. É possível liberar a importação de produtos de países pobres, principalmente africanos, sem que isso leve à ruína os concorrentes europeus. É óbvio que pequenos produtores da França e do País de Gales precisam ser apoiados, mas a política de subsídios e as barreiras tarifárias da Europa são escandalosas. A isenção total de tarifas e restrições para os 49 países mais pobres do mundo, na maioria africanos, não vai levar nossos produtores à bancarrota. Para a África, isso é uma questão dramática. O continente hoje está praticamente à margem do comércio internacional.

Veja – Isso já foi diferente no passado?
Bailey – A África hoje tem uma participação de 1,5% do comércio mundial, e há dezoito anos chegou a ter 4%. Os africanos perderam um espaço econômico brutal num período muito curto. Se a África pudesse pegar mais 1% do comércio mundial, isso geraria uma receita de 70 bilhões de dólares por ano para o continente. É mais de cinco vezes o que a África recebe de ajuda internacional, e olha que os países africanos recebem a parte do leão nesse tipo de ajuda. Nesse ponto, nosso trabalho não é caridade, não é filantropia. Você está dando a eles uma chance de trabalhar.

Veja – O senhor é contra a globalização?
Bailey – Acho que a globalização tem graves problemas. O caso da perda de mercado da África é um exemplo de como aumenta a desigualdade entre ricos e pobres. Se compararmos a diferença entre os ganhos dos países ricos com os dos países pobres teremos uma situação mais caótica que a do Brasil, considerado o pior modelo de distribuição de renda do planeta. Nós estamos percebendo que é hora de fazer ajustes, de garantir acesso dos países pobres aos mercados do Primeiro Mundo. É hora de os países ricos fazerem algumas concessões. Culturalmente falando, a globalização é um sucesso espetacular, mas do ponto de vista econômico é um fracasso. Precisamos entender que a globalização não é uma força indomável da natureza. Ela é criação humana, produto de instituições e governos, de regras, e pode ser alterada. Não concordo com a primeira-ministra Margaret Thatcher quando dizia que não há alternativa a essa globalização que conhecemos. Há alternativas, sim.

Veja – Quais seriam elas?
Bailey – Os países ricos têm de entender que os pobres precisam de algum grau de proteção. Eles não podem abrir seus mercados para as importações porque não vão resistir. Também é necessário compreender que não pode haver aquele velho protecionismo que existia na América Latina até pouco tempo atrás. É preciso concorrência, é preciso abertura para importações, senão o mercado consumidor nacional fica cativo de produtos de baixa qualidade. O modelo mais interessante disso é o dos chamados Tigres Asiáticos, que tinham importações e, ao mesmo tempo, protegiam em certo grau a produção nacional. Conforme alcançavam o desenvolvimento, liberavam o mercado. O que não pode acontecer é a abertura indiscriminada e indistinta de mercados que o FMI e outros órgãos pregam.

Veja – Manifestações de rua são parte da estratégia da Oxfam. Os quebra-quebras e a morte de um manifestante italiano durante a reunião do G-8 em Gênova no ano passado mudaram alguma coisa?
Bailey – Eu não estava presente, mas éramos parte da coalizão de ONGs que participava dos protestos em Gênova. Quando a situação começou a radicalizar, achamos que era hora de ceder e não expor nossos membros a riscos. Precisamos ter uma conduta responsável. Costumamos levar muitas pessoas para esses eventos e temos de saber orientá-las corretamente. A rua é parte importante de nossa estratégia, e defendemos a manifestação pública dentro dos padrões de lei como forma legítima de manifestar a opinião. Tivemos sucessos enormes com esse tipo de pressão na reunião do G-8 em 1997, quando conseguimos grandes vantagens na questão da dívida externa dos países pobres. É uma estratégia que continua valendo a pena para nós.

Veja – Vocês já tiveram de mudar de tática alguma vez para não chocar ou desagradar a opinião pública?
Bailey – Algumas vezes adotamos estratégias que deram errado. Na campanha contra o alto custo dos medicamentos havíamos centrado na ridicularização de alguns símbolos dos Estados Unidos. Tínhamos um site só sobre isso na internet e construímos um boneco imenso do Tio Sam, com 5 metros de altura, para levar à reunião da Organização Mundial do Comércio em Doha. Só que depois do atentado de 11 de setembro ficou inviável manter o mesmo tom da campanha. A última coisa que queríamos naquele momento era ser identificados como simpatizantes daquela tragédia. Não somos politicamente idiotas.

Veja – A Oxfam recebe 30% de sua dotação orçamentária de países ricos da União Européia. O senhor não acha um contra-senso, para dizer o mínimo, usar o dinheiro dos governos para criticá-los?
Bailey – O que precisa ficar claro é que o dinheiro dos governos vai para as atividades humanitárias que mantemos nos países pobres. Nós continuamos a fazer esse trabalho. O dinheiro vai, por exemplo, para a construção de 300 casas populares para as vítimas das enchentes do Recife ou para os campos de refugiados do Sudão. As pesquisas econômicas, as manifestações e os relatórios são custeados com o dinheiro que arrecadamos de outras fontes. Felizmente há uma longa tradição na Inglaterra e em outros países europeus de poder combinar o recebimento de dinheiro do governo com a possibilidade de criticá-lo. Isso é difícil de entender na América Latina, onde sempre houve uma tradição clientelista. Se um governo latino-americano financia uma entidade da sociedade civil, ele jamais vai esperar que a entidade vá morder a mão que lhe está dando o alimento.

