Todos querem ser Cabral
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Comemorações dos 500 anos
incentivam muita gente a procurar laços de parentesco
com o descobridor do Brasil
Fabio Schivartche
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Pedro Álvares
Cabral e o brasão da família:
auto-exílio em Santarém |
O quinto centenário do descobrimento do Brasil despertou
um fenômeno inusitado, a vontade de ser Cabral. O
Instituto Genealógico Brasileiro, IGB, está
abarrotado de pedidos de comprovação de parentesco
com Pedro Álvares Cabral. Nos últimos cinco
meses, cerca de 100 solicitações chegaram
ao instituto, vindas de todos os cantos do país.
É muito além do movimento normal. Nos setenta
anos de história do IGB, uma instituição
paulistana especializada em esmiuçar a origem familiar,
foram emitidos 200 diplomas de descendência da família
do navegador português que descobriu o Brasil –
três, em média, por ano. Pedro Álvares
Cabral ficaria surpreso com tanta gente querendo ser seu
parente. Dono de um caráter irascível, logo
depois de descobrir o Brasil o navegador caiu em desgraça.
Brigou com o rei dom Manuel, desentendeu-se com Vasco da
Gama, deixou a corte e partiu para o auto-exílio
em Santarém, ao norte de Lisboa. Morreu, quase no
ostracismo, em 1520, aos 52 anos. Só três séculos
e meio depois de sua morte Cabral ganhou o devido reconhecimento
no rol dos grandes navegadores portugueses. É esse
herói que toda essa gente quer na família.
Para ser parente legítimo de Cabral, o descobridor,
não basta apenas o sobrenome. De Cabrais, o mundo
está cheio. O candidato a parente do navegador precisa
mostrar documentos que provem a descendência de Cabral
de Belmonte, a pequena aldeia quase na fronteira de Portugal
com a Espanha. Foi ali que tudo começou, em 1271,
com a fundação da Capela de Belmonte por Gil
Álvares Cabral, conforme relata o jornalista gaúcho
Walter Galvani no livro Nau Capitânia, a mais
minuciosa biografia já feita sobre o navegador português.
O nosso Cabral viveu em Belmonte até os 10 anos,
quando então, junto com o irmão mais velho,
João Fernandes, foi mandado para viver em Lisboa.
Há um mês, o advogado paulista Thiago Szolnoky
de Barbosa Ferreira Cabral e os quatro irmãos foram
diplomados descendentes "da família Cabral (de Belmonte),
a mesma do descobridor do Brasil", como se lê no certificado
do IGB. Aos 32 anos, o advogado é uma euforia só.
Orgulhoso, exibe o anel de ouro, com o desenho de duas cabras
– o brasão da família
de Cabral.
Os laços de Thiago com Pedro Álvares são
longínquos e um tanto quanto tortos. Depois de analisados
os documentos de dezesseis gerações, descobriu-se
que o advogado paulista é descendente de Diogo, irmão
bastardo do navegador. Pouco se sabe sobre Diogo. Os cronistas
portugueses divergem inclusive sobre quem seria sua mãe.
O que se sabe é que ele foi o primeiro dos onze filhos
de Fernão Cabral, o pai do descobridor do Brasil.
Confessor de dom Manuel, Diogo nem sequer foi chamado à
reunião da família para a divisão dos
bens depois da morte do patriarca em 1493. A imagem das
duas cabras decora a parede da sala de estar da empresária
Adriana Margarida Prestes Maia Fernandes, de 54 anos. Filha
de Francisco Prestes Maia, prefeito de São Paulo
por duas vezes (1938-1945 e 1961-1965), Adriana descobriu-se
recentemente uma genuína Cabral. O parentesco é
com Álvaro Gil, outro dos irmãos de Pedro.
Entre os novos Cabrais, alguns são mais Cabral
do que outros. Os que descendem diretamente de Pedro Álvares
contam vantagem sobre os outros, parentes dos irmãos
do navegador. Desde menina, a professora aposentada Maria
Lúcia de Souza Rodrigues, hoje com 56 anos, ouvia
os avós contar que os antepassados descendiam do
descobridor do Brasil. Com as comemorações
dos 500 anos, Maria Lúcia resolveu investigar a história.
Descobriu que a avó materna tinha laços remotos
com Constança de Castro, a mais velha das filhas
de Pedro e Isabel, morta em 1529. Quase cinco séculos
e dezoito gerações separam Maria Lúcia
de Constança. A passagem do tempo, neste caso, só
aumenta o encanto com o parente ilustre. "No fundo, essas
pessoas que buscam parentesco com o nosso descobridor querem
participar de uma fantasia", diz Carlos Eduardo Barata,
historiador e genealogista do Rio de Janeiro. "Comprovados
os laços de parentesco, é como se elas fizessem
parte da história das conquistas marítimas."
A corrida pela descoberta de laços familiares com
o navegador é um fenômeno tipicamente brasileiro.
Não ocorre em terras portuguesas o que acontece por
aqui. "No Brasil, a figura de Cabral tem uma carga simbólica
muito mais forte do que em Portugal", diz o diretor do Arquivo
Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, Bernardo da Silveira
de Vasconcelos e Sousa, de 43 anos –
também ele, um parente de Cabral via Fernando, o
primogênito do navegador. Não é para
menos. Cabral demorou muito a entrar na lista dos grandes
navegadores lusitanos. Lá, ele tem de rivalizar –
como o fez, aliás, em vida –
com Vasco da Gama. Descobridor do caminho marítimo
para a Índia, Gama é tido como o maior dos
navegadores portugueses.
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