Edição 1 641 - 22/3/2000

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Retrato de uma família
estilhaçada

Sexo, poder e dinheiro: a fórmula explosiva
que conduziu às denúncias contra Celso Pitta

Daniela Pinheiro

São duas as atitudes mais freqüentes nas pessoas que se envolvem em esquemas como esse que corrói as entranhas do poder de São Paulo. O silêncio e a locupletação. Não foi o caminho escolhido por Nicéa Pitta. Embora tenha presenciado cenas de maracutaias, a ex-primeira-dama municipal optou por abrir mão de uma vida financeiramente promissora para mergulhar no inferno. Deixou para trás a paparicação das senhoras da alta sociedade, dos ambientes de luxo, dos empresários, dos lobistas, das viagens internacionais, dos presentes caros e do dinheiro fácil. Vai agora enfrentar incontáveis processos por calúnia, injúria e difamação movidos por gente atingida pelas denúncias que fez contra a administração do marido e os vereadores da cidade. Na semana passada, já eram quatro os processos contra ela. Vai ser pedagógico analisar o impacto das denúncias de Nicéa sobre o futuro da política paulista. Tão interessante quanto isso é conhecer as razões que levam uma pessoa a romper com o próprio passado. No caso de Nicéa, a decisão de fazer a denúncia mistura aqueles três reagentes que, uma vez combinados, formam uma solução explosiva: dinheiro, poder e sexo.


Reuters


Os Pitta levavam uma vida de fartura, que veio à tona numa seqüência de denúncias. Como prefeito, ele tem direito a um salário de 6.500 reais, mas sua família vive como se a renda doméstica fosse seis vezes maior. É isso mesmo: 40.000 reais por mês. Façam-se as contas. Em 1998, acusado de ter realizado negócios lesivos à cidade quando era secretário das Finanças de Paulo Maluf, ficou com os bens indisponíveis por força de uma decisão judicial. Socorreu-se com um empresário amigo. "Ele disse que estava em dificuldades financeiras e me pediu ajuda", afirma o empresário em questão, Jorge Yunes, dono da Companhia Editora Nacional. Yunes lhe emprestou 600.000 reais. Não foi o bastante. Seguiu-se outro empréstimo, de 200.000 reais. O empresário também deu uma assistência a Nicéa. Durante dois anos, ela recebeu mesada como se lhe prestasse serviços de consultoria no mercado de arte. Indicava pessoas que tinham peças para vender. Ele lhe pagou, em 1998, 150.000 reais. Yunes informa ter usado seus serviços uma ou duas vezes. Para que os números fiquem mais claros: os Pitta devem a Yunes quase 1 milhão de reais, sem contar os juros.

Vinte milhões na conta O prefeito não vê nada de errado nessa situação, o que é fabuloso. Tão incrível quanto isso é a eterna disposição de Yunes em financiar o prefeito. "Eu não poderia deixar de atender um amigo", explica. Yunes é dono de uma das mais suntuosas propriedades de São Paulo, um palácio com 4.000 metros de área construída. Erguida na década de 30, ficou conhecida como Casa da Manchete depois de ser comprada por Adolpho Bloch. Foi ali que, em 1976, o ex-presidente Juscelino Kubitschek dormiu sua última noite. Em seu palácio, Yunes possui um dos mais significativos acervos de arte do país, com cerca de 1.400 quadros. Tem tanto dinheiro que, apenas num banco, o Banco do Brasil, mantém 20 milhões de reais. Yunes é braço do esquema político de Paulo Maluf e foi caixa da campanha de Celso Pitta. Procurado sistematicamente por empresários em busca de contato com o gabinete do prefeito, Yunes informa que ouve todos os pleitos, mas só dá curso a pedidos honestos. Certa vez, recebeu a visita de empresários do setor de transportes, que têm uma dívida a receber da prefeitura no valor de 1 bilhão de reais. Como o dinheiro não saía, ofereciam um estímulo aos cofres públicos: 30% de desconto. Yunes achou o pedido honesto e levou o caso a Pitta. "Fiz apenas uma consulta ao prefeito, havia várias testemunhas e Pitta disse que não faria o negócio", recorda-se Yunes.

