Edição 1 641 - 22/3/2000

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Preconceito oficial

Documentos inéditos mostram como o Estado Novo
perseguiu os judeus e se inspirou
no nazismo
para abraçar a teoria anti-semita

Ronaldo França


O arquivo histórico do Itamaraty guarda 6 milhões de documentos. O acervo documental do Ministério da Justiça, enfileirado, se estenderia por 4 quilômetros. Para a maioria das pessoas, esses lugares não passam de depósitos de papéis empoeirados. Para os historiadores, são um poderoso arsenal de guerra. É lá que eles vão buscar armas para a batalha pela reconstituição da História. Às vezes, conseguem armamento de grosso calibre. É o que acontece agora, com a descoberta de dezenas de documentos sobre o anti-semitismo reinante no governo brasileiro durante o Estado Novo e nos anos mais duros da perseguição aos judeus pelo mundo. O comportamento de certas autoridades brasileiras do período está a anos-luz de distância das barbaridades produzidas nos campos de concentração europeus. Por meio desses documentos, no entanto, toma-se conhecimento de detalhes constrangedores sobre a disposição antijudaica nas altas esferas da ditadura Vargas. Desde o final dos anos 80, já se sabia que o Estado Novo fora anti-semita. Agora, com base nos documentos revelados por VEJA nesta reportagem, surgem histórias de discriminação e restrições aos judeus na prática. Quatro exemplos:

1. A troca de correspondências do Itamaraty, provando que o Brasil se omitiu na ajuda a 500 crianças judias ameaçadas de ser levadas a campos de concentração.

2. O texto e o dossiê que serviram de base à elaboração da Lei de Restrição à Imigração, cujo nome sugeria um tratamento igualitário entre estrangeiros, mas que era exclusivamente dirigida aos judeus, com um forte traço anti-semita.

3. Um estudo elaborado pelo encarregado de negócios da Embaixada do Brasil na Polônia, Jorge Latour, condenando a permissão aos vistos de judeus poloneses com argumentos que remetem à sua higiene e caráter.

4. Uma carta do diretor do Colégio Pedro II, no Rio, respondendo a um questionamento do ministro Gustavo Capanema, da Educação, sobre privilégios dados aos judeus e sua presença crescente na instituição.

 
Arquivo Lasar Segal
FGV/CPDD/Arq. família Vargas/Rep. Oscar
Chegada de judeus ao Brasil no Porto de Santos, nos anos 20; a partir de 1937, o governo implantou medidas restritivas que, na prática, criaram dificuldades à salvação de quem fugia do nazismo

A ditadura de Vargas (acima) fez emperrar na burocracia a ajuda a crianças refugiadas a que se refere o documento ao lado. Foi um ano e quatro meses de ofícios trocados até a carta que informa que o auxílio àquela altura não adiantaria

 

O Brasil fechou as portas a crianças
judias ameaçadas de ir para campos
de concentração

A lâmina fria da História expõe a intolerância do governo brasileiro num ofício do embaixador do Brasil na Inglaterra, Moniz de Aragão, datado de janeiro de 1944. Ele transmitia ao ministro das Relações Exteriores, Oswaldo Aranha, um pedido de ajuda feito pelo Comitê Inter-Governamental de Refugiados. O que se queria era asilo para 500 das cerca de 10.000 crianças judias, na maioria húngaras, que estavam na França naquele momento, fugindo da crescente ocupação nazista na Hungria. Eram órfãos de guerra que seriam deportados para a Alemanha caso não lhes fosse dado destino seguro. Aragão, mesmo não tendo simpatia por judeus, apelava para o sentimento humanitário do governo. Desde 1938, vários países estavam se mobilizando para a ajuda aos refugiados, expulsos de seus países pela dominação nazista. A imigração de judeus era regulada no Brasil por diversas circulares secretas, documentos que tinham força de lei, mas cujo acesso era limitado à alta burocracia do governo de Vargas. Com a vigência desses textos, a entrada de judeus no país era um processo lento, que se arrastava às vezes por anos. E a situação exigia pressa. No ofício, Aragão informava que, apesar dos esforços dos Estados Unidos e da Inglaterra, as crianças continuavam sendo "vítimas de toda sorte de privações e atrocidades e que já estariam sendo transportadas como animais para campos de trabalhos forçados na Alemanha e na Polônia, onde a maioria morre por falta de alimentação e excesso de trabalho".

