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Ética
Quantos vão chegar lá?
Congelados em clínicas de
reprodução, milhares de
embriões aguardam um destino

Juliana Vale, de Barcelona
Ao certo, ninguém sabe,
mas calcula-se por baixo que existam mais de 500.000
embriões humanos congelados em clínicas de fertilização
mundo afora. Conservados em nitrogênio líquido, a 196
graus negativos, são, em sua maioria, sobras de tentativas
de reprodução assistida que deram certo. Das muitas
e complexas questões levantadas pelos avanços da ciência,
talvez uma das mais imediatas seja: o que fazer com os embriões
não utilizados? Como existe pouquíssima legislação
a respeito e a questão envolve aspectos emocionais, éticos
e religiosos dos quais as clínicas e os casais querem distância,
as sobras de fertilizações in vitro permanecem, por
assim dizer, no limbo da reprodução assistida. Alguns
embriões serão usados por quem deseja ter mais filhos,
outros com explícito consentimento prévio
serão doados ou utilizados em poucas e limitadas pesquisas
científicas, visto que seu destino mais evidente, os experimentos
com células-tronco, ainda patina em tortuosas considerações.
Enquanto a maior parte dos países avança lentamente
no tema, quando avança, a Espanha, decidida nos últimos
tempos a pisar firme em terrenos que a sociedade enxerga como pantanosos,
saiu na frente: de 2004 para cá, vem aperfeiçoando
um conjunto de leis que, além de incentivar a investigação
com células embrionárias, autoriza a "adoção"
de embriões não reivindicados nas clínicas,
sem aval nem identificação dos doadores, inclusive
por mulheres solteiras ou homossexuais as quais, desde o
ano passado, também podem se casar legalmente.
O Instituto Marquès, de
Barcelona, foi um dos primeiros a lançar, no fim de 2004,
um programa de adoção dos 1.700 embriões "órfãos",
ou seja, ignorados pelos donos por mais de três anos. Noventa
candidatas se apresentaram, entre casadas estéreis, solteiras,
lésbicas e até ex-freiras. O primeiro fruto foi Gerard,
embrião congelado há sete anos e adotado por Eva Tárrida,
que em setembro finalmente conseguiu dar à luz, aos 41 anos.
"Resolvemos envolver a sociedade na decisão sobre o que fazer
com os embriões", diz a ginecologista-chefe do Serviço
de Esterilidade, Marisa López-Teijón. Segundo ela,
menos de 25% dos pacientes manifestam a intenção de
manter o congelamento depois dos três primeiros anos. Uma
parte ainda menor opta por doá-los à ciência
ou destruí-los. A ampla maioria (mais de 60%) se omite. "Quando
entramos em contato, não respondem, porque qualquer opção
terá implicações afetivas. Os pais têm
medo de se arrepender ou de ser criticados", afirma.
No Brasil (veja o quadro),
onde existem cerca de 150 clínicas de reprodução
assistida, o Conselho Federal de Medicina autoriza que embriões
não reclamados após três anos de congelamento
sejam doados para pesquisa ou a casais interessados, com autorização
dos donos; não admite, porém, sua destruição
(ou seja: descongelamento e posterior descarte), embora a prática
exista. "Trata-se, na verdade, de um pré-embrião,
um conjunto de células vivas. Só é vida quando
gruda no útero", justifica Roger Abdelmassih, 62 anos, que
está comemorando o nascimento por fertilização
in vitro do bebê número 5.000 em sua clínica
em São Paulo. Lá, são conservados cerca de
1.500 embriões (a custo zero, ou apenas simbólico);
eventualmente, alguns são usados em pesquisas na própria
clínica e depois descartados. Com todos os seus pontos positivos,
a fertilização artificial também produziu sua
cota de emaranhados difíceis de resolver. No começo
do mês, a inglesa Natallie Evans, 34 anos, estéril
em decorrência de um tratamento de câncer no ovário,
perdeu no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos seu último
recurso para ter acesso aos seis embriões que ela e o ex-noivo,
Howard Johnston, tinham congelado em 2000. O casal se separou, ele
não quis ter filhos com ela e, como a lei britânica
só libera embriões com o consentimento de ambas as
partes, Natallie perdeu a batalha legal. "Sempre que um casal desiste
de formar família, o futuro dos embriões vira uma
incógnita", diz a bióloga Anna Veiga, umas das diretoras
do Centro de Medicina Regenerativa de Barcelona.
Para evitar conflitos, e também
reduzir a temível conquanto remota probabilidade de que parentes
próximos, ignorantes da sua condição, venham
a se unir e ter filhos no futuro, países como Itália
e Alemanha optaram por endurecer as restrições. "Na
Itália, desde 2004, só heterossexuais com relação
estável fazem tratamento", explica o pesquisador Paolo Vezzoni,
do Instituto de Tecnologias Biomédicas Avançadas.
Especialistas em reprodução assistida que aceitarem
pacientes não autorizados (gays, solteiras, viúvas)
estão sujeitos a multa de até 400 000 euros, ou mais
de 1 milhão de reais. Sempre que a legislação
endurece em um país, casais sem a possibilidade de gerar
filhos viajam para terras mais liberais uma espécie
de "turismo reprodutivo", no qual a Espanha é destaque. "Cerca
de 15% dos nossos pacientes são de outros países",
informa Amparo Ruiz, diretora do Instituto Valenciano de Infertilidade,
que tem até um departamento para atender estrangeiros, com
funcionários fluentes em cinco idiomas. Os estoques espanhóis
de embriões, espermatozóides e óvulos são
fartos e as doações, sigilosas um atrativo
extra para, por exemplo, pacientes da Suécia e da Inglaterra.
"Nesses dois países, não se pode doar material biológico
anonimamente", explica Roberto Matorras, presidente da Sociedade
Espanhola de Fertilidade. "Os doadores morrem de medo de ter um
filho biológico batendo à porta e exigindo amparo
econômico no futuro." Mais um nó por ser desfeito na
emaranhada teia dos dilemas éticos e jurídicos do
mundo contemporâneo.
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