 
Paulo Pinto/AE

O empresário Jorge Yunes:
1 milhão de reais para Pitta


O prefeito promete pagar o que deve a Yunes, centavo por centavo. Como todo o seu patrimônio declarado não chega a 1 milhão de reais, é de se perguntar com que dinheiro ele vai honrar os pagamentos. Ele explica: "Quando sair da prefeitura certamente não terei um emprego de apenas 6.000 reais. Daí, vou pagá-lo". Como se vê, o casal não precisou se preocupar com dinheiro desde que entrou na vida pública. Tudo mudou na hora da separação. Segundo o relato de Nicéa, Pitta lhe ofereceu um acordo financeiro generoso "por baixo dos panos". O prefeito desmente e alega que o pedido de dinheiro partiu de sua ex-mulher. Os dois confirmam que o último encontro que tiveram ocorreu no sábado de Carnaval, no flat onde mora o prefeito. Ele foi testemunhado pela empregada Maria Fernanda dos Santos, 64 anos, que trabalhava na casa dos Pitta e se mudou com o prefeito para o flat. "Quando ele abriu a porta, dona Nicéa jogou uma sacola com um pijama velho na cara dele e ficou gritando: 'Negro safado, toma aí o que você esqueceu na minha casa. Eu não quero nada seu, eu só quero o meu dinheiro, safado. E eu quero muito dinheiro. Eu não vou te deixar em paz!'.", conta ela. O casal não chegou a um acordo. Pitta diz a amigos que foi isso que motivou a entrevista com as denúncias da ex-mulher à televisão.

Disputa pelo poder Dias antes do depoimento levado à TV, o filho do prefeito, Victor, foi procurar o pai na prefeitura e também tratou de dinheiro. Exigiu que lhe fossem entregues 150.000 reais. "Mas por que um garoto da sua idade (Victor tem 25 anos) precisa de tanto dinheiro?", perguntou o prefeito. Diante da resistência do pai em dar o que ele pedia, Victor teve um acesso de fúria testemunhado por várias pessoas e quebrou objetos de uma sala contígua ao gabinete. Para evitar que a cena se repetisse, Pitta ordenou à segurança que proibisse a entrada do filho na prefeitura.

 
Montagem de Fabio Victor sobre foto de
Egberto Nogueira
O clã dos Pitta: lar desestruturado, ofensas pessoais e agressões físicas


Embora o casamento de Pitta e Nicéa só fosse explodir recentemente, chamava a atenção a forma como o casal divergia na política. Ela nunca se conformou em ser "apenas" uma primeira-dama. Queria mandar. Ligava para secretários fazendo pedidos. Tinha sua própria lista de nomeações, cobrava do marido a demissão de assessores e queria dar orientações partidárias. Uma de suas cobranças mais freqüentes era em relação a um rompimento com Paulo Maluf. Pitta, por sua vez, jamais aceitou que ela desse as cartas. Os dois alimentavam uma disputa pelo poder. O ambiente se agravou em agosto do ano passado, quando Pitta trocou a direção da entidade que cuida da assistência social sem consultá-la. Fez isso sabendo que Nicéa queria ela própria ocupar o posto. A decisão fez com que a ex-primeira-dama se mudasse para Nova York, onde ficou quatro meses em companhia da filha, Roberta. De lá, passou a bombardear o marido em seguidas entrevistas. Numa delas, chamou Pitta de "mesquinho" e "egoísta" e o acusou de ser mulherengo. Para quem já havia dito que daria a própria vida para provar a honestidade do marido, foi uma mudança e tanto.

Mônica sem charuto O fantasma da traição sempre perturbou o imaginário de Nicéa Pitta, desde o namoro. O prefeito dá razões para isso. É um homem atraente, elegante e educadíssimo. E sempre exerceu certo fascínio nas mulheres. Nicéa tem convicção de que Pitta viveu várias aventuras amorosas e já contou aos filhos que, como resultado de um desses relacionamentos, o prefeito teria tido dois outros filhos. Na semana passada, uma onda de boatos dizia que o prefeito teria viajado a Paris no Carnaval em companhia de uma loira. Viajar, não viajou. Mas jantou com uma, muito famosa na sociedade paulistana, num dos restaurantes mais estrelados da cidade, La Tour d'Argent. Lá, uma refeição para dois não sai por menos de 500 dólares. Foi Pitta (ops, Yunes) quem pagou a conta. A loira em questão é Marina de Sabrit, 47 anos, 1,75 metro, 66 quilos, casada. "Ainda bem que meu marido é francês e não tem essa cabeça mesquinha de macho brasileiro. Ele sabe que fui jantar com um amigo", diz. Pitta e Marina haviam se encontrado em duas ocasiões. Neo-solteiro, o prefeito esteve em dezembro do ano passado numa festa-surpresa para a socialite. Depois, ligou e convidou-a para almoçar. Temendo ser alvo de fofocas, levou um amigo. Nesse almoço, Marina contou que viajaria a Paris. Pitta soltou a frase: "Que coincidência..." E contou que também estaria por lá para um encontro de prefeitos.

