Força-Tarefa,
a nova série policial da Globo, e a novela Poder Paralelo, da
Record, investem na ação. O gênero, enfim, começa
a fincar raízes na teledramaturgia nacional
Marcelo Marthe
Divulgação / TV Record
EXPLOSÕES O desafio:
produzir cenas de destruição que não exponham atores
nem dublês a riscos A solução da TV: na novela
Poder Paralelo, da Record, uma única cena a explosão
de um carro num atentado consumiu três meses de trabalho. Foi necessário
destruir dois automóveis, um na locação original, na Itália,
e outro no estúdio. As gravações foram monitoradas por bombeiros
Nos
bastidores de Força-Tarefa,seriado policial que estreou
na última quinta-feira na Globo, o consumo de preservativos é elevado:
foram gastos 150 nos seis primeiros episódios. Mas o material não
serviu para sexo, e sim para promover o derramamento de sangue. Para criar a ilusão
de que as balas de festim produzem perfurações em suas vítimas,
recorre-se a um truque: os atores carregam bolsas com explosivos sob as roupas,
detonados por controle remoto no momento em que são "atingidos"
pelas balas. Junto com esses explosivos vai o sangue artificial que jorrará
dos ferimentos fictícios. Os técnicos da Globo descobriram que os
preservativos são uma solução prática para armazenar
o líquido (mistura de corante vermelho e açúcar que lembra
ketchup). Pormenores assim revelam a aventura de gravar uma cena de ação
território virgem na TV brasileira até poucos anos atrás
e que agora vem sendo crescentemente explorado. A Record investe nisso em suas
novelas, assim como o fez na recém-exibida série A Lei e o Crime.
O folhetim Poder Paralelo, que estreou na semana passada, reafirma
essa opção. No primeiro capítulo da história sobre
crime organizado com um personagem inspirado, pasme, no delegado Protógenes
Queiroz (veja o quadro) houve uma perseguição
de helicópteros e um atentado a bomba. A Globo flertou com a ação
no seriado A Justiceira, lá se vão doze anos. Desde então,
tais cenas só surgiam esporadicamente em suas novelas. Força-Tarefa
muda essa equação: a série, com Murilo Benício
no papel de um policial que caça outros tiras corruptos, é pródiga
em tiroteios e corre-corres.
Nos Estados Unidos, a ação é um gênero que remonta
aos filmes de gângsteres dos anos 30. Isso fez surgir um mercado voltado
à gravação dessas cenas, de empresas de efeitos especiais
a agências de dublês. Nas superproduções de Hollywood,
não raro os cineastas confiam a direção dessas sequências
a especialistas no ramo. No Brasil, os filmes Cidade de Deus e Tropa
de Elite encontraram formas originais de, por assim dizer, coreografar a violência
dos morros cariocas o que abriu a trilha para o que se poderia chamar de
uma ação à brasileira. Os investimentos reiterados da Record,
bem como os da Globo em Força-Tarefa, demonstram que essa vertente
tem seu apelo na TV. Mas as emissoras precisaram absorver rapidamente macetes
que os americanos aperfeiçoaram ao longo de décadas. E ainda têm
chão a percorrer. Na novela Duas Caras, a Globo deu vexame com a
sequência da invasão da favela da Portelinha por traficantes
as vítimas caíam sem ao menos se verem as marcas dos tiros. A Record
também abraçou o ridículo na novela Os Mutantes, em
que se valeu de efeitos de computação toscos. Com seus novos programas,
as redes têm a chance de reverter esse jogo.
Divulgação/TV Globo
TIROTEIOS O desafio: sincronizar
os disparos das armas com as marcas das balas A solução da
TV: quando os tiros de festim são disparados na série Força-Tarefa,
da Globo, técnicos detonam por controle remoto cargas explosivas escondidas
sob as roupas das vítimas. É isso que produz os buracos nos corpos
e os jorros de sangue artificial
Gravar
uma obra de ação é uma operação cara e complexa.
Cerca de 90% das cenas de Força-Tarefa são feitas em locações
externas, contra não mais que 40% numa novela das 8. Embora os tiroteios
e as explosões não tenham presença acentuada em todos os
doze episódios, esses itens contribuem bastante para o custo médio
de cada um deles, de 550.000 reais três
vezes o que a Globo gasta numa comédia como A Grande Família.
Um episódio leva sete dias para ser gravado, o dobro do normal. "Fazer
uma série policial é um exercício físico intenso.