O pedido gerou uma extensa correspondência que se arrastou por um ano e quatro meses, com solicitações de informações e avisos de providências, sem que nenhuma criança fosse resgatada. O último registro da situação das crianças húngaras se dá em abril de 1945, quando o embaixador informa o ministério que a ajuda, àquela altura, já não seria mais necessária. "Muitas delas certamente foram parar nos campos de concentração", afirma a historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, da Universidade de São Paulo, USP, que garimpou o ofício nos arquivos do Itamaraty. O documento é um dos que sustentam a tese de livre-docência que ela defenderá em agosto na USP. "O governo brasileiro foi omisso e essa postura acabou colaborando para os horrores do holocausto", diz.


Célio Apolinário

O ministro Gustavo Capanema, reconhecido como um incentivador das artes e dos intelectuais, cobrou explicações do diretor do Colégio Pedro II sobre a presença de judeus e o respeito aos feriados judaicos.

Francisco Campos eternizou seu anti-semitismo no documento de justificativa à restrição

Não é de hoje que a professora Maria Luiza surpreende com revelações desse tipo. Deve-se a ela o desmascaramento de um dos maiores engodos da história política brasileira. É de sua autoria o livro O Anti-semitismo na Era Vargas, no qual revelou, há 13 anos, o preconceito de Oswaldo Aranha contra os judeus. Consagrado por ter tido papel de destaque na votação que levou à criação do Estado de Israel, em 1948, Aranha foi desde então considerado amigo dos israelitas. Chegou a ser agraciado com a medalha Ben Gurion, alta distinção israelense. A célebre cena de Aranha batendo o martelo na Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, encerrando o ato que deu origem ao processo de formação do Estado de Israel, em 1947, era uma espécie de embuste histórico. Com seu primeiro trabalho, Maria Luiza demoliu a reputação do ministro e abriu caminho para a revisão do papel da ditadura de Vargas em relação aos judeus.

 

Ricardo Benichio

Tucci Carneiro e o documento que mostra o pedido de ajuda às crianças: foi ela que provou pela primeira vez a postura anti-semita de Oswaldo Aranha

Foi através do Itamaraty que o governo exerceu com mais vigor sua veia anti-semita. Desde 1937, vigorava no Brasil uma lei de restrição a imigrantes, principalmente refugiados. O historiador americano Jeffrey Lesser, um dos maiores especialistas no tema da imigração judaica, estima que nas décadas de 20 e 30 tenham entrado no país cerca de 57.000 judeus. Para tentar conter ainda mais esse movimento de entrada, foi decretada uma nova lei de imigração, em 1941. O texto do decreto foi elaborado pelo então Ministro da Justiça, Francisco Campos. "Chico Ciência", como era conhecido, carregava um currículo impressionante de serviços à ditadura. Foi ele o ideólogo do Estado Novo. É de sua lavra a Constituição de 1937, que deu sustentação legal ao regime. Para escrever sobre o problema dos imigrantes e refugiados, Campos preparou um alentado dossiê e o remeteu à apreciação de Vargas, junto com seu projeto. Essa é outra peça preciosa que surge na onda de novos documentos. Foi encontrada pelo pesquisador carioca Fábio Koifman nos arquivos do Ministério da Justiça. Com o título abrangente de Lei de Restrição à Imigração, é quase um manifesto de negação à imigração de judeus. De seus parágrafos saltam afirmações como: "Dessa massa de judeus podem sair bons cidadãos, mas sai também com freqüência a maior parte dos números de certas estatísticas criminais". Desde o início do movimento mais intenso de imigração judaica para o Brasil, no final da década de 20, houve um alvoroço entre os nacionalistas e xenófobos em geral, preocupados com a forma como seus lugares estavam sendo tomados no mercado de trabalho. Essa preocupação é evidenciada no documento de Campos. Não tivesse a letra de próprio punho de Vargas em uma das folhas, a documentação mais lembraria a ata de uma reunião de condomínio, tamanha a irrelevância de certos argumentos.

