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Edição 2109

22 de abril de 2009
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Caso sem solução

Em O Crime do Restaurante Chinês, o historiador
Boris Fausto rememora um episódio policial dos anos
30 para refletir sobre preconceito e justiça no Brasil


Miguel Sanches Neto

UM CRIME BÁRBARO
Nos jornais de 1938, a cena dos assassinatos, os investigadores e o suspeito Arias de Oliveira


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Trecho do livro

O que leva um importante historiador a exumar uma chacina acontecida em 1938? Essa é a questão que o leitor se coloca já no início da leitura de O Crime do Restaurante Chinês, de Boris Fausto (Companhia das Letras; 264 páginas; 45 reais). Seja pelo título, pela estrutura da narrativa ou pelas ilustrações, esse ensaio histórico tem o formato dos folhetins e prende nossa atenção. O crime é apresentado já nas primeiras páginas. Um casal de chineses prospera com um restaurante próximo à Praça da Sé. Mas na manhã de Quarta-Feira de Cinzas eles e mais dois funcionários que dormiam no estabelecimento são encontrados mortos. A imprensa toda se dedica a noticiar, nem sempre com precisão, o crime bárbaro, exigindo da polícia a resolução do caso.

Em capítulos breves, Boris Fausto reconstitui cada lance da incriminação de Arias de Oliveira, um negro recém-chegado de Franca que havia trabalhado no restaurante. O que o torna o principal suspeito é o fato de ter se demitido dias antes para aproveitar o Carnaval. Num meio em que se valoriza a presença obreira do imigrante, a desconfiança recai numa pessoa identificada com a indolência e o prazer. Embora houvesse outros suspeitos, é Arias quem acaba preso. Aí está implícita a ideia do Brasil como país da preguiça, da malandragem e da festa. Um país que deve ser reprimido.

Era necessário, no entanto, provar o crime. Arias passa por um interrogatório psicológico à luz da Escola Positiva de Medicina. Mas é o clima opressivo da cultura e do cárcere que o leva a confessar tudo, embora os médicos afoitos vejam nisso um triunfo da ciência. Na ótica destes, o crime se esclarecera. Arias teria voltado ao restaurante para recuperar a colocação, pedira para dormir lá, tal como os outros empregados, e, faminto, depois de noites de farra, tivera a ideia do roubo, vendo-se obrigado a matar todos. Tal teria sido a versão oficial se não tivesse entrado em cena a União Negra Brasileira, entidade que lutava contra a discriminação racial. Ela escala um jovem advogado, Paulo Lauro, que mostra a fragilidade das provas. Ele nega as certezas científicas que transformam o jovem pacato em um perigoso facínora, devolvendo-o à sua estatura real, a de alguém em busca de trabalho.

Raul Junior
FANTASMAS
Boris Fausto: escrever o livro foi um modo de exorcizar a história, que ficou em sua imaginação desde a infância

Nessa mudança de olhar entram alguns elementos simbólicos, que o autor explora com propriedade e sutileza. Se o gosto pela festa carnavalesca é usado contra Arias, a disputa da Copa do Mundo de 1938 o ajuda. A seleção brasileira tem um herói, Leônidas, que é muito parecido com Arias, e que também sofre de discriminação. Há uma afirmação de nossa nacionalidade pelo futebol, e isso cria um ambiente propício para a mudança da opinião pública sobre o jovem acusado.

Depois de lances cinematográficos, Arias é absolvido pelo tribunal do júri. O crime nunca é solucionado. Arias volta ao anonimato e o leitor chega ao último capítulo, quando Boris Fausto dá os motivos que o levaram a eleger esse episódio. Além da possibilidade de estudar o preconceito e o começo de uma estabilização de nossa identidade, ele se reporta a uma passagem autobiográfica. Como participara do Carnaval de 1938, o crime ficou ressoando em sua imaginação desde a infância. Escrever a história é uma forma de exorcizar velhos fantasmas. E esse dado final dá um sentido maior ao livro.



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