Gigante da arte

O Getty, que custou 1 bilhão de dólares, é
um museu para quem não gosta de museus

João Gabriel de Lima, de Los Angeles

Ao chegar, o turista toma um trenzinho e, enquanto sobe as colinas de Santa Monica, vai se deliciando com uma belíssima vista de Los Angeles. Na estação de chegada, pode alugar um minigravador com fone de ouvido que o guiará pelas principais atrações, entre elas um salão totalmente decorado com mobiliário francês do início do século XVIII. É a Disneylândia? Uma nova unidade do Epcot Center? Não, é o John Paul Getty Museum, um dos mais caros e bem aparelhados museus do mundo, cuja nova sede foi inaugurada em dezembro do ano passado. O Getty foi um dos dois grandes museus abertos em 1997. O outro foi o Guggenheim de Bilbao, na Espanha, projetado pelo badalado Frank Gehry, que consumiu 100 milhões de dólares. Parece muito? Pois bem: o Getty Museum, desenhado por outra fera da arquitetura, o nova-iorquino Richard Meier, custou dez vezes mais — 1 bilhão de dólares. E este é apenas o primeiro dos números superlativos que estão associados ao megamuseu californiano.

O Getty Museum ocupa um espaço de 88.000 metros quadrados. Em seus seis prédios estão instalados o museu mais cinco institutos. No subsolo fica um estacionamento para 1200 carros e doze ônibus. Novecentos funcionários trabalham no complexo, entre guias, educadores e especialistas em restauração. É o projeto mais ambicioso do arquiteto Meier, ele próprio um especialista em museus de todo tipo. Estão entre seus projetos prédios suntuosos, como o Museu de Arte Moderna de Florença, o Museu de Artes Decorativas de Frankfurt, o High Museum, de Atlanta, e até um insólito Museu da Televisão, localizado em Beverly Hills. Mesmo com toda sua experiência e prestígio, para se habilitar a construir o Getty Museum Meier teve de se submeter a um concurso em que competiam outros 32 arquitetos, todos de primeiríssimo time. Depois de vencê-los, ele embarcou numa empreitada que durou doze anos, entre 1985 e 1997. A expensas da riquíssima Fundação Getty, criada pelo magnata do petróleo John Paul Getty, que morreu em 1976, Meier viajou pelo mundo inteiro buscando "inspiração" para desenvolver os detalhes de seu projeto. Ele visitou desde galerias que empregam tecnologia de ponta até monumentos clássicos, já que grande parte do acervo do Getty Museum é constituída de peças da Antiguidade greco-romana e seria interessante que o prédio fizesse alguma referência a esse período.

Comptaduores — Hoje, quatro meses depois de inaugurado, pode-se dizer que o novo museu, que substituiu a antiga sede da Fundação Getty, localizada na Praia de Malibu, é um sucesso. Está sempre cheio, recebendo uma média de 4.000 visitantes por dia. Nos finais de semana, o trenzinho que liga o portão de entrada, no pé da colina, ao museu não dá conta do fluxo de público — tanto que foi necessário criar um shuttle service, um sistema de furgões que transporta o excedente de passageiros. O gigante da arte veio preencher uma lacuna em Los Angeles. Ao contrário de Nova York, que tem um museu em cada esquina, Los Angeles é famosa pela pobreza de sua vida cultural, motivo de piada até no cinema, única atividade artística relevante desenvolvida por lá. Um exemplo está no filme Uma Linda Mulher, no qual o milionário vivido por Richard Gere resolve, a certa altura, dar um verniz cultural à sua amante, a garota de programa vivida por Julia Roberts. Depois de matutar sobre em que lugar levá-la, acaba decidindo que o melhor era o aeroporto — para tomar o avião até Nova York, onde ambos assistem à ópera La Traviata, no Metropolitan. O morador típico de Los Angeles, cujo contato com as artes visuais se restringia ao hábito de olhar as vitrines de roupas na Rodeo Drive, está acorrendo em massa ao Getty Museum para ver obras de Van Gogh, Rembrandt, Rubens, Goya e Mantegna.

Existe, porém, uma razão mais forte para esse interesse: o Getty Museum é feito sob medida para quem não gosta de museus tradicionais. Visitá-lo é, antes de tudo, um ótimo passeio. Para começar, há o trenzinho, as montanhas, a vista. Dentro, jardins, uma lanchonete, um bom restaurante. Nas galerias, as coleções são apresentadas de maneira didática como em poucos museus do mundo. Cada sala é dedicada a um assunto. Há um texto introdutório na entrada e os quadros apresentam boas legendas explicativas. Em cada setor existe uma sala com computadores que informam o usuário sobre a fase artística e o período histórico em questão. Quem visita a parte do museu dedicada à pintura impressionista pode digitar num terminal o nome Renoir e ler, na tela, desde uma pequena biografia até um bom ensaio sobre o pintor, enquanto ouve a música de um compositor da época, Claude Debussy. Esse didatismo é também uma maneira de disfarçar as deficiências do museu. Como grande parte das obras foi comprada sem muito método pelo próprio Getty, a coleção tem várias lacunas — é boa em antiguidade clássica, mas fraca, por exemplo, em pintura espanhola e francesa. Em termos de acervo, não dá para comparar o Getty com qualquer dos grandes museus europeus, como o Louvre de Paris, o Prado de Madri ou a National Gallery de Londres. Ainda assim, ele contém tesouros como o quadro Os Íris, de Van Gogh, que, se fosse a leilão, não sairia por menos de 60 milhões de dólares.

Cem viagens — O próprio prédio do museu é um espetáculo à parte. Cada um dos quatro edifícios onde há exposições tem dois andares, mas as mostras de pintura são sempre realizadas no piso de cima — onde é possível ver os quadros com a luz do dia. Há tetos de vidro com persianas reguladas por computador, para que o sol nunca incida diretamente sobre as telas. A quantidade de luz é também regulada em função da escola artística e técnica de pintura. Nas salas onde há quadros em tons pastel, entra menos luz do que naquelas em que estão expostos óleos de cores exuberantes. O prédio é todo revestido de 16 toneladas de mármore travertino, importado da Itália e transportado para a costa oeste americana em uma centena de viagens de navio. Esse tipo de material faz com que o prédio mude de cor nos diferentes momentos do dia, num espectro que vai do bege ao rosa, na hora do crepúsculo. Meier não costuma utilizar o travertino em seus projetos. Em geral suas construções são inteiramente brancas. Ele optou pelo material para dar uma pitada clássica ao complexo de linhas modernistas. "Queria que o museu tivesse uma aparência de eternidade, como aqueles aquedutos romanos que duram até hoje", explica Meier. A frase expressa uma ambição e trai um certo temor, já que o prédio está localizado numa das regiões do mundo com maior incidência de terremotos.




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