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Entrevista: Karen
Hughes
A guerreira de Bush
Assessora e amiga do presidente americano,
a subsecretária de Estado corre o mundo com
a difícil missão de melhorar a imagem dos EUA

Vilma Gryzinski
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Rabih Moghrabi/AFP

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"Nas democracias, todo cidadão tem
um lugar à mesa, e isso faz delas sociedades mais pacíficas" |
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Karen Hughes é uma das amazonas do presidente
americano George W. Bush, que gosta de se cercar de colaboradoras
fortes e fiéis. No caso dela, a comparação
com as guerreiras mitológicas é mais do que simbólica.
Ela mede mais de 1,80 metro, calça 41 e tem uma capacidade
de comando que já aterrorizou muitos marmanjos, tanto durante
a primeira campanha presidencial de Bush quanto no período
em que controlou ferozmente todo o esquema de comunicação
social da Casa Branca. Apelidada de "Spice Girl", ela "largou tudo"
em 2002 para voltar ao Texas porque o filho adolescente e o marido
não se acostumavam à vida em Washington. Escreveu
um livro, deu palestras e fez comida para a família até
ser convocada pelo chefe e amigo, no ano passado. Retornou como
subsecretária de Estado para Diplomacia Pública, com
a missão impossível, acreditam muitos
de melhorar a imagem dos Estados Unidos no mundo, o que tem lhe
valido, mesmo entre públicos menos hostis, risinhos irônicos,
contestações inflamadas e até vaias. Situações
que enfrenta com os olhos azuis faiscantes de convicção
total na sua tarefa e o método de só focar nas mensagens
positivas. O que tem a dizer:
Veja O presidente
Bush que a senhora descreve em seu livro é um homem gentil,
confiável, engraçado. Por que ele tem uma imagem tão
negativa mundo afora, inclusive no Brasil?
Hughes Faz parte da realidade
que vivemos a crítica incessante da mídia a todos
os líderes de todos os governos, não apenas ao presidente
Bush...
Veja O presidente
do Brasil certamente concordaria com essa análise.
Hughes Não estou
dizendo isso para criticar os meios de comunicação,
cujo trabalho, em parte, é questionar. Mas gosto de lembrar
que um bombardeio tem muito mais espaço como notícia
do que a abertura de uma escola. E, a longo prazo, a abertura de
uma escola para meninas no Afeganistão, por exemplo, pode
ser mais importante para a sociedade. Mas notícia é
confronto, é controvérsia e isso é ressaltado
todo dia pela TV, pelas páginas de sua revista ou dos jornais.
Veja Tudo é
culpa da cobertura negativa?
Hughes A questão
é que ouvimos falar muito mais sobre as áreas de discordância.
No caso do Iraque, por exemplo. Sei muito bem que muita gente no
Brasil, e também o governo brasileiro, discordou de nossa
decisão a respeito do Iraque. O mesmo aconteceu em outros
países. Mas também houve quem concordasse conosco.
Sempre me impressionou o fato de que o presidente Bush, que é
republicano conservador, e o primeiro-ministro Tony Blair, um líder
trabalhista liberal, tivessem exatamente a mesma visão sobre
a questão do Iraque.
Veja Mesmo pessoas
que não foram contra a invasão do Iraque têm
dificuldade em entender a lógica por trás de certos
fatos. Um exemplo: antes da invasão americana, não
havia nenhuma atividade terrorista no Iraque; depois, o país
virou o epicentro do jihadismo à moda da Al Qaeda, sob a
vista das Forças Armadas americanas. Como é possível?
Hughes A Al Qaeda vinha
treinando durante anos, ao redor do mundo, para desfechar seus ataques
contra os Estados Unidos e o mundo civilizado. Devido à intervenção
no Iraque, eles se concentraram lá. Mesmo se não estivéssemos
no Iraque, a Al Qaeda estaria agindo em alguma outra parte. Eles
querem matar americanos, querem matar cristãos, querem matar
judeus e querem matar muçulmanos que não concordem
com eles.
Veja A questão
é exatamente essa: como eles podem agir de maneira tão
incessante, e tão livremente, num país sob a intervenção
do Exército mais poderoso do mundo?
Hughes Infelizmente, eles
são muitos e são bem treinados. Infelizmente, existem
jovens dispostos a se matar em atentados que tirem muitas vidas.
O que precisamos examinar são as razões que levam
um jovem a se sentir tão amargurado, tão ressentido,
tão desesperançado que se dispõe a se matar
com o propósito de causar a maior carnificina possível.
