Edição 1 641 - 22/3/2000

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Arroz, sorvete, pizza, biscoito...

A necessidade de comer o que vê pela frente até
se empanturrar pode ser uma doença séria

Rachel Campello

 
Antonio Milena

Adriana: regime quebrado com assaltos descontrolados à geladeira

Em dieta rigorosíssima para manter a forma e progredir na carreira de modelo, a paulista Adriana Ogata acordou certo domingo pronta para encarar mais uma jornada de alface e filezinho grelhado. Lá pelo meio do dia, a disposição foi por água abaixo. Primeiro Adriana comeu um bombom, depois a caixa inteira. Motivada, preparou e devorou oito cachorros-quentes e, em seguida, três panelas de pipoca. Encerrou o banquete com duas fatias de pizza, enorme indisposição e culpa monumental. Não foi a primeira nem a última vez que embarcou em um festim do gênero. Adriana, que hoje tem 26 anos e é advogada, sofre de "transtorno do comer compulsivo", mal que afeta 2% da população mundial e 15% das pessoas em dieta. Não se trata aqui daquele assalto à geladeira que acomete de vez em quando todo mundo que faz regime. O comer compulsivo, assim diagnosticado quando ocorre no mínimo duas vezes por semana, durante pelo menos quatro meses seguidos, é distúrbio alimentar sério, primo próximo da bulimia e da anorexia. Cerca de 60% das vítimas conseguem tratar-se e mantê-lo sob controle. Mas, enquanto dura, ele não só dilata o estômago como provoca distúrbios cardiovasculares, eleva a taxa de colesterol e aumenta a propensão ao diabetes. Isso porque quem come compulsivamente é, na imensa maioria dos casos, obeso. E obeso de difícil trato, porque nesse caso fazer regime só agrava o problema.

 
Jorge Butsuem

"Grande ansiedade e stress podem provocar o distúrbio, mas as dietas muito rigorosas são o fator que mais favorece seu aparecimento", diz o endocrinologista carioca Walmir Coutinho, que acaba de concluir uma tese de doutorado sobre o assunto. Longos períodos de jejum provocam a queda do nível de serotonina, substância que atua no cérebro e regula a sensação de saciedade e de apetite. Algumas pessoas compensam a deficiência pondo-se a comer enormes quantidades de alimentos, praticamente sem mastigar ou sentir o gosto. Os compulsivos vão direto aos doces, carboidratos e alimentos gordurosos, que estimulam a produção de serotonina. Comem por comer, sem fome, até se sentir empanturrados. "Eu passava do arroz para o doce, depois para fruta, leite, refrigerante. Ficava na frente da geladeira e ia abrindo tudo. Nunca me sentia satisfeita", conta Adriana, que teve o primeiro surto em 1992 e se trata com terapia há um ano e meio.

Da mesma forma que quem pratica o jejum radical da anorexia e o vômito provocado da bulimia, as pessoas que comem compulsivamente escondem seu hábito e têm vergonha dele. Em geral se empanturram às escondidas, durante a noite. "A pessoa se esconde porque é uma forma muito feia de comer", relata o psiquiatra José Carlos Appolinário, do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro. "Levo um prato de comida, um pacote de biscoitos, barras de chocolate e 1 litro de refrigerante para o quarto. Lá, ninguém me vê comendo", confirma a carioca Luciane Michel Ferreira, 23 anos, que há seis anos ataca a geladeira pelo menos cinco vezes por semana e só agora, pesando 103 quilos, resolveu buscar tratamento. O processo envolve acompanhamento psicológico e uso de antidepressivos. Cura total não existe, mas é possível manter a compulsão sob controle. "Trata-se de um problema crônico", explica o endocrinologista Coutinho. "Estabelecer um controle já é um grande avanço."