Os atores ficam exaustos", diz o diretor José Alvarenga Jr. No caso
de Murilo Benício, queimar calorias até que é providencial:
com declarados 4 quilos a mais, o ator exibe uma pança notável.
As sequências de Poder Paralelo também dão trabalho.
O atentado que fechou o primeiro capítulo e garantiu pico de 15
pontos no ibope requereu gravações na cidade italiana de
Palermo e no Brasil. Na cena, um automóvel explode, matando a mulher e
as filhas do mafioso Tony Castellamare (Gabriel Braga Nunes). A produção
destruiu um carro na Itália, com bombeiros de prontidão. As imagens
em que os personagens são lançados para trás pela detonação
foram feitas com dublês puxados, na verdade, por cabos de aço.
Para terminar a sequência, tudo isso teve de ser repetido no estúdio
no Brasil meses depois, com uma enorme tela neutra ao fundo, na qual se projetou
o cenário de Palermo. Usaram-se ainda efeitos de computador para dar a
impressão de que uma língua de fogo engolia os personagens. No total,
noventa pessoas participaram da cena. "Nosso desafio era não machucar
ninguém", diz o diretor Ignácio Coqueiro.
Divulgação / TV Record
PERSEGUIÇÕES O desafio: imprimir ritmo ágil a essas cenas, gravadas quase sempre
em locações crivadas de obstáculos, como ruas movimentadas
e favelas A solução da TV: na sequência de perseguição
urbana de Poder Paralelo, os atores tinham suas imagens gravadas por um
operador que os seguia com a câmera em punho. Outra câmera captava
imagens do alto. Na mesa de edição, fragmentos dessas cenas foram
alternados
Nessas
gravações há um componente quase artesanal. Cada situação
requer uma solução à la Professor Pardal. A Globo conta com
dois especialistas nisso: os mexicanos Federico Farfán, que cuida dos efeitos,
e Javier Lambert, treinador dos dublês. Ambos são veteranos que já
atuaram em produções de Hollywood. Trabalham na Globo desde A
Justiceira, mas passaram os últimos anos meio encostados, até
surgir a nova oportunidade de exibir seus dotes. Atualmente, Lambert divide-se
entre Força-Tarefa e as filmagens no Brasil do novo trabalho de
Sylvester Stallone. Farfán foi quem bolou o uso inusitado dos preservativos.
Para ele, o segredo de uma cena de ação é que ela produza
tensão de verdade no set. Ele sabe bem do que fala: quando participou de
Rambo II, o que era para ser uma queimadura de mentira no rosto de Stallone
acabou machucando o ator de verdade. "Ele ficou com uma bolha horrível.
E me xingou muito", conta.
Só
na ficção
Divulgação / TV Record
HERÓI DE ARAQUE O
ator Tuca Andrada como Téo: o Protógenes da Record
Na novela Poder Paralelo, da
Record, Téo (Tuca Andrada) é um delegado da Polícia Federal
com pinta de galã e comportamento heroico nos primeiros capítulos,
ele se arriscou em vários momentos em nome da luta contra o crime organizado.
Mas Téo se inspira num personagem real que não se enquadra, definitivamente,
no perfil de galã nem, menos ainda, no de herói: Protógenes
Queiroz, o delegado da PF que cometeu abusos e ilegalidades nas investigações
da Operação Satiagraha. "Era inevitável que Protógenes
fosse meu exemplo", diz o noveleiro Lauro César Muniz. "Assim
como ele, Téo passa por cima da lei e da burocracia policial por seus objetivos."
Ao saber que inspiraria o personagem de Poder Paralelo, o próprio buscou
uma aproximação com o autor que, ao que consta, não
teria vingado. O Protógenes da Record promete. Ele já fez sexo com
uma colega. E atuou em outro país, a Itália, de arma e distintivo
em punho, à revelia das autoridades locais. Noveleiro de esquerda, Muniz
dará sua contribuição para a mistificação de
Protógenes. No livro em que se baseia a trama, Honra ou Vendetta (2001),
de Sílvio Lancellotti, o tal delegado era submisso a um mafioso. Agora,
é um idealista perseguido por uma organização criminosa com
ramificações na política e no empresariado. Se o original
foi indiciado pela PF por quebra de sigilo funcional e violação
da lei de interceptações, Téo será afastado do cargo
por uma conspiração. Será uma vítima do "sistema",
enfim. "Não vou aplaudir nem condenar. As pessoas que o julguem",
diz Muniz.