Isso não é normal. Foi isso que o presidente Bush
reconheceu quando disse que a política americana em relação
ao Oriente Médio foi, durante anos, ignorar a falta de liberdade,
acreditando-se assim que a estabilidade produziria segurança.
Depois do 11 de Setembro, ele percebeu que não poderíamos
continuar ignorando a falta de liberdade no Oriente Médio,
pois isso é o que produz condições tão
horríveis que levam pessoas a seqüestrar aviões
e se jogar contra prédios cheios de inocentes.
Veja Mas a situação
no Oriente Médio não parece ter melhorado nada. Um
dos problemas principais, a questão israelense-palestina,
até piorou. O que o governo Bush vai fazer?
Hughes Em primeiro lugar,
quero dizer que temos grande consideração pelo povo
palestino. Insistimos que vamos manter a ajuda humanitária
aos palestinos. O presidente Bush já deixou muito claro que
os Estados Unidos apóiam um Estado palestino, que viva em
paz ao lado de Israel. A solução dos dois Estados
tornou-se mais aceita ao longo do governo Bush. Nas eleições,
os palestinos votaram pela mudança. Ficou claro que querem
mudanças, que querem acabar com a corrupção.
Veja Querem
o Hamas, também, que ganhou a eleição.
Hughes Gostaria de lembrar que
os palestinos também votaram, um ano atrás, no presidente
Abbas. Agora, votaram no Hamas. Nós acreditamos que, para
cumprir as promessas feitas ao povo palestino, o Hamas precisa fazer
três coisas: renunciar ao terror e à violência,
reconhecer o Estado de Israel e se comprometer com um acordo (de
paz) já endossado no passado pelos palestinos.
Veja Como lidar
com o fato de que eleições em países do Oriente
Médio podem simplesmente substituir regimes autoritários
por repúblicas islâmicas?
Hughes Eleições
são importantes, mas são apenas uma parte do processo
democrático. Precisamos trabalhar para construir as instituições
que formam uma sociedade civil. Mas é muito difícil
fazer isso num regime autoritário, que não admite
liberdade de imprensa, de opinião ou de reunião nem
o pluripartidarismo. No Oriente Médio, estamos trabalhando
para abrir caminho para esse tipo de coisa, para que surjam uma
imprensa mais livre, organizações da sociedade civil
e grupos de promoção dos direitos da mulher. O presidente
Bush acredita que as mulheres serão um importante agente
de mudança no Oriente Médio. Estou vindo do Chile,
onde fui à posse da nova presidente (Michelle Bachelet).
Acho que ela pode dar um grande exemplo ao mundo todo. O pai dela
morreu na prisão; ela e a mãe foram presas e torturadas.
Mas, em vez de pregar que ódio com ódio se paga, ela
diz que a melhor maneira de superar isso é trabalhar em favor
do entendimento e da tolerância.
Veja O Chile
é um bom exemplo, pois talvez não exista outro país
no mundo que tivesse mais motivos para ser profundamente antiamericano,
pelas razões históricas que conhecemos, mas não
é isso que acontece. Qual o papel do desenvolvimento econômico
em face dos problemas que os Estados Unidos enfrentam nas relações
com outros países?
Hughes O desenvolvimento
econômico é muito importante, pois através dele
é que se realizam as promessas da democracia. É importante
que os Estados Unidos e o Brasil trabalhem em parceria para que
essas promessas se tornem realidade e não apenas para
as elites, mas para os pobres, para os destituídos e para
as minorias. Se conseguirmos demonstrar os benefícios da
democracia para todos, estaremos criando um foco de esperança
para o hemisfério e para o mundo.
Veja Existe
uma maneira correta de fazer oposição a líderes
profundamente antiamericanos como Hugo Chávez, na Venezuela,
e Evo Morales, na Bolívia, sem ao mesmo tempo atropelar a
vontade popular da maioria dos eleitores que votaram neles?
Hughes Obviamente, nós
gostaríamos que líderes eleitos democraticamente governassem
democraticamente, permitindo a liberdade de imprensa, de manifestação
e de opinião. Mas, como a secretária Condoleezza Rice
disse agora no Chile, estamos dispostos a trabalhar com governos
de todo o espectro político.
Veja A secretária
Rice também acabou de dizer que o Irã constitui atualmente
a maior ameaça aos interesses americanos. Retomando a questão
das contradições da invasão americana no Iraque:
ao abrir caminho à maioria xiita, cujos líderes religiosos
têm ligações estreitíssimas com o Irã,
esse país acabou sendo o grande beneficiado pela intervenção.
Qual é a lógica disso?
