BUSCA

Busca avançada      
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC
Publicidade
REVISTAS
VEJA
Edição 2109

22 de abril de 2009
ver capa
NESTA EDIÇÃO
Índice
SEÇÕES
Carta ao Leitor
Entrevista
Lya Luft
Leitor
Millôr
Blogosfera
PANORAMA
Imagem da Semana
Holofote
Datas
SobeDesce
Conversa
Números
Radar
Veja Essa
 

Esporte
Eles não arredam pé

Como vivem no Japão os lutadores brasileiros de sumô, o
esporte de origem religiosa em que os campeões têm status
de divindade e vence quem conseguir tirar o oponente da arena


Thaís Oyama, de Osaka


Kaoru Fujimoto
À ESPERA DA GLÓRIA
Os sonhos dos brasileiros Sugano (à esq.) e Nagahama: ser campeão um dia e ter a luta exibida na TV

Uma luta de sumô parece não passar de uma série de trombadas entre dois homens de proporções colossais que tentam derrubar ou empurrar um ao outro para fora da arena. Vista de perto, a disputa é exatamente a mesma coisa – com duas diferenças: os lutadores parecem bem maiores do que na televisão e a plateia, ao contrário do que se poderia esperar num país monolítico como o Japão, é surpreendentemente heterogênea. Ao lado de senhores na casa dos 60 anos, público majoritário das arquibancadas, sentam-se adolescentes barulhentas, senhoras de quimono e personagens tão raros de encontrar nas ruas quanto gueixas, travestis e até integrantes ou emuladores do estilo da Yakuza, a máfia japonesa, adeptos de ternos de cores berrantes. Com alegados 2 000 anos de existência, o sumô, que nasceu como parte dos ritos xintoístas, continua mesmerizando os japoneses e atraindo estrangeiros – fora dos ringues e dentro deles: a porcentagem de sumotoris (lutadores de sumô) não japoneses já beira os 10%. Dois brasileiros fazem parte do universo dos profissionais: o paulistano Ricardo Sugano (1,93 metro de altura e 160 quilos) e o paraense Eiji Nagahama (1,84 metro de altura e 150 quilos).

Sugano, de 22 anos, filho de um descendente de japoneses, mudou-se para o Japão há três anos, inspirado pelos desenhos de samurais que via na infância. Nagahama, também de 22 anos, chegou um ano antes, encorajado pela avó – imigrante, lavradora e fã de sumô – e pelas vitórias obtidas nas disputas de que participava na sua terra natal, Tomé-Açu. Ele lembra que, em seu primeiro dia na academia Tomozuna, em Tóquio, assustou-se com o rigor dos treinos: "Eram bem diferentes daqueles que eu fazia em Tomé-Açu". Nas academias de sumô, como de resto em todo o Japão, vale o princípio da senioridade: dos mais novos e menos graduados espera-se irrestrito respeito e obediência aos mais velhos e mais graduados – que, em troca, transmitirão aos primeiros seu conhecimento e experiência. Os treinos de sumô, diários e com duração nunca inferior a quatro horas, seguem à risca o mandamento. Num dos exercícios, o aprendiz tem de empurrar um veterano até o lado oposto da arena de chão de terra batida tantas vezes quantas ele ordenar – o que é mais ou menos como ter de mudar de lugar um saco de cimento molhado pesando entre 150 e 250 quilos. A diferença é que, nesse caso, o saco de cimento pode ser implacável. Uma vez que a função do veterano é fazer com que o praticante rompa os limites da exaustão, ele, diante de um aprendiz que já chegou ao fim de suas forças, e a duras penas tenta se colocar de pé, ordenará: "Mais uma vez". Quando se certificar de que o lutador – a esta altura com o coque dos cabelos desfeito, o rosto coberto de barro e o orgulho em pedaços – não tem forças nem para rastejar, repetirá a ordem. E mais uma vez e outra, até finalmente autorizar o aprendiz a deixar a arena para pegar um copo de água – que deverá ser oferecido a ele, veterano, juntamente com uma reverência e um agradecimento pela lição. A peculiar tática pedagógica conta com o incondicional apoio dos sumotoris brasileiros. "É duro, mas fortalece o corpo e o espírito", diz Sugano.

Como integrantes da terceira divisão (o sumô tem seis, sendo a primeira a mais baixa), Sugano e Nagahama ainda fazem parte do time que ajuda nas tarefas de limpeza e cozinha da academia e que, na hora do almoço, tem de ficar de pé ao lado da mesa esperando que os veteranos terminem a refeição – e alertas para repor o arroz das tigelas a cada uma das muitas vezes que eles as esvaziam. Não recebem salário, mas uma pequena quantia a cada dois meses – o suficiente para Sugano fazer aquilo de que mais gosta nas horas de folga: levar seus 160 quilos para passear na Disneylândia de Tóquio. "Já fui 22 vezes", orgulha-se. Graças à sua performance no campeonato do mês passado, em Osaka, Sugano deverá ser promovido para a quarta divisão ainda neste mês. Com o título, passará a fazer parte de um clube mais seleto: menos de 15% dos sumotoris no Japão pertencem à categoria – o que confere a seus integrantes privilégios simbólicos, como autorização para jogar sal na arena antes da luta (parte do ritual de purificação do ringue), e outros mais tangíveis, como o direito de usar um casaco sobre o quimono no inverno. Os sumotoris das divisões inferiores, faça chuva ou faça sol, só podem vestir os quimonos de algodão.