Leis de restrição à imigração foram criadas visando somente segregar os refugiados judeus

Há ali, por exemplo, entre os anexos, o convite à apresentação da orquestra infantil da Escola Nacional de Música da então Universidade do Brasil. Campos grifou cuidadosamente todos os nomes de provável origem semita para exemplificar o perigo que lhe parecia a forte presença de filhos de judeus e seus acordes ameaçadores. Outro anexo é um edital de convocação de aprovados em concurso público para oficial administrativo do governo. O ministro, além de identificar os supostos nomes de judeus, criou um método para classificá-los segundo a probabilidade de serem mesmo israelitas. Quando tinha certeza de se tratar de um judeu, cravava seu nome com três asteriscos. Era a forma de indicar a inquestionável presença judia em meio ao grupo. A outros reservava apenas uma interrogação. O que assustava os teóricos do Estado Novo, afora a presença cada vez maior na sociedade, era a visível qualidade da formação educacional dos judeus que se transferiam para o país fugindo do nazismo. Além do fato de que muitos intelectuais de origem judaica traziam da Europa forte identificação com as idéias esquerdistas, que causavam urticária em quase todos os expoentes do Estado Novo.

Era grande a preocupação entre os judeus que seus filhos tivessem boa educação. Muitos foram matriculados no Colégio Pedro II, no Rio, a instituição que simbolizava o modelo de educação brasileira desde o século XIX. O colégio não ficou imune à pressão anti-semita. É o que demonstra um outro documento ainda inédito, obtido pelo historiador carioca Orlando de Barros. Trata-se de uma carta enviada pelo então diretor do Pedro II, Fernando Raja Gabaglia, ao ministro da Educação, Gustavo Capanema. Nela, Gabaglia responde a um questionamento do ministro sobre a presença de alunos de origem semita na instituição.

Documentos desse tipo são primorosos em sua capacidade de desnudar biografias e desfazer mitos. Gustavo Capanema ocupou o cargo de ministro da Educação de Vargas por onze anos. Construiu, durante sua vida pública, uma sólida imagem de grande agregador de talentos. Foi mecenas do pintor Cândido Portinari. Incentivou promessas como o arquiteto Oscar Niemeyer, então um iniciante. Contratou obras do urbanista Lúcio Costa, que mais tarde faria o Plano Piloto de Brasília. Mesmo sendo autoridade em uma ditadura de influência nazi-fascista, cercava-se de comunistas e liberais. Seu chefe de gabinete era o poeta Carlos Drummond de Andrade.

Por isso mesmo é surpreendente a revelação de que Capanema enviou um ofício a Gabaglia questionando a mudança do dia de uma prova em razão do feriado judeu do Yom Kipur, o mais importante dos dias sagrados judaicos. O ministro solicitou ainda uma lista com os nomes dos alunos de origem semita e pediu que fosse calculado qual o porcentual de sua presença no colégio. Capanema soube do adiamento da prova por meio de uma denúncia anônima que mencionava dezoito irregularidades na instituição. "O único ponto que lhe chamou a atenção foi o que mencionava a deferência dada aos dias sagrados judaicos. Isso é um traço de anti-semitismo comum aos integrantes do Estado Novo", afirma Barros, doutor em história social pela USP.

