Notas para um dicionário brasileiro de política
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Em homenagem ao escândalo da prefeitura
de São Paulo, uma cândida repassada em verbetes
clássicos do gênero
Adhemarismo Conjunto das forças identificadas
com o político paulista Adhemar de Barros (1901-1969),
interventor no Estado (1938-1941), governador (1947-1951
e 1963-1966), prefeito da capital (1957-1961) e duas vezes
candidato a presidente (1955 e 1960). O adhemarismo inaugurou,
em São Paulo, o fenômeno a que os cientistas
políticos chamam de "populismo", caracterizado pelo
uso leviano dos poderes e dinheiros públicos e, sobretudo,
pelo talento ilusionista, levado a efeito com esbanjamento
de recursos cênicos, com que simula promover ações
em benefício dos deserdados enquanto trabalha para
o outro lado, ou para si próprio. "A administração
Adhemar de Barros caracterizou-se por extremo dinamismo
empreendedor, e por absoluto desprezo pelas limitações
de ordem financeira", escreveu Regina Sampaio, no livro
Adhemar de Barros e o PSP, a respeito da primeira
passagem do político pelo governo paulista. Estava
fixado um padrão destinado a longa vida, na política
paulista.
Caixinha Recursos de origem ilícita, amealhados
quer por um político, individualmente, quer por um
grupo, e usados, quer para desfrute pessoal, quer para o
financiamento de campanhas. O investidor Naji Nahas teria
aconselhado o prefeito Celso Pitta a "fazer uma caixinha",
segundo denúncia da ex-mulher do prefeito, para fazer
frente às despesas com advogados, nos processos que
fatalmente adviriam ao fim do mandato. Com isso o distinto
público ficou conhecendo mais uma utilidade das caixinhas.
O carinhoso hábito de empregar a palavra no diminutivo
filia-se à tendência, característica
do país, de encobrir magnos descalabros com pequenos
invólucros. Diz-se que fulano gosta de uma "pinguinha"
quando é um beberrão, pede-se um "favorzinho"
para pleitear privilégios descabidos, e afirma-se
que o funcionário deu uma "saidinha" para qualificar
as ausências mais inexplicáveis.
Esquema Organização destinada a
auferir vantagens por meio de práticas ilícitas.
Exemplos: o "esquema" dos fiscais, o "esquema" dos vereadores.
Nome virtuoso para quadrilha.
Malufar Verbo surgido durante a campanha de 1985,
em que concorreram para presidente, no colégio eleitoral,
Paulo Maluf e Tancredo Neves. Seu significado, embora impreciso,
teria algo a ver com subtrair-se ao respeito à lei
e aos bons costumes, bem como ao imperativo de inviolabilidade
do Erário.
Malufismo Conjunto das forças identificadas
com o político paulista Paulo Maluf, ex-prefeito
de São Paulo (1969-1971 e 1993-1997), ex-governador
(1979-1982) e duas vezes candidato a presidente (1985 e
1989). Titular de uma corrente que tem sua origem genética
no adhemarismo (vide verbete)
e outra vertente no janismo (derivado de Jânio Quadros,
1917-1992), mais uma importante manifestação
do populismo paulista. Um desavisado tomaria designações
como "malufismo" ou "janismo" por uma doutrina, como o "marxismo",
ou uma tendência histórica, como o "bonapartismo".
É mais um sinal dos poderes ilusionistas do populismo.
Mar de lama Expressão com que o jornal Tribuna
da Imprensa, então dirigido por Carlos Lacerda,
qualificou, em 1953, durante o segundo governo Getúlio
Vargas, a operação pela qual o Banco do Brasil
financiou o jornal governista Última Hora,
dirigido por Samuel Wainer. Passou depois a designar o ambiente
geral do governo Vargas. A senhora Pitta tem utilizado a
expressão para designar a gestão do marido.
Curioso é que o governo Vargas terminou em tragédia,
mas mar de lama mesmo, no sentido de roubalheiras e negociatas,
teve pouco. Ou nada, perto do que viria depois.
Pitta Sobrenome do prefeito de São Paulo.
Não virou, nem há indícios de que vá
virar, substantivo comum. Se virar, poderia designar alguém
que pensa que manda, mas na verdade executa ordens, ou cumpre
um script. Ou então alguém em quem outros
concentram a culpa de todo um "esquema" (vide
verbete), tal como os israelitas da Bíblia
descarregavam os pecados no bode expiatório (Lev,
16, 8-21).
Rouba mas faz Frase com que os correligionários
de Adhemar de Barros propagavam as virtudes do líder.
Em uso a partir da campanha de 1954 para o governo do Estado,
em que Adhemar foi derrotado por Jânio Quadros, traduz
uma das mais extravagantes manifestações da
prática política brasileira uma confissão
de delito, em primeiro lugar, e em segundo um apelo ao eleitorado
para que releve o referido delito e, ao fazê-lo, o
chancele. Mais surpreendente ainda é que o eleitorado
paulista tem dado reiteradas provas de que não é
insensível a tal apelo.
São todos iguais Frase com que se procura
igualar os políticos. Equivalente a "São todos
farinha do mesmo saco" e aparentada ao "Rouba mas faz" (vide
verbete), tem o objetivo de escamotear deficiências
de caráter e práticas desonestas. Ressalta
como evidência que, assim como os advogados, os jogadores
de futebol ou os pintores de parede, os políticos
não são iguais. Sempre que um eleitor pensa
que sim, a corrupção agradece.