Edição 1948 . 22 de março de 2006

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Entrevista: Karen Hughes
A guerreira de Bush

Assessora e amiga do presidente americano,
a subsecretária de Estado corre o mundo com
a difícil missão de melhorar a imagem dos EUA


Vilma Gryzinski

Rabih Moghrabi/AFP

"Nas democracias, todo cidadão tem um lugar à mesa, e isso faz delas sociedades mais pacíficas"

Karen Hughes é uma das amazonas do presidente americano George W. Bush, que gosta de se cercar de colaboradoras fortes e fiéis. No caso dela, a comparação com as guerreiras mitológicas é mais do que simbólica. Ela mede mais de 1,80 metro, calça 41 e tem uma capacidade de comando que já aterrorizou muitos marmanjos, tanto durante a primeira campanha presidencial de Bush quanto no período em que controlou ferozmente todo o esquema de comunicação social da Casa Branca. Apelidada de "Spice Girl", ela "largou tudo" em 2002 para voltar ao Texas porque o filho adolescente e o marido não se acostumavam à vida em Washington. Escreveu um livro, deu palestras e fez comida para a família até ser convocada pelo chefe e amigo, no ano passado. Retornou como subsecretária de Estado para Diplomacia Pública, com a missão – impossível, acreditam muitos – de melhorar a imagem dos Estados Unidos no mundo, o que tem lhe valido, mesmo entre públicos menos hostis, risinhos irônicos, contestações inflamadas e até vaias. Situações que enfrenta com os olhos azuis faiscantes de convicção total na sua tarefa e o método de só focar nas mensagens positivas. O que tem a dizer:

Veja – O presidente Bush que a senhora descreve em seu livro é um homem gentil, confiável, engraçado. Por que ele tem uma imagem tão negativa mundo afora, inclusive no Brasil?
Hughes – Faz parte da realidade que vivemos a crítica incessante da mídia a todos os líderes de todos os governos, não apenas ao presidente Bush...

Veja – O presidente do Brasil certamente concordaria com essa análise.
Hughes – Não estou dizendo isso para criticar os meios de comunicação, cujo trabalho, em parte, é questionar. Mas gosto de lembrar que um bombardeio tem muito mais espaço como notícia do que a abertura de uma escola. E, a longo prazo, a abertura de uma escola para meninas no Afeganistão, por exemplo, pode ser mais importante para a sociedade. Mas notícia é confronto, é controvérsia – e isso é ressaltado todo dia pela TV, pelas páginas de sua revista ou dos jornais.

Veja – Tudo é culpa da cobertura negativa?
Hughes – A questão é que ouvimos falar muito mais sobre as áreas de discordância. No caso do Iraque, por exemplo. Sei muito bem que muita gente no Brasil, e também o governo brasileiro, discordou de nossa decisão a respeito do Iraque. O mesmo aconteceu em outros países. Mas também houve quem concordasse conosco. Sempre me impressionou o fato de que o presidente Bush, que é republicano conservador, e o primeiro-ministro Tony Blair, um líder trabalhista liberal, tivessem exatamente a mesma visão sobre a questão do Iraque.

Veja – Mesmo pessoas que não foram contra a invasão do Iraque têm dificuldade em entender a lógica por trás de certos fatos. Um exemplo: antes da invasão americana, não havia nenhuma atividade terrorista no Iraque; depois, o país virou o epicentro do jihadismo à moda da Al Qaeda, sob a vista das Forças Armadas americanas. Como é possível?
Hughes – A Al Qaeda vinha treinando durante anos, ao redor do mundo, para desfechar seus ataques contra os Estados Unidos e o mundo civilizado. Devido à intervenção no Iraque, eles se concentraram lá. Mesmo se não estivéssemos no Iraque, a Al Qaeda estaria agindo em alguma outra parte. Eles querem matar americanos, querem matar cristãos, querem matar judeus e querem matar muçulmanos que não concordem com eles.

Veja – A questão é exatamente essa: como eles podem agir de maneira tão incessante, e tão livremente, num país sob a intervenção do Exército mais poderoso do mundo?
Hughes – Infelizmente, eles são muitos e são bem treinados. Infelizmente, existem jovens dispostos a se matar em atentados que tirem muitas vidas. O que precisamos examinar são as razões que levam um jovem a se sentir tão amargurado, tão ressentido, tão desesperançado que se dispõe a se matar com o propósito de causar a maior carnificina possível. Isso não é normal. Foi isso que o presidente Bush reconheceu quando disse que a política americana em relação ao Oriente Médio foi, durante anos, ignorar a falta de liberdade, acreditando-se assim que a estabilidade produziria segurança. Depois do 11 de Setembro, ele percebeu que não poderíamos continuar ignorando a falta de liberdade no Oriente Médio, pois isso é o que produz condições tão horríveis que levam pessoas a seqüestrar aviões e se jogar contra prédios cheios de inocentes.

Veja – Mas a situação no Oriente Médio não parece ter melhorado nada. Um dos problemas principais, a questão israelense-palestina, até piorou. O que o governo Bush vai fazer?
Hughes – Em primeiro lugar, quero dizer que temos grande consideração pelo povo palestino. Insistimos que vamos manter a ajuda humanitária aos palestinos. O presidente Bush já deixou muito claro que os Estados Unidos apóiam um Estado palestino, que viva em paz ao lado de Israel. A solução dos dois Estados tornou-se mais aceita ao longo do governo Bush. Nas eleições, os palestinos votaram pela mudança. Ficou claro que querem mudanças, que querem acabar com a corrupção.

Veja – Querem o Hamas, também, que ganhou a eleição.
Hughes – Gostaria de lembrar que os palestinos também votaram, um ano atrás, no presidente Abbas. Agora, votaram no Hamas. Nós acreditamos que, para cumprir as promessas feitas ao povo palestino, o Hamas precisa fazer três coisas: renunciar ao terror e à violência, reconhecer o Estado de Israel e se comprometer com um acordo (de paz) já endossado no passado pelos palestinos.

Veja – Como lidar com o fato de que eleições em países do Oriente Médio podem simplesmente substituir regimes autoritários por repúblicas islâmicas?
Hughes – Eleições são importantes, mas são apenas uma parte do processo democrático. Precisamos trabalhar para construir as instituições que formam uma sociedade civil. Mas é muito difícil fazer isso num regime autoritário, que não admite liberdade de imprensa, de opinião ou de reunião nem o pluripartidarismo. No Oriente Médio, estamos trabalhando para abrir caminho para esse tipo de coisa, para que surjam uma imprensa mais livre, organizações da sociedade civil e grupos de promoção dos direitos da mulher. O presidente Bush acredita que as mulheres serão um importante agente de mudança no Oriente Médio. Estou vindo do Chile, onde fui à posse da nova presidente (Michelle Bachelet). Acho que ela pode dar um grande exemplo ao mundo todo. O pai dela morreu na prisão; ela e a mãe foram presas e torturadas. Mas, em vez de pregar que ódio com ódio se paga, ela diz que a melhor maneira de superar isso é trabalhar em favor do entendimento e da tolerância.

Veja – O Chile é um bom exemplo, pois talvez não exista outro país no mundo que tivesse mais motivos para ser profundamente antiamericano, pelas razões históricas que conhecemos, mas não é isso que acontece. Qual o papel do desenvolvimento econômico em face dos problemas que os Estados Unidos enfrentam nas relações com outros países?
Hughes – O desenvolvimento econômico é muito importante, pois através dele é que se realizam as promessas da democracia. É importante que os Estados Unidos e o Brasil trabalhem em parceria para que essas promessas se tornem realidade – e não apenas para as elites, mas para os pobres, para os destituídos e para as minorias. Se conseguirmos demonstrar os benefícios da democracia para todos, estaremos criando um foco de esperança para o hemisfério e para o mundo.

Veja – Existe uma maneira correta de fazer oposição a líderes profundamente antiamericanos como Hugo Chávez, na Venezuela, e Evo Morales, na Bolívia, sem ao mesmo tempo atropelar a vontade popular da maioria dos eleitores que votaram neles?
Hughes – Obviamente, nós gostaríamos que líderes eleitos democraticamente governassem democraticamente, permitindo a liberdade de imprensa, de manifestação e de opinião. Mas, como a secretária Condoleezza Rice disse agora no Chile, estamos dispostos a trabalhar com governos de todo o espectro político.