Veja – E vocês mordem?
Bailey – Nos países anglo-saxões, como Estados Unidos e Inglaterra, você pode morder um pouco. Mas é preciso reconhecer que não dá para morder demais. O político tem limites. Se o atacamos constantemente, provavelmente vamos ter de fazer um ajuste no orçamento. É preciso entender também que governos como os nossos não são monolíticos. Um relatório da Oxfam pode desagradar profundamente ao ministro do Comércio, mas ter um impacto totalmente diferente nos ministérios do Desenvolvimento ou da Ação Social, que contribuem com nosso trabalho.

Veja – Como a Oxfam consegue controlar o gasto dos recursos, de forma que não sejam mal utilizados?
Bailey – A Oxfam tem um quadro de pessoas nos países onde atua que acompanham bem de perto o que está acontecendo no desenvolvimento dos projetos. A grande maioria deles é tocada em parceria com ONGs locais. Com isso conseguimos ter uma avaliação muito cuidadosa da capacidade de execução, da organização e de como é a contabilidade dessas entidades. Liberado o dinheiro, a Oxfam continua acompanhando o desenvolvimento do projeto, com relatórios e visitas. É claro que ninguém pode dizer que 100% dos projetos são bem-sucedidos. Lamentavelmente o mundo não é assim.

Veja – Qual a taxa média de sucesso de seus projetos?
Bailey – A concepção de sucesso depende do tipo de projeto. Em nossa avaliação, os programas da área de desenvolvimento social e humano sempre funcionam, porque acabam criando uma nova cultura. No mínimo, a população aprende a reivindicar seus direitos. Há fracassos mesmo em projetos de ampliação de produção ou em programas assistenciais nos quais as entidades parceiras não conseguem ir até o fim do planejado. São programas que observamos e dizemos: "Olha aí, perdemos dinheiro". No Brasil, essa taxa é de 1% a 2% dos projetos. Há outros em que a gente não perde dinheiro do ponto de vista contábil, mas os resultados ficam aquém do esperado. Um dos caminhos para reduzir o risco de fracasso é ter em todos os países funcionários da região que conheçam as entidades com as quais trabalham. Com todo o respeito a meus conterrâneos e outros gringos, quem vem de fora e chega a um país africano ou latino-americano, sem entender a língua direito, tem maior probabilidade de provocar desperdícios.

Veja – Como o senhor vê as iniciativas do Brasil na área de comércio internacional?
Bailey – O papel do Brasil na briga de patentes foi importante para a campanha da Oxfam contra os laboratórios. O Brasil não é como um país africano absolutamente pobre. Não pode pedir os mesmos acordos que beneficiam nações mais desfavorecidas nas relações comerciais com os países ricos. Mas tampouco é uma Suíça. A tese de campanha pelo comércio justo é que os países ricos têm de abrir seus mercados. É preciso acabar com a escandalosa hipocrisia de eles mandarem os pobres derrubar as barreiras comerciais e, ao mesmo tempo, manterem o mercado deles fechado ao aço, aos têxteis, ao suco de laranja do Terceiro Mundo. Nós acreditamos que fazendo barulho vamos tornar os governos do norte um pouco mais flexíveis. A pressão fica mais forte com o apoio de países como o Brasil e a Índia. É curioso que governos como o do Paquistão, que não gosta de ONGs, e mesmo o do Brasil, que ainda não decidiu se gosta ou não, reconhecem os benefícios de trabalhar em conjunto com elas no cenário internacional.

Veja – Qual sua opinião sobre o Brasil?
Bailey – O Brasil é hoje um símbolo mundial da desigualdade e da má distribuição de renda. Você percebe que tem um monte de dinheiro que não chega aos programas sociais, à educação na favela, aos postos de saúde, às microempresas. Isso acontece por dois motivos. Primeiro, muitas das despesas do governo beneficiam quem não precisa, como juízes aposentados que ganham 15 000 reais por mês. Segundo, o dinheiro destinado a atividades sociais, que não é pouco, é aplicado de forma não muito eficiente. Isso ocorre mesmo em lugares governados pelos partidos de esquerda. Esses são nossos aliados e podem até me criticar por essas posições, mas o fato é que o Estado e o serviço público no Brasil não são eficientes. Uma redistribuição de riqueza é inevitável. É a única forma de enfrentar a instabilidade e a insegurança geradas pela má distribuição. Pessoalmente, eu preferiria ganhar um pouco menos, como um cidadão de classe média, e poder viver sem a paranóia de segurança que as pessoas têm no Brasil.

 
 
   
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