Mas se, pelas regras do esporte, a vida na divisão em que Sugano estará em breve parece um pouco mais confortável, ela ainda é só um lugar de onde se pode avistar a terra prometida: aquela habitada pelos sekitoris, como são chamados os lutadores da quinta divisão. A distância entre esse mundo e o localizado logo abaixo dele equivale à diferença entre o céu e o inferno. Para começar, sekitoris recebem salário (inicial de 10.000 dólares por mês). Dependendo da academia a que pertencem, podem ter direito a até três tsukebitos – assistentes pessoais cujas tarefas vão desde escoltá-lo nos campeonatos até dobrar seus quimonos, lavar suas roupas, dar-lhes banho e massagear seus músculos cansados. O sekitori é, em suma, um lutador que começa a galgar as escadas da glória, que pode atingir alturas quase celestiais no caso dos pouquíssimos que se tornam um yokozuna – o campeão supremo, gigante entre os gigantes, com status de divindade e ganhos de astro de futebol (2 milhões de dólares por ano, incluindo prêmios e bonificações). Atualmente, existem só dois yokozunas em atividade no Japão, Hakuho e Asashoryu, ambos mongóis. A escalada dos estrangeiros no ranking do esporte é uma boa notícia para quem, como Sugano, pretende, se os deuses colaborarem, virar ozeki (campeão) um dia. Já Nagahama declara ambições mais modestas. Seu sonho é aparecer, "pelo menos uma vez", na NHK, o canal japonês de televisão que transmite as lutas de sumô das categorias superiores para o Japão e para o mundo. "Queria que minha avó me assistisse um dia", justifica. Do Brasil, a plateia torce por ele.


Foto: Hugh Gentry/Reuters

 

Um cheiro de queimado no ar

Thaís Oyama

Divulgação

FLAGRADO E BANIDO
Wakakirin, o quarto lutador pego com maconha em menos de um ano


O esporte mais popular do Japão continua lotando arquibancadas, mas, no que se refere à sua reputação, poucas vezes enfrentou momento tão ruim. O inferno astral do sumô começou com uma tragédia ocorrida em junho de 2007. Veteranos de uma escola localizada na província de Aichi, a oeste de Tóquio, provocaram a morte de Takashi Saito, um novato de 17 anos, depois de espancá-lo violentamente durante um treino. O "castigo" havia sido ordenado pelo mestre da academia onde Saito morava fazia dois meses e de onde tinha tentado fugir pela segunda vez no dia anterior à sua morte, supostamente por não aguentar o rigor dos treinos. Reveladas as condições da morte do aprendiz (que a academia tentou camuflar, sugerindo a cremação do seu corpo antes da autópsia), o então presidente da Japan Sumo Association (JSA), Toshimitsu Kitanoumi, cumpriu os rituais de praxe. Em cerimônia pública, pontuada por colunas vergadas, pediu desculpas à nação e, como forma de compartilhar responsabilidades pela tragédia, anunciou o corte dos salários de todos os executivos da JSA em 30%, por três meses, e o seu próprio em 50%, por quatro meses. Um ano depois, as poderosas cabeças da JSA, à qual se subordinam todas as academias e os cerca de 800 lutadores de sumô profissionais do Japão, tiveram de curvar-se novamente. Em agosto de 2008, Wakanoho, nome adotado pelo lutador de origem russa Aleksandrovich Gagloev, foi preso por porte de maconha – crime que no Japão tem gravidade inversamente proporcional à sua frequência (apenas 1 800 casos registrados no ano passado em todo o país). Menos de um mês se passou e outros dois lutadores – irmãos e também russos – caíram no antidoping para a droga, que havia sido criado por causa do episódio Wakanoho. Um dos reprovados no teste pertencia à academia de Kitanoumi, o presidente da JSA, que, em vez de anunciar nova mutilação do holerite, dessa vez resolveu renunciar.

Em janeiro deste ano, os dois mundos que até há pouco se acreditava imiscíveis – o do sumô e o das drogas – se encontraram novamente. E, agora, o pivô do escândalo não era um estrangeiro, mas um japonês. Shinichi Suzukawa, o Wakakirin, de 25 anos, foi preso com 16 gramas de maconha. O inescapável pedido público de desculpas, desta vez, coube ao mestre do lutador, que, entre lágrimas, chamou o seu pupilo de "idiota". Tanto Wakakirin quanto os irmãos russos foram banidos do sumô para sempre. Mas o cheiro de queimado ficou no ar.



Publicidade
 
Publicidade

 
  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |