Arroz, sorvete, pizza, biscoito...
A necessidade de comer o que vê pela
frente até
se empanturrar pode ser uma doença séria
Rachel Campello
Antonio Milena
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Adriana: regime quebrado
com assaltos descontrolados à geladeira
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Em dieta rigorosíssima para manter a forma e progredir
na carreira de modelo, a paulista Adriana Ogata acordou
certo domingo pronta para encarar mais uma jornada de alface
e filezinho grelhado. Lá pelo meio do dia, a disposição
foi por água abaixo. Primeiro Adriana comeu um bombom,
depois a caixa inteira. Motivada, preparou e devorou oito
cachorros-quentes e, em seguida, três panelas de pipoca.
Encerrou o banquete com duas fatias de pizza, enorme indisposição
e culpa monumental. Não foi a primeira nem a última
vez que embarcou em um festim do gênero. Adriana,
que hoje tem 26 anos e é advogada, sofre de "transtorno
do comer compulsivo", mal que afeta 2% da população
mundial e 15% das pessoas em dieta. Não se trata
aqui daquele assalto à geladeira que acomete de vez
em quando todo mundo que faz regime. O comer compulsivo,
assim diagnosticado quando ocorre no mínimo duas
vezes por semana, durante pelo menos quatro meses seguidos,
é distúrbio alimentar sério, primo
próximo da bulimia e da anorexia. Cerca de 60% das
vítimas conseguem tratar-se e mantê-lo sob
controle. Mas, enquanto dura, ele não só dilata
o estômago como provoca distúrbios cardiovasculares,
eleva a taxa de colesterol e aumenta a propensão
ao diabetes. Isso porque quem come compulsivamente é,
na imensa maioria dos casos, obeso. E obeso de difícil
trato, porque nesse caso fazer regime só agrava o
problema.
Jorge Butsuem
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"Grande ansiedade e stress podem provocar o distúrbio,
mas as dietas muito rigorosas são o fator que mais
favorece seu aparecimento", diz o endocrinologista carioca
Walmir Coutinho, que acaba de concluir uma tese de doutorado
sobre o assunto. Longos períodos de jejum provocam
a queda do nível de serotonina, substância
que atua no cérebro e regula a sensação
de saciedade e de apetite. Algumas pessoas compensam a deficiência
pondo-se a comer enormes quantidades de alimentos, praticamente
sem mastigar ou sentir o gosto. Os compulsivos vão
direto aos doces, carboidratos e alimentos gordurosos, que
estimulam a produção de serotonina. Comem
por comer, sem fome, até se sentir empanturrados.
"Eu passava do arroz para o doce, depois para fruta, leite,
refrigerante. Ficava na frente da geladeira e ia abrindo
tudo. Nunca me sentia satisfeita", conta Adriana, que teve
o primeiro surto em 1992 e se trata com terapia há
um ano e meio.
Da mesma forma que quem pratica o jejum radical da anorexia
e o vômito provocado da bulimia, as pessoas que comem
compulsivamente escondem seu hábito e têm vergonha
dele. Em geral se empanturram às escondidas, durante
a noite. "A pessoa se esconde porque é uma forma
muito feia de comer", relata o psiquiatra José Carlos
Appolinário, do Instituto de Psiquiatria da Universidade
Federal do Rio de Janeiro. "Levo um prato de comida, um
pacote de biscoitos, barras de chocolate e 1 litro de refrigerante
para o quarto. Lá, ninguém me vê comendo",
confirma a carioca Luciane Michel Ferreira, 23 anos, que
há seis anos ataca a geladeira pelo menos cinco vezes
por semana e só agora, pesando 103 quilos, resolveu
buscar tratamento. O processo envolve acompanhamento psicológico
e uso de antidepressivos. Cura total não existe,
mas é possível manter a compulsão sob
controle. "Trata-se de um problema crônico", explica
o endocrinologista Coutinho. "Estabelecer um controle já
é um grande avanço."