 
As teses anti-semitas proliferam em setores do governo durante a ascensão do nazismo

Os burocratas do Estado Novo não rejeitavam judeus apenas porque não gostavam deles. Baseavam-se numa argumentação teórica rastaqüera, mas muito em voga naquele tempo. O pilar principal era o projeto de povoamento do Brasil, executado pelo Conselho de Imigração e Colonização, um órgão da estrutura do Itamaraty, mas diretamente subordinado à Presidência da República. Postulava-se a formação de uma nação que tivesse um padrão sociocultural mais elevado. Esse projeto, levado adiante por Vargas, era uma versão melhorada das idéias de branqueamento, que estiveram presentes nas discussões sobre imigração desde o século XIX. Buscavam-se os estrangeiros brancos, de boa formação e provenientes de culturas consideradas superiores. "É fácil hoje, quando se tem uma tendência multiculturalista, reduzir e ridicularizar certas atitudes", afirma o cientista político carioca Marcos Chor Maio, da Fundação Oswaldo Cruz. "Mas devem-se levar em conta os fatos conjunturais e a ideologia reinante na época."

Os teóricos dessa política, seguindo as idéias deterministas e darwinianas vigentes na Europa nazista, acreditavam na existência de raças e culturas mais avançadas no processo evolutivo. Para se habilitar a um visto de entrada no país, valendo-se do sistema de cotas vigente desde 1934, qualquer estrangeiro deveria preencher alguns requisitos básicos. Eram mais bem-aceitos os que se dispunham a trabalhar no campo, para onde estavam sendo mandados 80% de todos os imigrantes que entravam no país. O candidato também deveria ter comprovada capacidade de adaptação à cultura brasileira.

Eram justamente esses os dois pontos que criavam dificuldades aos judeus. Primeiro porque, por formação, a maioria era composta de trabalhadores urbanos. E culturalmente eram vistos como inadaptáveis, por manterem inalteradas suas tradições e costumes mesmo quando vivendo em outros países. Por mais que a compreensão exata da história deva realmente merecer uma avaliação isenta, e levar em conta a precariedade do arsenal teórico de que se dispunha, é impossível atenuar a crítica sobre o anti-semitismo. Seria tolice equivalente a achar que o papa João Paulo II não deveria pedir desculpas públicas pelos erros cometidos pela Igreja Católica através da história, simplesmente porque esses erros foram cometidos em épocas com mentalidade diferente da atual.

A visão sobre os judeus foi muito prejudicada no Brasil pelos comunicados das representações diplomáticas do país. É o que mostra um documento encontrado pela professora Maria Luiza, elaborado pelo então encarregado de negócios da embaixada do Brasil em Varsóvia, na Polônia, Jorge Latour. Em 1936, pouco antes da criação do Estado Novo, Latour escreve ao ministro das Relações Exteriores, José Carlos de Macedo Soares, um dos mais inflamados libelos anti-semitas já encontrados no Brasil. Intitula-se "A emigração israelita da Polônia para o Brasil — Considerações inatuais e observações atuais a propósito deste mal". Nele se podem ler pérolas como "só a questão judaica é insolúvel. É o quisto irredutível no seio dos povos em evolução (...) É inegável que o judeu passou à posteridade como sinônimo de ave de rapina, ganancioso, usurário. Seria isso um simples erro de apreciação da humanidade, que ela insiste em manter gratuitamente?". O diplomata fala a seu chefe sobre uma inevitável "desforra final do povo eleito". Seria apenas uma das muitas sandices de um anti-semita exaltado se o documento não servisse de referência para o desenvolvimento de diversos outros trabalhos e despachos sobre a questão naquela época. Trechos inteiros dele são encontrados em trabalhos produzidos por outros ministérios.

Em 1937, para justificar seu preconceito contra os judeus poloneses, Jorge Latour faz um levantamento fotográfico do gueto de Varsóvia. Das imagens que capta extrai observações como "esta legação é testemunha das dificuldades de ordem racial, social, econômica e higiênica que representa para a Polônia o elemento israelita". As nove fotos e o documento estão lá no arquivo do Itamaraty. Sua simples existência, agora revelada, demonstra como o preconceito da época deitou raízes abaixo do Equador.

