Edição 1 641 - 22/3/2000

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Os pronomes e a Rússia

 

 

Ilustração Mirian Duenhas

Acho que a culpa é do meu futuro filho, que nasce em outubro. A paternidade pegou-me de surpresa. Deixou-me num momentâneo estado de desordem mental. Até escrevi um artigo sobre isso algumas semanas atrás. A tal propósito, nunca recebi tantas cartinhas malcriadas dos leitores. Bati todos os meus recordes. Foram centenas de insultos. Tudo por causa da minha estúpida idéia de falar dos sentimentos ambivalentes que o nascimento de um filho pode provocar. Houve quem desejasse que a criança nascesse com deformidades físicas. Houve quem ameaçasse ligar para o juizado de menores a fim de tirar o filho de mim. Houve quem sugerisse que a minha mulher me abandonasse. Houve quem desconfiasse maliciosamente de que o filho nem era meu. O engraçado é que os autores dessas cartinhas agourentas apresentavam-se como ferrenhos defensores da unidade familiar.

O aspecto que mais me interessou nessa correspondência, porém, foram os pronomes. Nós, brasileiros, temos sérias dificuldades com pronomes. Os meus correspondentes, na maioria dos casos, começavam se dirigindo a mim com um respeitoso "senhor". Depois de umas poucas linhas, passavam informalmente para "você". A certa altura, escapava-lhes a segunda pessoa do singular, algo como "o teu filho". Vocês podem pensar que esse é um assunto irrelevante. Que, em vez de perder tempo com pronomes, eu deveria analisar coisas mais importantes, como o salário mínimo ou o auxílio-moradia à magistratura. Eu discordo. O problema dos pronomes é muito mais grave. Como é possível estabelecer uma sociedade minimamente organizada se nem sabemos como tratar uns aos outros?

Na semana passada, por exemplo, enfrentei inúmeros empecilhos desse tipo. Eu estava atrás de um visto de ingresso para a Rússia. Para consegui-lo, fui obrigado a ligar para diplomatas de meio mundo. Como tratar o primeiro-secretário da nossa embaixada em Moscou, que foi gentilíssimo comigo: excelência? O senhor? Você? Outro problema é nosso absoluto desdém por sobrenomes. Adaptando-se aos costumes brasileiros, o cônsul russo em Brasília se faz chamar apenas de Sérgio. Acontece que na linguagem escrita somos mais formais do que na falada. Quando tive de mandar um fax para o cônsul Sérgio, fiquei com vergonha de endereçá-lo sem sobrenome, e acabei perdendo dois dias de viagem. A esta hora, eu já deveria estar em Moscou. Em vez disso, continuo em casa. Tudo porque faltou um sobrenome. A minha teoria é que esse excesso de intimidade de chamar as pessoas somente pelo prenome é uma herança da escravatura. Os escravos sempre foram chamados com prenomes e apelidos, sem sobrenomes. Ou seja, é mais um sintoma dos desarranjos atávicos do nosso país. Por isso eu digo que, resolvendo as ambigüidades acerca de pronomes e prenomes, fica mais fácil acertar o resto, diminuindo o desemprego, a violência, o déficit na balança de pagamentos. Acreditem em mim.