Edição 1948 . 22 de março de 2006

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Música
A bossa é a mesma,
mas a conta bancária...

Sergio Mendes e Johnny Alf foram
bossa-novistas pioneiros. Seus
destinos dizem muito sobre o gênero


Sérgio Martins

Sergio Mendes e Johnny Alf compartilham as origens: ambos são pioneiros da bossa nova. Ao longo dos anos, contudo, eles colheram frutos muito diferentes em sua profissão. Mendes, de 65 anos, mora numa casona na Califórnia e já recebeu até menções em Seinfeld, uma das séries mais populares na história da TV americana. Alf, de 76 anos, vive num quarto de hotel no centro de São Paulo e, para equilibrar as finanças, de vez em quando põe à venda um de seus bens mais preciosos – os discos raros de 78 rotações que coleciona. No momento em que os dois lançam álbuns de canções inéditas, depois de longos intervalos em que tudo o que fizeram foi regravar e regravar velhos sucessos, o contraste é instrutivo: a história do "primo pobre" e do "primo rico" da bossa nova é também a de como o gênero se transformou e de como a indústria musical o absorveu – no Brasil e fora daqui.

Dito sem rodeios, a bossa nova está muito mais viva no exterior do que no Brasil de hoje. Enquanto aqui ela é vista como elemento do passado musical, e carrega um forte gosto de saudade, nos Estados Unidos ela floresce ao menos de duas maneiras: conserva alguma excitação para artistas interessados em fazer fusões de estilos e alimenta um nicho importante da indústria, o das "canções para relaxar", que os americanos ouvem no carro, enquanto voltam do trabalho, ou como trilha sonora de fundo. A diferença transparece nos discos de Alf e Mendes. Em Mais um Som, seu primeiro trabalho de composições inéditas em 28 anos, Johnny Alf canta com suavidade e dedilha seu piano elegante na companhia de um grupo formado por baixo, bateria, guitarra e trompete. É um álbum bonito, que não se afasta um milímetro da ortodoxia e que vendeu até agora cerca de 3.000 exemplares no mercado nacional. Já Timeless, de Sergio Mendes, mistura bossa e hip hop e conta com a colaboração de artistas como Stevie Wonder, Erykah Badu e will.i.am (líder do grupo de rap Black Eyed Peas). O CD estreou em 46º lugar na parada americana – um posto nada desprezível – e é uma lição para artistas que tentam unir bossa nova a gêneros mais moderninhos, como a música eletrônica.

Conhecidas essas circunstâncias, e olhando em retrospecto, talvez se possa dizer que a decisão de ficar ou sair do Brasil esteve entre as mais momentosas que Alf e Mendes já tomaram. Para o primeiro, a alternativa se apresentou nos anos 70, quando a cantora americana Sarah Vaughan visitou o país. Ela se encantou com a voz e o piano de Alf, moldado em audições constantes de Chopin e Nat King Cole, e tentou convencê-lo a se mudar para os Estados Unidos. Marcado por uma proverbial timidez, ele disse não. A essa altura, Mendes já havia emigrado fazia algum tempo. Ex-aluno do maestro Moacir Santos, ele recebera um convite inusitado do governo brasileiro em 1965: liderar um grupo de bossa-novistas na missão de promover a MPB entre os americanos. Ele formou o time, viajou e, ao fim da turnê, enquanto seus companheiros arrumavam as malas – "eles sentiam falta da comidinha caseira", diz –, decidiu ficar. Descobriu uma mina de ouro ao adaptar a bossa nova ao gosto dos Estados Unidos. Um de seus sucessos é uma versão de Mas que Nada, de Jorge Ben Jor, cantada por duas vocalistas num português macarrônico. Ele também recriou sucessos das paradas – dos Beatles aos artistas negros da Motown – com suingue de samba. Desse modo, chegou a apresentar-se na Casa Branca para os presidentes Lyndon Johnson, Richard Nixon e Ronald Reagan.

Em 1973, já rico e famoso, Mendes decidiu diversificar seus negócios. Ele tentou abrir no Brasil uma filial da KFC, rede americana de lanchonetes especializada em frango frito. Os militares, então no poder, encrencaram com o coronel Sanders, velhinho que é símbolo da KFC. "Eles diziam que pegava mal o povo falar: 'Vamos comer a galinha do coronel'", conta Mendes, que então mudou o nome do personagem para "vovô Sanders". Nem assim o negócio emplacou (só nos anos 90 a KFC faria uma nova incursão no Brasil, novamente sem sucesso), e desde então Mendes se dedica exclusivamente à música – farejando os lucros como poucos nessa área.

Mendes é tão polêmico quanto Alf é tímido. Elis Regina o tachava de "mau-caráter", e músicos que tocaram com ele nas décadas de 50 e 60 o acusaram de minar as investidas de colegas no exterior. Um exemplo: a menção aos arranjos do pianista João Donato na canção The Frog, que Mendes gravou no disco Look Around (1967), teria sido omitida propositadamente dos créditos. Mendes também se envolveu numa rinha com Vinicius de Moraes (que discordou do arranjo de uma música) e o teria acertado com um direto no queixo. Ele nega essas histórias. "Há tantas lendas sobre mim que um dia escreverei um livro com minha versão dos fatos", diz. Alf e Mendes nunca tiveram muito contato – até porque, no auge da bossa nova, Alf saiu do Rio de Janeiro, epicentro do movimento, e foi ganhar a vida nas casas noturnas de São Paulo. Durante algum tempo, antigos amigos como Tom Jobim, que o apelidou de "Genialf", o acompanharam. João Gilberto chegou a pegar um ônibus para vê-lo tocar nos palcos paulistanos e voltar na manhã seguinte. Hoje, Alf perdeu contato com a velha-guarda. "Nem sei se o João Gilberto mora no Brasil. Ele nunca mais me ligou", diz.

 

O primo rico...

Oscar Cabral


Sergio Mendes

DISCOS LANÇADOS: 38

SHOWS: 80 por ano, com cachê equivalente a 70 000 reais

PRODUÇÃO DE SEU CD MAIS RECENTE: consumiu o equivalente a 700 000 reais, o custo de um disco de primeira linha nos Estados Unidos, e foi lançado por um selo prestigiado de jazz, o Concord. Tem participações de artistas conhecidos, como Stevie Wonder

VENDAGENS DO CD: estreou no 46º lugar na parada americana e já vendeu 80 000 cópias

COMO VIVE: numa mansão em Woodland Hills, região nobre do estado americano da Califórnia

 

...e o primo pobre da bossa nova

Lailson Santos


Johnny Alf

DISCOS LANÇADOS: 15

SHOWS: 50 por ano, com cachê de 5 000 reais, em média

PRODUÇÃO DE SEU CD MAIS RECENTE: consumiu cerca de 100 000 reais, o custo de um disco médio no Brasil, e foi lançado por uma gravadora de pequeno porte, a Guanabara. Não tem participações especiais

VENDAGENS DO CD: 3 000 cópias

COMO VIVE: num hotel modesto no Largo do Arouche, no centro de São Paulo

 
 
 
 
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