Existe outra loira na vida do prefeito, de quem Nicéa sempre desconfiou: sua secretária particular, Marlene Beteghelli. Aos 44 anos, 1,76 metro de altura, 59 quilos, ex-miss Araras (cidade do interior paulista), Marlene é a faz-tudo do prefeito. Pelo menos uma vez por semana, vai ao flat onde Pitta mora. Foi ela quem ajudou na decoração e arrumou as roupas do prefeito no armário. "Não sou namorada dele e não sei de onde tiraram essa história", afirma. Aos amigos, Pitta diz que não tem loira alguma no pedaço. "Por que não pode ser morena?", brinca. Pode. Pitta andou de paparico com uma morenaça chamada Mônica Ribas Maino, 33 anos, 1,65 metro, 56 quilos. Quando perguntam sua profissão, responde rápido: professora e psicóloga. Mônica foi várias vezes ao gabinete do prefeito, mas garante que nunca houve nada além de longas conversas. "O gabinete não é o Salão Oval e lá não tinha charutos", diz a brincalhona.


Eduardo Albarello

Claudio Rossi

Antonio Milena

No sentido horário, a socialite Marina de Sabrit, com quem Pitta jantou em Paris, a secretária Marlene Beteghalli, que arruma seus guarda-roupas e ajudou na decoração do flat, e a professora Mônica Ribas: bonitas e atraentes, elas negam envolvimento com o prefeito


Essa composição química envolvendo dinheiro, poder e sexo atuou sobre um relacionamento fragilizado. Como todo casamento, os Pitta atravessaram diversos altos e baixos. O que incomodava os dois era a intensidade em que isso acontecia nos últimos tempos. As sucessivas denúncias de corrupção na prefeitura levaram a crise para dentro de casa. É normal que problemas graves no ambiente de trabalho conduzam a uma crise doméstica. Há estudos sobre o impacto negativo da demissão e da falência na vida conjugal. Em raras ocasiões, como aconteceu com Fernando Collor e Rosane, o casal se une na crise. No caso dos Pitta, conforme as denúncias avançavam, o clima tornou-se irrespirável. "Eu ligava a TV e via meu nome na lama e não era defendida por meu marido", disse Nicéa, numa entrevista dada no final do ano passado. "Tive meus filhos me apoiando, senão, sei lá, poderia até ter me matado." Embora seu temperamento seja o oposto do de Nicéa, o fleumático prefeito analisa os episódios sob o mesmo prisma da ex-mulher. "Eu ficava até altas horas na prefeitura e quando chegava em casa ainda escutava broncas da minha mulher, dizendo que errei aqui, que errei ali. Foi ficando insuportável", contou a um interlocutor na semana passada.


Ricardo Benichio

Maria José e Maria Fernanda: testemunhas das brigas do casal


Brigas feias
O carinho deu lugar à distância. A vida sexual, que era mantida numa média de três relações por semana, desapareceu. O respeito foi substituído por ofensas de ordem pessoal. Em mais de uma discussão, Pitta chamou sua mulher de "louca". Nicéa respondia com "idiota". Numa das brigas, Nicéa jogou um vaso de porcelana chinesa no marido. Em outra, um castiçal de prata portuguesa. Felizmente, errou. Nos últimos tempos, o grau de desgaste era tamanho que já não mediam mais as palavras. "Ajoelha e pede perdão!", disse Nicéa numa dessas brigas. Os filhos não suportavam mais as discussões. Em certa ocasião, na tentativa desesperada de acabar com os gritos, Victor disse que se suicidaria. O pai estava em Brasília e a mãe ameaçava segui-lo para fazer um escândalo. "O Victor foi para o quarto e ficou gritando que estava com a arma do pai apontada para a cabeça. E que, se a mãe dele fizesse alguma coisa, ele se dava um tiro", afirma a empregada Maria Fernanda dos Santos, que presenciou a cena. Muitas das discussões foram testemunhadas por Maria Fernanda e por sua colega Maria José de Melo, de 47 anos. Na discussão final, a que fez o prefeito tomar a decisão de sair de casa, Nicéa ameaçou cortar todas as mangas e pernas de seus ternos. "Essa mulher quer me deixar só de cuecas", disse Pitta a um amigo. Mudou-se levando quase todos os seus ternos intactos.

Maria José recorda-se de uma briga marcante: em que Nicéa trancou Pitta no apartamento. "Ela levou todas as chaves e ele teve de sair pela janela. O doutor Celso pulou da janela do 1º andar", conta. O pedido de separação deu entrada na Justiça em 9 de novembro do ano passado. A tempestade pública só ocorreria em março. Demorou, mas explodiu com o fulgor de raios e o ribombar de trovões. Comprovando, mais uma vez, a verdade daquela famosa citação: "O céu não conhece ira como a do amor transformado em ódio nem o inferno fúria como a da mulher desprezada".

Com reportagem de Alecsandra Zaparolli, Fabio Schivartche,
Iracy Paulina e Ricardo Valladares