Veja – A secretária Rice também acabou de dizer que o Irã constitui atualmente a maior ameaça aos interesses americanos. Retomando a questão das contradições da invasão americana no Iraque: ao abrir caminho à maioria xiita, cujos líderes religiosos têm ligações estreitíssimas com o Irã, esse país acabou sendo o grande beneficiado pela intervenção. Qual é a lógica disso?
Hughes – No Iraque, nós também fizemos um grande e bem-sucedido esforço para incluir representantes dos sunitas e dos curdos. Nas últimas eleições, houve ampla participação de todas as facções. Quanto ao Irã, estamos trabalhando em conjunto com a comunidade internacional para enfrentar a ameaça que ele representa. Acreditamos que um Irã dotado de armas nucleares seria um fator desestabilizador para a região e uma ameaça para o resto do mundo. Ninguém quer que o Irã venha a ter armas nucleares.

Veja – No entanto, parece que é exatamente isso que eles pretendem fazer. Qual é o próximo passo, para os Estados Unidos?
Hughes – Estamos empenhados em tentar resolver isso diplomaticamente, e é por isso que vamos ao Conselho de Segurança da ONU. Este é o próximo passo: ir ao Conselho de Segurança e ver o que ele pode fazer.

Veja – Se a senhora tivesse o poder de fazer qualquer coisa para melhorar a imagem dos Estados Unidos no mundo, qual seria sua primeira medida?
Hughes – Faria com que todas as crianças do mundo tivessem acesso à educação. Acredito realmente que, a longo prazo, a maneira de derrotar a ideologia do ódio é através da educação e das mentes abertas. Quem tem acesso à educação aprende a pensar por si mesmo, a decidir por si mesmo, e sempre acabará optando pela liberdade em lugar da tirania, pelo estado de direito em vez de Estados policiais, pela diversidade em lugar de um conformismo rígido. Os extremistas que enfrentamos têm mente fechada, estão dispostos a matar quem não concorda com eles. Queremos que as pessoas tenham capacidade de decisão porque confiamos no poder da liberdade, da justiça e da oportunidade para todos.

Veja – Ainda assim, vários dos responsáveis pelos atentados nos Estados Unidos e na Europa tinham bom nível de instrução. Alguns nasceram e foram criados em países europeus, no ambiente mais livre que se possa imaginar. Optaram pelo outro lado na guerra das idéias. Qual a iniciativa mais poderosa que pode ser tomada para ganhar essa guerra?
Hughes – Acho que talvez seja dar força àqueles que, no interior das comunidades muçulmanas, não acreditam que a violência seja necessária para praticar a sua fé. A toda hora eu tenho encontros com líderes muçulmanos, de todas as partes do mundo, e muitos dizem que a sua religião não prega a morte de inocentes, que é uma religião da paz, que ensina que toda vida é preciosa. São eles que podem difundir essa mensagem, não eu – mulher, cristã e representante do governo dos Estados Unidos. Por isso, é importante lhes dar condições para que se façam ouvir.

Veja – A reação negativa que levou ao cancelamento, contra a vontade do governo Bush, do negócio que daria a uma empresa de Dubai o controle das operações de importantes portos americanos prejudica o esforço de aproximação com os muçulmanos moderados?
Hughes – Fiquei muito preocupada com isso. Nós precisamos de amigos no mundo árabe, no mundo muçulmano em geral. Todos ficamos preocupados com o cancelamento da transação dos portos, pela mensagem que pode passar. É muito importante que os Estados Unidos forjem laços de amizade e alianças ao redor do mundo.

Veja – O presidente Bush provavelmente será julgado pela história por um único critério: se, ao sair do governo, tiver deixado um mundo mais seguro para os americanos. Quais as chances de que isso venha a ser realidade?
Hughes – Acredito que vai acontecer. Se olharmos para os anos imediatamente posteriores à II Guerra Mundial, a história parecia que ia ser muito diferente do que sabemos que ocorreu, com o benefício da visão retrospectiva. Entendo que o mundo hoje passa por momentos muito conflitantes. Vimos, por exemplo, a alegria com que os iraquianos foram às urnas e também os horrores do ataque à mesquita de Samara. Se olharmos para o que está acontecendo no mundo – as mulheres conquistando o direito de votar e de se candidatar no Kuwait, o povo do Iraque e do Afeganistão votando –, veremos que a liberdade está ganhando impulso. Em última instância, numa democracia todo cidadão tem um lugar à mesa, e isso significa que as democracias são sociedades mais pacíficas. Veja o que ocorreu neste continente: em 25 anos, passamos da era das ditaduras militares e das guerras civis para, na maioria esmagadora dos países, a dos governos democráticos e estáveis. Por isso, acredito que as medidas tomadas pelos Estados Unidos para enfrentar a ameaça terrorista e difundir a democracia resultarão num mundo mais pacífico para nossos filhos.

 
 
 
 
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