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Edição 1 752 - 22 de maio de 2002
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Gustavo Franco

O olhar distante

"Faltam-nos liberdade, honestidade, competitividade, somos uma terra cheia
de perigos, mas ainda assim estamos
entre os três melhores lugares do mundo
para o investimento produtivo"


Ale Setti


Os concursos internacionais, no esporte ou na economia, são sempre empolgantes e freqüentemente exibem padrões que refletem competências específicas. O Brasil é o país do futebol (assim esperamos), a Venezuela trabalha bem os concursos de beleza, mas no terreno das comparações de indicadores econômicos, onde deveria haver um tanto mais de ciência, parece existir um hiato entre percepção e realidade.

Com efeito, nesses rankings o Brasil aparece muito mal, tanto que cabe refletir sobre os preconceitos a turvar esse olhar estrangeiro sobre o país. O fenômeno, na verdade, não é novo. A breve resenha feita a seguir pode lembrar uma coletânea de insultos e imprecações dirigidos contra o Brasil organizada por Diogo Mainardi a partir de relatos de viajantes estrangeiros desde o século XVI. Nestes, o ódio é escrachado e genuíno, como se espera de todo legítimo detrator no exercício de seus direitos. Nos rankings abaixo, esses sentimentos não deveriam existir.

A Fundação Heritage é uma das mais influentes instituições conservadoras dos Estados Unidos. Anualmente produz uma lista de países – o Índice de Liberdade Econômica (ILE) – organizada conforme indicadores de liberdade para fazer negócios, na presunção de que por aí se explica "por que algumas nações florescem e outras ficam para trás". Na edição de 2002, feita em conjunto com o Wall Street Journal, o Brasil aparece muito mal colocado, em 79º lugar, empatado com Gâmbia, Madagascar e Paraguai, entre 155 países. Hong Kong está em primeiro; o Iraque, em último.

A Transparência Internacional produz anualmente o Índice de Corrupção Percebida (ICP), cuja edição de 2001 nos coloca em um quase ultrajante 46º lugar, entre o Peru e a Bulgária: de zero a 10, nota 4. A Finlândia está em primeiro, ou seja, é o país mais "limpo", e Bangladesh, o mais corrupto, seguido de perto pela Nigéria. O nível global de corrupção sofreu significativa elevação em 2001, informa o relatório.

A competitividade é objeto de toda uma família de índices. O Fórum Econômico Mundial, o de Davos, patrocina a confecção do Índice de Competitividade para o Crescimento (ICG), que privilegia fatores macroeconômicos e é coordenado pelo professor Jeffrey Sachs, e também do Índice de Competitividade Corrente (ICC), a partir de fatores microeconômicos, criado pelo professor Michael Porter. No ICG estamos num modestíssimo 44º lugar, e no ICC em trigésimo, entre 75 países. A Finlândia está em primeiro em ambos, e em último estão o Zimbábue e a Bolívia.

No plano do "risco soberano", ou da capacidade do país de cumprir seus compromissos, as avaliações das agências especializadas – Moody's, Standard & Poor's, Fitch Ratings e mesmo da SR Rating, que é brasileira – nos dão uma classificação que equivale, numa escala de zero a 10, a algo entre 3,5 e 4.

A revista Euromoney semestralmente transforma diversos indicadores de risco em uma nota de zero a 100 e agora, em março de 2002, ganhamos um 49,5, o que nos coloca em 69º lugar, entre El Salvador e Colômbia, num universo de 185 países. Em primeiro está Luxemburgo, em último há empate entre Somália e Serra Leoa.

Mas, a despeito de toda essa ignomínia atirada contra nós, existe o índice que serve para nos lavar a alma: uma das maiores empresas internacionais de consultoria, a A.T. Kearney, constrói periodicamente o Índice de Confiança para o Investimento Direto (Icid), que consiste em perguntar a 1 000 dirigentes das maiores empresas do mundo qual sua disposição de investir e onde. Na edição de 2001, o Brasil aparece em terceiro lugar – isso mesmo, terceiro lugar –, tendo ultrapassado a Inglaterra. Perdemos apenas para os Estados Unidos e a China.

Curioso esse olhar estrangeiro sobre o Brasil. Faltam-nos liberdade, honestidade, competitividade, somos uma terra cheia de perigos, mas ainda assim estamos entre os três melhores lugares do mundo para o investimento produtivo. Talvez haja, no olhar distante, um problema de miopia. Ou quem sabe premonição.

 

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ
e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.comwww.gfranco.com.br)

 

 
 
   
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