 

Holocausto não sensibilizou o governo


Selmy Yassuda

Judeus no gueto de Varsóvia: fotos usadas
como argumento contra os israelitas no
estudo que é o maior libelo anti-semita
já visto no país, feito por Jorge Latour


Os arquivos
do Itamaraty, no Rio de Janeiro, mostram que o anti-semitismo persistiu depois da II Guerra. Em 1947, dois anos depois de o mundo ter descoberto em sua plenitude os horrores cometidos durante o holocausto, com a abertura dos campos de concentração, o Brasil continuou restringindo a entrada de judeus refugiados. A evidência, encontrada pela professora Maria Luiza Tucci Carneiro, está registrada na circular secreta número 589, assinada pelo presidente do Conselho de Imigração e Colonização, João Alberto Lins de Barros. Foi durante o governo democrático do presidente Eurico Dutra. O documento instrui os consulados do Brasil sobre a concessão de visto em passaportes.

No item B de suas disposições está escrito, secamente: "Não visar passaportes de judeus". Uma instrução simples, cujo maior efeito foi prejudicar milhares de pessoas. Mesmo após se ver livres, em 1945, muitos judeus tiveram de continuar morando nos campos de concentração, por absoluta falta de lugar melhor. Essa situação perdurou até 1948 e foi o que o cientista político Marcos Chor Maio classifica como um dos momentos mais angustiantes da história do holocausto. "Era um jogo de empurra, sem que se soubesse o que iria ser feito com aquele monte de gente", diz. O governo Dutra não teve dúvidas quanto a essa questão. Simplesmente fechou as portas.

Dutra: mesmo depois de o mundo inteiro saber sobre as atrocidades dos nazistas, ele manteve as restrições aos judeus, como se lê no ofício aos diplomatas



Schindler brasileiro
Oscar Cabral

Souza Dantas: sua história de ajuda aos que fugiam do horror na Europa o compara ao industrial alemão retratado no filme A Lista de Schindler, do diretor Steven Spielberg


Luís Martins de Souza Dantas, embaixador do Brasil na França entre 1922 e 1943, era bem recebido nos salões da sociedade parisiense e amigo de artistas e intelectuais. Mas não é por nenhum desses atributos que aqui se fala dele. Souza Dantas desafiou, ao mesmo tempo, a ditadura do Estado Novo e a fúria nazista para salvar a vida de pelo menos 400 judeus aos quais forneceu visto de entrada no Brasil. A estimativa é do pesquisador carioca Fábio Koifman, que baseou sua dissertação de mestrado — a ser defendida em junho, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro — na vida do embaixador e em sua atuação na França durante a dominação nazista. Aos 400 nomes já encontrados, Koifman acredita que se somem outros 400.

Com essa extensa folha de serviços, Souza Dantas poderia ser comparado ao industrial alemão Oskar Schindler, que ajudou a salvar da morte 1.200 judeus durante a guerra. O relato das façanhas do embaixador brasileiro é especialmente saboroso quando se conhecem as manobras que utilizou para retirar o maior número possível de refugiados da França ocupada. Para driblar as exigências das circulares secretas do governo Vargas, ele assinou passaportes para refugiados usando datas anteriores à vigência das normas que restringiam a entrada de judeus no Brasil. Também chegou a fornecer visto a quem não tinha sequer passaporte. Diversas vezes advertido por esses procedimentos benevolentes, acabou sofrendo um processo administrativo, por ordem do próprio Getúlio Vargas. A demissão só não ocorreu porque quando se chegou à fase das conclusões Souza Dantas já estava tecnicamente aposentado.

Até hoje, os primeiros relatos do holocausto conhecidos datavam de 1942. Um documento inédito, garimpado por Koifman, prova que em novembro de 1940 o diplomata brasileiro enviou o primeiro alerta de que se tem notícia sobre a selvageria nazista que estava em curso. Dizia o seguinte: "Há verdadeiro êxodo para fugir à fome, ao frio e à miséria nos campos de concentração e a outros horrores (...) Não sendo permitido aos estrangeiros trabalhar aqui, se não possuírem meios de subsistência, são internados imediatamente nos campos de concentração, que bem poderiam figurar no capítulo do Inferno de Dante". O aviso do diplomata, como se sabe, não mudou a orientação da ditadura de Vargas em relação aos judeus. Mas mostra que, entre os funcionários do governo brasileiro, havia gente atuando do lado do bem.


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