Hughes No Iraque, nós
também fizemos um grande e bem-sucedido esforço para
incluir representantes dos sunitas e dos curdos. Nas últimas
eleições, houve ampla participação de
todas as facções. Quanto ao Irã, estamos trabalhando
em conjunto com a comunidade internacional para enfrentar a ameaça
que ele representa. Acreditamos que um Irã dotado de armas
nucleares seria um fator desestabilizador para a região e
uma ameaça para o resto do mundo. Ninguém quer que
o Irã venha a ter armas nucleares.
Veja No entanto,
parece que é exatamente isso que eles pretendem fazer. Qual
é o próximo passo, para os Estados Unidos?
Hughes Estamos empenhados
em tentar resolver isso diplomaticamente, e é por isso que
vamos ao Conselho de Segurança da ONU. Este é o próximo
passo: ir ao Conselho de Segurança e ver o que ele pode fazer.
Veja Se a senhora
tivesse o poder de fazer qualquer coisa para melhorar a imagem dos
Estados Unidos no mundo, qual seria sua primeira medida?
Hughes Faria com que todas
as crianças do mundo tivessem acesso à educação.
Acredito realmente que, a longo prazo, a maneira de derrotar a ideologia
do ódio é através da educação
e das mentes abertas. Quem tem acesso à educação
aprende a pensar por si mesmo, a decidir por si mesmo, e sempre
acabará optando pela liberdade em lugar da tirania, pelo
estado de direito em vez de Estados policiais, pela diversidade
em lugar de um conformismo rígido. Os extremistas que enfrentamos
têm mente fechada, estão dispostos a matar quem não
concorda com eles. Queremos que as pessoas tenham capacidade de
decisão porque confiamos no poder da liberdade, da justiça
e da oportunidade para todos.
Veja Ainda assim,
vários dos responsáveis pelos atentados nos Estados
Unidos e na Europa tinham bom nível de instrução.
Alguns nasceram e foram criados em países europeus, no ambiente
mais livre que se possa imaginar. Optaram pelo outro lado na guerra
das idéias. Qual a iniciativa mais poderosa que pode ser
tomada para ganhar essa guerra?
Hughes Acho que talvez
seja dar força àqueles que, no interior das comunidades
muçulmanas, não acreditam que a violência seja
necessária para praticar a sua fé. A toda hora eu
tenho encontros com líderes muçulmanos, de todas as
partes do mundo, e muitos dizem que a sua religião não
prega a morte de inocentes, que é uma religião da
paz, que ensina que toda vida é preciosa. São eles
que podem difundir essa mensagem, não eu mulher, cristã
e representante do governo dos Estados Unidos. Por isso, é
importante lhes dar condições para que se façam
ouvir.
Veja A reação
negativa que levou ao cancelamento, contra a vontade do governo
Bush, do negócio que daria a uma empresa de Dubai o controle
das operações de importantes portos americanos prejudica
o esforço de aproximação com os muçulmanos
moderados?
Hughes Fiquei muito preocupada
com isso. Nós precisamos de amigos no mundo árabe,
no mundo muçulmano em geral. Todos ficamos preocupados com
o cancelamento da transação dos portos, pela mensagem
que pode passar. É muito importante que os Estados Unidos
forjem laços de amizade e alianças ao redor do mundo.
Veja O presidente
Bush provavelmente será julgado pela história por
um único critério: se, ao sair do governo, tiver deixado
um mundo mais seguro para os americanos. Quais as chances de que
isso venha a ser realidade?
Hughes Acredito que vai
acontecer. Se olharmos para os anos imediatamente posteriores à
II Guerra Mundial, a história parecia que ia ser muito diferente
do que sabemos que ocorreu, com o benefício da visão
retrospectiva. Entendo que o mundo hoje passa por momentos muito
conflitantes. Vimos, por exemplo, a alegria com que os iraquianos
foram às urnas e também os horrores do ataque à
mesquita de Samara. Se olharmos para o que está acontecendo
no mundo as mulheres conquistando o direito de votar e de
se candidatar no Kuwait, o povo do Iraque e do Afeganistão
votando , veremos que a liberdade está ganhando impulso.
Em última instância, numa democracia todo cidadão
tem um lugar à mesa, e isso significa que as democracias
são sociedades mais pacíficas. Veja o que ocorreu
neste continente: em 25 anos, passamos da era das ditaduras militares
e das guerras civis para, na maioria esmagadora dos países,
a dos governos democráticos e estáveis. Por isso,
acredito que as medidas tomadas pelos Estados Unidos para enfrentar
a ameaça terrorista e difundir a democracia resultarão
num mundo mais pacífico para nossos filhos.
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